Com o coração na mão
Tecnologia premiada, desenvolvida pela PUC-Rio em parceria com o Instituto Fernandes Figueira, permite que gestantes de bebês com patologias cardíacas ampliem entendimento sobre quadros clínicos por meio de modelos 3D
Assessoria de Comunicação Institucional da PUC-Rio
O título é metafórico e literal. Se, por um lado, nada pode ser mais angustiante do que gerar um filho com patologias diagnosticadas ainda no ventre, sem o menor conhecimento sobre a doença e seu prognóstico - e é grande também a dificuldade de um médico demonstrar, com palavras ou desenhos, a complexidade de um caso; por outro, o projeto "Impressão 3D como suporte ao pré-natal", que cria modelos físicos de corações fetais, chegou para revolucionar a comunicação com as gestantes de risco e familiares.
O projeto é uma iniciativa que une a vanguarda tecnológica ao profundo acolhimento humano, realizado em parceria entre a PUC-Rio e o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), com o apoio do Instituto de Estudos em Tecnologias da Saúde (IETECS).
A partir de modelos do coração correspondendo ao seu tamanho real, ou aumentado em até três vezes, e representando a patologia associada, o objetivo era ampliar o entendimento dos pais e dar suporte a decisões difíceis na área da cardiologia. O trabalho trouxe diversos reconhecimentos para a Universidade, sendo o último deles o Prêmio VEJA SAÚDE Oncoclínicas de Inovação Médica, na categoria Engajamento e Empoderamento do Paciente.

Equipe multidisciplinar premiada - Foto: Matheus Santos, Comunicar/PUC-Rio
A dissertação do mestrado em Design de Pedro Paulo Ramalho, intitulada “Impacto dos modelos físicos do coração fetal na assistência pré-natal” — orientada pela professora Luiza Novaes, do Departamento de Artes e Design, e coorientada pelo médico radiologista e também professor da PUC-Rio, Dr. Heron Werner—, conectou-se a projeto em andamento no Laboratório de Biodesign, voltado à criação de modelos 3D de corações fetais, a partir de exames de imagem.

Modelos 3D no Biolab - Foto:Matheus Santos, Comunicar/PUC-Rio
– Durante o mestrado, meu foco foi estruturar e validar a metodologia, garantindo precisão anatômica e mostrando como esses modelos poderiam ser usados para apoiar médicos, gestantes e familiares na compreensão de diagnósticos complexos. o projeto submetido aos prêmios nasceu desse mesmo contexto, mas com outro objetivo: dar reconhecimento e visibilidade a esse trabalho, ampliando seu impacto além do espaço acadêmico. ou seja, enquanto a dissertação consolidou a base científica e metodológica, a participação nos prêmios buscou mostrar o alcance social, inovador e humano do projeto – relata Pedro Paulo, que foi a campo no IFF e em um centro de saúde que não atende gestantes de alto risco, visando à pesquisa comparativa.

Pedro Paulo Ramalho com sua orientadora de mestrado, a professora Luiza Novaes - Foto:Matheus Santos, Comunicar/PUC-Rio
– Focar em gestantes com cardiopatias fetais surgiu de uma observação do Dr. Heron, que notou a dificuldade em lidar com a situação. O projeto visou, acima de tudo, atuar na ansiedade gerada pela falta de compreensão, aponta a Dra. Fátima leite. Para ela, “nada como mostrar para a gestante o coração com a doença do seu filho, exatamente do tamanho que o coração é, colocar ao lado um coração e falar: ‘Olha, aqui está errado, está vendo? O coração normal é assim”.
O impacto desse método é profundo e direto, e Pedro Paulo relata um caso que marcou a equipe: a gestante de um bebê que tinha uma cardiopatia muito grave, apesar de tudo, não chorava; quando ela segurou o coração do tamanho que era caiu em prantos”. Para o Dr. Heron, foi o momento em que “caiu a ficha” daquela mãe, mostrando que o projeto não era apenas uma ferramenta tecnológica, mas um meio de tocar as emoções e facilitar a aceitação da realidade.

