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Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
Pós-Graduação
 
 

Projetos de pesquisa Imagem ilustrativa deste item

Linha de Pesquisa: Comunicação e Experiência

O documental no cinema e na televisão: imagens e sentidos em disputa
Docente: Profª. Drª. Andréa França

Descrição:

O documental no cinema e na televisão: imagens e sentidos em disputa” visa ampliar, aprofundar e sistematizar estudos que venho desenvolvendo há alguns anos no campo do documentário, seja no campo do cinema, das artes ou da televisão. Trata-se de uma reflexão sobre imagens e práticas documentais que amplia e desloca a noção de documento, considerando-o uma composição complexa de camadas de tempos, sentidos, lacunas, uma composição em aberto para novas leituras - e não um objeto dado a priori (Comolli, 2004; Didi-Huberman, 2003; Mitchell, 2011). Em foco, está a possibilidade de ler a imagem-documento como mapa cognitivo, afetivo, sensorial, cujos referentes imediatos cedem espaço para associações, justaposições e imersões novas.   

Antecedentes:

O cinema documental brasileiro vem propondo um diálogo profícuo com a falta de documentos testemunhais - pictóricos, impressos, audiovisuais - da época da ditadura no país. Elena (Petra Costa, 2013), Os dias com ele (Maria Clara Escobar, 2013), Diário de uma Busca (Flavia Castro, 2010), Uma longa viagem (Lucia Murat, 2011), Utopia e barbárie (Silvio Tendler, 2009), Cidadão Boilesen (Chaim Litewski, 2009), entre outros, apostam em atos performativos, em narrativas poéticas e sensoriais, para lidar com essa falta. Situações, afetos e traumas do passado são teatralizados (auto-performance do diretor) de modo a permitir que a imagem-documento (fotografias, sobretudo) seja experimentada não de um modo único, como revelação de uma evidência, mas como superfície lacunar, sempre passível de novas leituras.

Imagem e montagem exploram as sensações inscritas no corpo daqueles que encenam a dor (do exílio, da morte, da ausência), transformando o documentário não em uma janela aberta para a história do país, mas num teatro explícito e reinvidicado, onde gestos, falas e experiências exibem a difícil dinâmica das relações entre documental e ficcional, documento e lacuna, memória e história, imagens domésticas e públicas. Em meio a essa dinâmica, emerge uma imagem-documento povoada de incompletudes e vestígios do que foi, convocando o espectador a participar de um universo familiar - de filhos, pais - e estranhamente opaco. Filmes que revelam portanto imagens lacunares friccionadas pelas ausências íntimas e históricas.

Tais propostas colocam questões à noção de documento, à prática da montagem, à produção cinematográfica e audiovisual. A utilização de imagens-documento não como lugar de atestação ou de referência, mas como lugar de incompletude e do sensorial (Deleuze, 2007) é o que tem mobilizado essa pesquisa. Artigos como “Imagem-performada e Imagem-atestação: o documentário brasileiro e a reemergência dos espectros da ditadura” (Revista Galáxia, v. 28, 2014), “Os brinquedos-fósseis e o tempo da memória” (em: Eu assino embaixo: Biografia, memória e cultura, 2014), “Figuras da imersão visual do espectador na imagem: a construção dos lugares de experiência nas práticas documentais contemporâneas” (Comunicação, Mídia e Consumo v. 10, 2013), “Documento, arquivo e ensaio fílmico: a apropriação de imagens na produção audiovisual contemporânea” (Revista Galáxia v. 11, 2011), entre outros de minha autoria, são referências importantes dentro dessa discussão.

Por outro lado, no domínio da televisão, se minhas publicações anteriores investigavam nos documentários feitos nos anos 1970, o desejo de enunciar asserções e verdades sobre o mundo e o tempo (França, 2012), o projeto atual estuda, a partir de um conjunto de programas da década seguinte feitos para a Rede Bandeirantes e a extinta Rede Manchete, a noção de documento vinculada não à ideia de atestação/asserção, mas como experimentação sensorial, plástica e sonora (América, de João Moreira Salles, Angola, de Roberto Berliner, African Pop, de Belisário Franca, entre outros). No recorte específico da relação entre documentário e TV, a década de 1980 no Brasil inaugura um pensamento do documental conectado à consciência das múltiplas mediações da imagem. O vídeo convoca uma consciência crítica, estética e política de que o “real”, na sua dimensão ontológica, é desafiado radicalmente pelo advento da tecnologia digital - no cinema, na fotografia, na televisão, nas artes em geral. O vídeo inaugura no campo das imagens documentais uma discussão sobre o sentido de realidade, de referente, e expande o alcance sensorial, afetivo e cognitivo do mundo (Dubois, 2004; Bellour, 1997). A emergência da noção de paisagem documental, na TV, é favorecida pela experimentação visual, plástica e sonora com o vídeo.

