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Cerrado: restauração ou extinção

Coordenado pelo professor Bernardo Strassburg, da Geografia, estudo publicado na Nature Ecology and Evolution aponta extinção de plantas em proporções catastróficas, mas também soluções para transformar a tragédia ambiental em exemplo de superação

Por Renata Ratton
Assessora de Comunicação – Vice-Reitoria Acadêmica

Publicado em 27/03/2017

O professor da Geografia Bernardo Strassburg, coordenador do CSRio, está à frente do estudo publicado na Nature, no último dia 23 O professor da Geografia Bernardo Strassburg, coordenador do CSRio, está à frente do estudo publicado na Nature, no último dia 23 - crédito: JP Araújo

O número assusta. Uma extinção de plantas dez vezes superior às espécies registradas como desaparecidas em todo o mundo, desde 1500. Caso o desmatamento persista na dinâmica atual, essa é a projeção para o cerrado brasileiro nas próximas três décadas, segundo artigo publicado no dia 23 de março na revista Nature Ecology & Evolution. Como consequência direta, embora não mencionada no trabalho – já que o Cerrado é classificado internacionalmente como hotspot de biodiversidade por conta de sua flora – é de se esperar que a extinção atinja a fauna local, peixes, mamíferos, anfíbios e outros vertebrados na mesma proporção.

Coordenado pelo professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente Bernardo Strassburg, e envolvendo pesquisadores brasileiros e estrangeiros, o estudo que deu origem ao artigo Moment of truth for the Cerrado hotspot também aponta uma janela de oportunidade para a reversão desse colapso da biodiversidade, com ações voltadas à otimização do uso das terras desmatadas e à restauração ambiental em áreas estratégicas, com priorização espacial.

– O cenário atual (tendencial) deriva do desmatamento para a expansão das culturas da soja e da cana de açúcar e para as pastagens. Goiás e Mato Grosso constituem os estados mais afetados pela projeção. Há uma combinação de baixa proteção formal – menos de 10% do Cerrado é coberto por unidades de conservação – com alta aptidão agrícola, no bioma que já perdeu metade da sua área, mas ainda contém mais de 4600 espécies de plantas inexistentes em outro local do planeta, explica o professor, que é também Coordenador do Núcleo de Ciências para a Conservação e Sustentabilidade do Rio (CSRio) e Diretor Executivo do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), parceiro de pesquisas da Universidade.

Aliado a isso, o Cerrado atrai poucos investimentos diretos em conservação, embora seja fundamental para os recursos hídricos e para as metas nacionais e internacionais de combate às mudanças climáticas:

– A extinção das 35% das espécies de plantas levaria à emissão de 8,5 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a duas vezes e meia tudo o que o Brasil deixou de emitir com a grande queda do desmatamento da Amazônia entre 2005 e 2013. O País comprometeria sua reputação internacional como líder em economia verde ou desenvolvimento sustentável, colocando o agronegócio como responsável por uma das maiores tragédias registradas para a biodiversidade mundial. Além do aspecto moral, a extinção traria, ainda, impactos graves para a manutenção de um ecossistema fundamental para a economia e a sociedade brasileira, aponta Bernardo.

Uma chance para o Cerrado verde – Na contramão do que vem sendo feito no Cerrado, os principais mercados consumidores mundiais estão construindo metas de exclusão de cadeias associadas ao desmatamento e à degradação ambiental. Entretanto, o estudo publicado na Nature Ecology and Evolution propõe uma conciliação e foca suas análises na busca por soluções que atendam a todos os atores – o cenário do Cerrado verde.

Se desmatamento continuar avançando na proporção atual, extinção de proporções catastróficas está prevista para o Cerrado, hotspot mundial de biodiversidade Se o desmatamento continuar avançando na proporção atual, extinção de proporções catastróficas está prevista para o Cerrado, hotspot mundial de biodiversidade

– Existe um espaço de tempo entre o desmatamento e a extinção propriamente dita, pois o ecossistema degradado, vai, paulatinamente, deixando de comportar tantas espécies. Isso nos abre uma janela positiva porque, cessando o desmatamento e iniciando o plantio estruturado de espécies nativas em locais estratégicos, contamos com esse tempo para evitar a extinção”, esclarece o pesquisador.

Os autores do trabalho demostram ser possível conciliar todo o aumento previsto para soja, cana e pecuária em terras desmatadas, liberando, inclusive, áreas para a recuperação da vegetação nativa exigida pelo código florestal. E dão a receita: aumentando a produtividade das áreas dedicadas à pecuária de 35% para 61% de seu potencial sustentável, seria possível encaixar os mais de 15 milhões de hectares de expansão de soja e cana e ainda os 6,4 milhões de hectares para a recuperação da vegetação nativa, a chamada restauração ambiental das áreas críticas, escolhidas estrategicamente por intermédio de complexos modelos matemáticos.

“A recomposição da vegetação nativa pode evitar 83% do quadro de extinção. A restauração de seis milhões de hectares do Cerrado, prevista no código ambiental, terá um impacto muito maior se for feita nessas áreas estratégicas”, sublinha o professor Bernardo. “A nova Política Nacional de Recuperação Nativa, criada por decreto presidencial em fevereiro de 2017, poderá auxiliar na promoção da restauração em áreas prioritárias, reforça Carlos Scaramuzza, Diretor de Ecossistemas do Ministério de Meio Ambiente e um dos autores do artigo.  O CSRio participou do pequeno grupo de desenvolvimento dessa política.

Os pesquisadores selecionaram oito grandes áreas e políticas que, caso implementadas e executadas com foco em evitar as extinções, poderiam promover a conciliação entre a produção e a conservação. É o caso da Moratória da Soja, uma história de sucesso na Amazônia, onde praticamente se eliminou a conversão direta de floresta para soja. Caso fosse estendida ao Cerrado, como está em discussão, seria um gigantesco passo para assegurar um futuro sustentável para a região.

– As políticas já existem e foram usadas com sucesso na Amazônia, pondera Bernardo. O necessário agora é vontade e foco para coordená-las com esse objetivo. Não é simples, mas com um esforço concentrado dos atores públicos e privados envolvidos, e a pressão adequada da sociedade, o Brasil pode converter um enorme desastre em uma história de sucesso”, preconiza.

Nature - O estudo publicado na Nature Ecology & Evolution é fruto de colaboração acadêmica voluntária iniciada em março de 2016, quando o professor se encontrava em Cambridge trabalhando junto ao professor Andrew Balmford, da Universidade de Cambridge, o segundo autor principal do artigo. A pesquisa integra as atividades do Núcleo de Ciências para a Conservação e Sustentabilidade da PUC-Rio cuja sistemática é a cooperação científica em rede.  

Esta é a terceira publicação Nature coordenada pelo professor Bernardo Strassburg – outro estudo foi publicado na Nature Climate Change, além de nota publicada na própria Nature. O professor Bernardo foi autor também de um estudo publicado na revista Science. Do Núcleo de Ciências para a Conservação e Sustentabilidade, outros três pesquisadores assinam o presente artigo: a professora da Geografia Agnieszka Latawiec, Alvaro Iribarrem e Renato Crouzeilles.

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