Gestante do Instituto Fernandes Figueira interagindo com modelos físicos 3D para compreensão de cardiopatias fetais - Foto: divulgação
Da tecnologia ao toque: a jornada dos modelos 3D
O processo de criação dos modelos é uma demonstração de como a tecnologia de ponta se integra à pesquisa humanizada. A partir de um ultrassom 3D/4D, as imagens volumétricas do coração fetal são exportadas para um software e segmentadas.
Em seguida, um arquivo de linguagem é enviado a uma impressora 3D, no laboratório de Biodesign, que materializa a anatomia do órgão. “Colocávamos uma cor em função do que tinha de material, mas o importante era mostrar que o vaso estava saindo do lugar errado”, explica o professor Heron.

Imagem do software que segmenta o coração (slicer) - Divulgação
Impressora 3D de Alta Precisão Aplicada à Medicina para Criação de Modelos Anatômicos Personalizados - Foto: DivulgaçãoA Dra. Carla Farias ressalta a importância do modelo físico, especialmente a sensação tátil. “Por mais moderno que seja o aparelho de ultrassom, ainda é difícil, pela imagem, explicar o problema para a paciente. Ainda é muito abstrato.” Ela adiciona um detalhe que surpreendeu as gestantes: “Uma das coisas que elas mais se espantavam era com o tamanho do coração... ‘nossa, mas é desse tamanhinho?’... Uma coisa é você saber o tamanho. Outra coisa é você vivenciar o tamanho. É uma sensação tátil.”

Modelo de coração com cores distintas - Divulgação
Além dos orientadores, o projeto contou com uma equipe multidisciplinar de estudantes, incluindo o aluno da Psicologia da PUC-Rio José Gabriel Nunes – que utilizou estatística para analisar os questionários aplicados às gestantes; e as alunas de Medicina Júlia Juliasse (UNESA) e Camila Mannarino (UFJF), que participaram da coleta de dados junto às mães.Para Camila, o projeto foi uma oportunidade de “ver, na prática, o efeito de apresentar o coração às mães, o que foi muito gratificante...”. Já a estudante Júlia ressaltou a importância de “estudar fundo as patologias, para explicar para as mães usando o modelo físico”, destacando que a experiência foi muito enriquecedora.
O trabalho teve ainda a participação da pesquisadora Gabriella Marques Cantanhede, formada em Design pela Universidade, que ficou responsável pela interface das apresentações e pela codificação visual dos resultados, permitindo que a informação fosse mais bem transmitida para a pesquisa.
Dos 21 casos analisados, seis eram de gestantes com cardiopatias. Os questionários revelaram que a maioria delas sentiu-se mais informada para tomar decisões, e a ansiedade diminuiu, mesmo diante de diagnósticos difíceis. Para Pedro, “é algo muito mais que um trabalho, algo que toca realmente na experiência delas.
De acordo com a Dra. Carla, o diferencial é exatamente essa dimensão do acolhimento, pouco explorada na Medicina e uma lacuna no sistema de saúde: “Para o meu paciente, que está no meu hospital de cardiologia... eu faço o desenho. Não temos isso em um hospital de cardiologia”.
Horizontes de transformação

Pedro Paulo dará continuidade aos estudos no Doutorado - Foto: Matheus Santos, Comunicar
Além do prêmio da Veja, o projeto foi o primeiro colocado na Jornada Paulista de Radiologia 2025, recebendo o prêmio Magna Cum Laude e o quarto lugar na categoria Estudo Original, no Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia 2025.
O próximo passo, já no doutorado de Pedro Paulo em Design, será a expansão da pesquisa para estudantes de Medicina. No lugar de Luiza Novaes, junta-se à equipe, como orientadora do doutorado, a professora Roberta Portas.

Modelos impressos em 3D de corações fetais utilizados para educação médica - Divulgação
A equipe avaliará se a visualização de modelos 3D, tanto físicos quanto virtuais, auxilia no aprendizado e na compreensão de patologias complexas, reforçando a missão de formar profissionais mais humanizados. Para o professor Heron, a colaboração mostra que a inovação acontece onde há um ambiente de troca:
– Não adianta ter equipamentos e ferramentas, se eu não tenho um ambiente de troca, o que está no cerne do trabalho. E isso só se encontra em uma universidade, sobretudo como a PUC-Rio, que tem a interdisciplinaridade beneficiada por um campus integrado, e, além da qualidade laboratorial e de ensino e pesquisa, agora caminha para ter seu próprio curso de Medicina.
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