É precisamente essa situação no domínio das imagens que solicita uma maior urgência às interrogações que o crítico francês Serge Daney se coloca em meados dos anos 1980: como se inserir nesse fluxo audiovisual? Como instaurar diferença em meio à homogeneidade das imagens? Como inventar novas maneiras de olhar? Como dirá Daney, habitar o mundo é ser habitado por imagens, por todas elas - do cinema à televisão, da publicidade às galerias de arte e museus; habitar o mundo é desde então ser habitado por imagens que atravessam o próprio percurso do olhar, imagens que nos constituem, nos assujeitam, nos (con)formam mas que também nos redefinem e libertam quando inventam relações novas entre si, de modo a convocar no espectador diferentes afetos - o mal-estar, a dúvida, o desconforto (Comolli, 2004).
Eis, portanto, uma relação - entre imagem-documento, cinema, televisão - histórica e certamente complexa que nos estimula a refletir sobre a noção de documento nas suas conexões com a memória histórica e o esquecimento, com as imagens enquanto campo de disputa de sentidos, com a montagem como gesto capaz de operar deslocamentos e ressignificações do que já está dado. Queremos discutir e problematizar essa relação no que diz respeito ao aumento da produção de documentários em todo mundo e à profusão de imagens documentais não só nas salas de cinema, nos festivais e na televisão, mas na internet, em dispositivos móveis como celulares, nos espaços das galerias, bienais e museus.

Objetivos:

  • Contribuição teórica à relação entre a noção de documento, documentário, televisão e cinema na busca de um refinamento da discussão sobre produção, circulação e exibição de imagens documentais.
  • Contribuição aos estudos da produção audiovisual contemporânea, investigando a articulação entre a noção de documento e lacuna, documental e ficcional, e sua implicação no domínio das disputas de sentido histórico e político em torno das imagens.  
  • Problematização das noções que constituem práticas e discursos em torno das imagens documentais.
  • Estabelecer uma avaliação histórica e crítica sobre o encontro do documentário com a TV no Brasil, a partir dos diferentes concepções do documental, averiguando suas relações com a memória e o esquecimento, o testemunho e a imagem-documento.

Perspectivas Teóricas

O projeto pensa o documentário dentro de um contexto midiático ávido por imagens documentais na sua dimensão de verdade, urgência e atestação. Dentro do nosso recorte porém, interessa pensar o documental como imagem indecifrável e sem sentido determinado, enquanto não for trabalhada na montagem. Fotografias ou imagens em movimento dizem muito pouco antes de serem colocadas em relação com outros elementos, associadas a outras imagens, temporalidades, textos, depoimentos, campos artísticos. Segundo Georges Didi-Huberman, os historiadores têm muita dificuldade para trabalhar com imagens do passado porque se demanda com freqüência muito à imagem ou, ao contrário, quase nada. Quando se demanda muito – ou seja, que ela diga “toda a verdade” – fica-se rapidamente decepcionado: as imagens são apenas fragmentos arrancados, pedaços diante das quais aquilo que vemos é frequentemente pouco em comparação ao que sabemos. E quando se demanda pouco à imagem, o movimento é de desqualificação, de exclusão da imagem do campo da história e do conhecimento sob a alegação de que ela não passa de simulacro (Didi-Huberman, 2003, p. 85).

Nos seus escritos, Didi-Huberman reafirma a imagem - pictórica, fotográfica, em movimento - como constituída por camadas, temporalidades, lacunas, passível sempre de novos sentidos, posto que não é um objeto inteiro, que possa ser capturado de uma vez por todas. Trata-se portanto de desmontar cada imagem, dissociá-la de imagens já dadas, contrastá-las, reagrupá-las, para que possa justamente aparecer o espaço entre elas, suas relações subjacentes. Seu conceito de imagem de arquivo (imagem-documento) é importante a essa pesquisa posto que explicita a imagem na sua precariedade e lacuna, mas também na sua dimensão de testemunho, do gesto que a tornou possível (2003).  

Também interessa ao projeto a relação da imagem-documento com a noção de paisagem. Certamente a paisagem não é um tema ideologicamente neutro e sua reemergência em determinadas épocas traz motivos diversos. As razões para o seu aparecimento na televisão da década de 1980 estão, portanto, no horizonte de nossa investigação. Se, como coloca Anne Cauquelin, a Natureza é uma “ideia que aparece vestida” em perfis intercambiáveis, perspectivistas, por meio da emergência de formas historicamente constituídas (2007, p. 151), queremos pensar de que modo a emergência da paisagem (urbana, da natureza) na TV se mistura às reflexões dos anos 1980 que atentam para a transformação na natureza das imagens quando elas passam a constituir um território de contaminação entre si – imagens do cinema, da televisão, do vídeo, da fotografia, do mundo digital. Neste cenário, a reinvindicação do documentário, ou da televisão, sobre si mesmo, em termos teóricos ou práticos, já não faz mais sentido (Le Péron, 1981; Bertin, 1981; Frapat, 1981). 

