Português
Prova discursiva realizada no
dia 04/07/98 das 8:00 às 12:00.
Enunciado das questões e gabarito.

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Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primei-
ro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas
considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor
defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim
mais galante e mais novo. Móises, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: dife-
rença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela
chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de tre-
zentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve
cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda, triste e constante, tão cons-
tante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso
que proferiu à beira de minha cova: - "Vós, que o conhecestes, meus senhores, vós podeis dizer comigo
que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado
a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um
crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um
sublime louvor ao nosso ilustre finado".

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.
Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1971, volume I, p.513-4.

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Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos - e, antes de começar,
digo os motivos porque silenciei e porque me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutili
-zadas, e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir
esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se
ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu a idéia de jogar no
papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las,
dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história
presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetin-
do palavras contestáveis e obliteradas?

(...) Certos escritores se desculpam de não haverem forjado coisas excelentes por falta de liberdade - talvez
ingênuo recurso de justificar inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimi-
dos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limi-
tes a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.

Graciliano Ramos. Memórias do cárcere
São Paulo: Record, 1996, volume I, p.33-4.

 
1

Observa-se nos dois textos a exploração da metalinguagem, ou seja, a proposta de comentar e refletir criticamente o próprio ato de escrever, transformando a narrativa em metaliteratura. Comente tal procedimento retirando exemplos dos fragmentos selecionados que justifiquem a sua resposta.

Resposta

Machado de Assis e Graciliano Ramos utilizam a metalinguagem como um procedimento de reflexão do próprio ato de escrever. Através do personagem / narrador de cada romance, eles comentam o processo de elaboração do texto literário, abrindo uma perspectiva de diálogo crítico com os leitores. Os exemplos podem ser retirados do primeiro parágrafo do TEXTO 1 e dos dois parágrafos do TEXTO 2.


 
2

Machado de Assis e Graciliano Ramos, nomes consagrados da literatura brasileira, pautaram as suas respectivas obras por uma visão crítica e um olhar irônico diante da sociedade de sua época. Retire passagens dos textos que confirmam tal fato.

Resposta

TEXTO 1 - "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte", "... a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço", de "Acresce que chovia - peneirava - uma chuvinha miúda" até "tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado".

TEXTO 2 - O último parágrafo


 
3

Reescreva os trechos abaixo, substituindo as palavras destacadas por outra(s), sem alterar o sentido original do texto. Faça as adaptações necessárias.

a) ... repetindo palavras contestáveis e obliteradas? (linha 10, texto 2)

Resposta

...repetindo palavras questionáveis e obliteradas?

b) ... nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei... (linha 15, texto 2)

Resposta

...nos estreitos limites que a gramática e a lei nos impõem.


 
4

Continue as sentenças de forma a construir períodos coerentes:

a) Liberdade completa ninguém desfruta; ENTRETANTO,

Resposta

Liberdade completa ninguém desfruta; entretanto, os limites a que estamos sujeitos não são absolutos.

b) Liberdade completa ninguém desfruta; PORTANTO,

Resposta

Liberdade completa ninguém desfruta; portanto, conforme-se em tê-la cerceada em algumas situações.

c) Liberdade completa ninguém desfruta, PORQUE

Resposta

Liberdade completa ninguém desfruta, porque a vida em sociedade impõe alguns limites aos homens.


 
5

Um certo defunto que jazia próximo à cova de Brás Cubas acusou-o de desrespeitar os cânones literários do Além.

Reescreva a frase acima de DUAS maneiras diferentes, omitindo o autor da acusação descrita. Utilize, para isso, as seguintes construções:

a) frase com sujeito indeterminado:

Resposta

Acusaram Brás Cubas de desrespeitar os cânones literários do Além.

b) frase com verbo na voz passiva:

Resposta

Brás Cubas foi acusado de desrespeitar os cânones literários do Além.