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Um asteroide pra chamar de seu

Pesquisador da Física Daniele Fulvio é homenageado pela International Astronomical Union dando nome ao asteroide 11465

Por Renata Ratton
Assessora de Comunicação – Vice-Reitoria Acadêmica

Publicado em 27/04/2017

O professor Fulvio, no Laboratório de Astrofísica Experimental e Ciências Planetárias do Departamento de Física O professor Fulvio, no Laboratório de Astrofísica Experimental e Ciências Planetárias do Departamento de Física - crédito: divulgação

Observado pela primeira vez em 1981, o asteroide 11465 agora tem nome: (11465) Fulvio.

A denominação é uma homenagem da International Astronomical Union (IAU) ao professor Daniele Fulvio, do Departamento de Física, um siciliano que, aos 37 anos de idade, passa a integrar seleto grupo de cientistas agraciados com essa honraria por seus méritos científicos. Mais restrito ainda considerando a pouca idade.

A cada ano, a International Astronomical Union (IAU) – entidade mundial responsável por denominar todos os tipos de corpos celestes – atribui nomes de celebridades, pesquisadores de destaque, entre outras categorias elegíveis, a esses corpos.

Originalmente, apenas os astrônomos observadores, que descobriam os asteroides, tinham o privilégio de propor o nome, num prazo de dez anos, escrevendo uma breve citação explicando as razões para atribuir o nome, de acordo com as diretrizes da IAU; com o avanço da tecnologia, a descoberta dos asteroides passou a ser um processo feito através de telescópios automatizados. Consequentemente, um número muito maior de corpos é detectado cada ano, e a forma de atribuir nomes mudou um pouco. Todos os nomes propostos são julgados pelo Grupo de Trabalho pela Nomenclatura de Corpos Pequenos (CSBN) da AIU, composto por 15 astrônomos profissionais de todo o mundo.

O “batismo” do asteroide 11465 pegou de surpresa o pesquisador da PUC-Rio cuja indicação foi feita anonimamente por colegas astrónomos, aprovada pela comissão CSBN e mantido em sigilo até a divulgação durante o Asteroids, Comets and Meteors, congresso que, na edição 2017, foi realizado em Montevidéu, Uruguai. Fulvio observa que, curiosamente, foi Giuseppe Piazzi, astrônomo do Observatório Nacional de Palermo (Sicília), o primeiro a descobrir e nomear um asteroide, em 1801, o asteroide Ceres (agora classificado como planeta anão).

Até o momento, de cerca de 750 mil asteroides descobertos, apenas em torno de 21 mil têm nome, já que essa atribuição percorre (literalmente) uma longa trajetória.  

— Um asteroide descoberto hoje não terá um nome amanhã, ele é apenas um dado com uma designação provisória. Pode levar décadas, como foi o caso do (11465) Fulvio, descoberto em 1981 (designação provisória: 1981 EP30), para deixar de ser um dado provisório e receber um número permanente. Em primeiro lugar, é preciso que a sua órbita seja suficientemente determinada para que a posição possa ser predita de forma confiável no futuro. Tipicamente, isso significa que o asteroide foi observado em quatro ou mais oposições, que podem ser provenientes de vários telescópios. Determinada a sua órbita, o asteroide passa a ser numerado em caráter permanente, e só a partir de então os nomes sugeridos e aprovados pela IAU poderão ser atribuídos a esses corpos celestes, esclarece o pesquisador.

Vale destacar ainda que o batismo do asteroide é uma homenagem e não uma associação direta com a pesquisa de quem o batizou. “Praticamente tudo o que sei sobre o meu é que está no cinturão de asteroides (região do Sistema Solar compreendida aproximadamente entre as órbitas de Marte e Júpiter), tem um diâmetro de 12,5km e baixa refletividade”, comenta Fulvio.

Daniele Fulvio: pesquisas reconhecidas pela IAUDaniele Fulvio: pesquisas reconhecidas pela IAU - crédito: Renata Ratton - VRAC

Contribuições à Ciência – Do ponto de vista dos astrônomos, existem três tipos: os observativos – que, como o nome indica, trabalham com observações dos telescópios; os teóricos, que trabalham com modelos físicos e matemáticos para interpretar as observações; e os experimentais, nos quais o professor Fulvio se enquadra, desenvolvendo seus ensaios no Laboratório Van de Graaff.

Os experimentos de Daniele Fulvio simulam o que acontece no espaço, mais especificamente os processos físico-químicos que ocorrem na superfície dos asteroides: “Sou um astrofísico experimental que tenta simular os efeitos do vento solar na superfície dos asteroides, o que é fundamental para interpretar os dados das missões especiais e telescópios. ”

Fulvio trabalha com um grande problema, surgido há cerca de 20 - 25 anos. Ao se comparar os dados de alguns asteroides, obtidos pelos telescópios, com os dados dos meteoritos – fragmentos dos asteroides que, teoricamente, deveriam ter a mesma composição – percebeu-se que havia diferenças espectrais (reflexão da luz).

— Às vezes, os teóricos podem determinar precisamente de qual corpo o meteorito se originou, mas não como seu espectro pode ser diferente. Ocorre que, quando adentra a atmosfera e seu exterior entra em combustão, o meteorito “esquece” o que aconteceu nessa parte externa. O asteroide fica a 4.5 bilhões de anos e recebe um fluxo de partículas provenientes do sol, chamado de vento solar, também a 4.5 bilhões de anos. Portanto, se a superfície do asteroide é processada a 4.5 bilhões de anos, um fragmento encontrado na Terra deveria ser comparado ao interior do asteroide, e não à sua superfície. Como apenas a superfície é passível de observação, tento, em laboratório, simular os efeitos do vento solar sobre o fragmento (a superfície original), utilizando o acelerador de partículas. O efeito total do vento solar é denominado space weathering ou intemperismo espacial. Com a continuidade da radiação, é possível verificar que o espectro do meteorito fica igual ao da superfície do asteroide – explica o professor, que já trabalhou com várias classes de meteoritos e asteroides.

Daniele Fulvio é o primeiro em sua área, a Astrofísica Experimental, no Brasil, homenageado pela International Astronomical Union dando nome a um asteroide. Suas outras linhas de pesquisa são a Astroquímica e a Astrobiologia, que estudam a evolução das moléculas de interesse astrofísico e a origem da vida do ponto de vista molecular. Tem produção científica regular, com publicações em periódicos Qualis A1 e A2, os mais prestigiados pela Capes.

— Para mim, a escolha foi uma grande honra, e acredito que para a Universidade e o Departamento de Física seja importante ter, em seus quadros, um pesquisador com essa distinção, alegra-se.

Trocadilhos a parte, pode-se considerar um feito astronômico.


http://www.minorplanetcenter.net/db_search/show_object?object_id=11465

Sobre a IAU e os brasileiros agraciados durante o congresso Asteroids, Comets and Meteors, em Montevidéu:
A IAU foi fundada em 1919, com a missão de promover e salvaguardar a ciência da Astronomia em todos os aspectos, por intermédio da cooperação internacional.

No arquivo: http://www.minorplanetcenter.net/iau/ECS/MPCArchive/2017/MPC_20170413.pdf, é possível encontrar os oito brasileiros contemplados, além de Fulvio (que é italiano, mas mora e trabalha no Brasil) e mais uma localidade de Pernambuco que deu nome a um dos asteroides da lista. Todos os citados podem ser encontrados nos números: 10018 / 10468 / 10677 / 10696 / 10697 / 10741 / 10999 / 11260 / 11265 e 11465 (Fulvio, neste último).

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