Tal abordagem mobiliza questões que alavancaram esse projeto: que afetos e ideias as paisagens documentais televisivas - do Japão, de Angola, da África, da América – perpetuam? Como essas produções tencionam o entendimento do documental enquanto “retratos do real” em prol de experiências não simplesmente subjetivas (a ilusão), mas de visões assubjetivas que operam na materialidade da imagem? As paisagens documentais, nesse sentido, são mais que instâncias geográficas; são construções sensoriais, culturais e memorialísticas em meio às quais a natureza, as cidades, o homem tornam-se uma evidência soberana que nos atravessa, um espasmo, a potência de um instante que nos abre à duração paradoxal de uma epifania (Deleuze, 2007).

Imagens documentais de terras distantes transformadas em paisagem pela televisão. Essa tema ecoa nas reflexões de Youssef Ishaghpour quando afirma, a partir do cinema de Abbas Kiarostami, que a paisagem só se torna visível nos seus filmes por ser o “longínquo” (2004). O longínquo dos lugares, dos povos, dos hábitos, desenha o Outro como opacidade que irrompe inesperadamente. Queremos pensar como os documentários televisivos no Brasil produzem imagens de terras distantes, como se dão os procedimentos estéticos e suas formas de fruição, como se formulam - ou não - formas de alteridade múltiplas.

Metodologia

Além das obras e dos autores citados, queremos dialogar com cineastas que trabalham com a retomada de materiais de origens diversas, como Bill Morrison, Agnès Varda, Peter Forgács, Harun Farocki. Nossa ideia não é analisar diretamente a produção desses cineastas, mas fazer de suas obras interlocutores que nos auxiliem para uma melhor investigação acerca dos procedimentos expressivos e estilísticos usados em práticas documentais diversas, atentando para o uso que fazem de imagens-documento (imagens de vigilância, domésticas, anônimas, institucionais) na sua relação explícita com as lacunas, as zonas de sombra, os resíduos; ou ainda, o uso das imagens-documento como experimento sensorial, sonoro, plástico (o tema da paisagem documental em Bill Morrison, por exemplo).  

Pensar o documentário dentro de um contexto midiático que começa a se ampliar é uma posição que encontra sustentação teórica nas reflexões elaboradas pelo crítico de cinema Serge Daney e pelo filósofo Gilles Deleuze  (1990), retomadas e aprofundadas por inúmeros pensadores contemporâneos, que apontam para uma mudança na natureza da imagem cinematográfica à medida que esta passou, inexoravelmente, a estabelecer relações mais intensas com a televisão, o vídeo, as imagens digitais. As imagens em movimento constituem, a partir dos anos 80, um território de contaminação entre imagens diversas e a reivindicação de um fechamento do cinema ou do documentário sobre si mesmo, em termos teóricos ou práticos, não faz mais muito sentido.

Esse estado de coisas também foi diagnosticado na mesma época pelo crítico de cinema franco-iraniano Youssef Ishaghpour ao definir a televisão como o "extra-campo" do cinema, algo que o determinava do interior e do exterior, e o artista como sendo obrigado a se tornar um "especialista" da mídia e do seu funcionamento (1986, p. 12). Para esse crítico, a criação artística só é possível no interior desse contexto, e não excluída dele. Não há mais como filmar uma certa realidade depurada de outras imagens, de modo que a criação no terreno das imagens tem daqui para frente não apenas o próprio cinema como pano de fundo, mas a multiplicidade de imagens que nos cerca, atravessa e constitui.

Interessa, nesse aspecto, investigar o lugar que o documentário nos anos 80 reserva ao telespectador brasileiro; se há, como na década de 70, a crença de que o trabalho por entre as brechas da reportagem pode suscitar um pensamento crítico a respeito do país, a crença de que o documentário pode ser o lugar dos “desvios” (da Tv, do cinema comercial), mesmo que imerso na efemeridade de uma mídia de massa.

O projeto explora e tira partido da ideia de W. J. T. Mitchell de que as imagens são “agentes” de uma disputa – de sentidos, de entendimentos, de percepções -, de que elas funcionam frequentemente como extensões de práticas políticas, que elas retornam, se misturam, nos buscam e nos interpelam de modo imprevisível. Se as imagens têm uma tendência a ganhar vida, ele afirma, elas nem sempre o fazem do mesmo modo (2011, p. 128). Para a pesquisa em foco, pensar as imagens documentais numa disputa é considerá-las na sua temporalidade, decomposição, desaparecimento, fragmentação e, por fim, na sua eventual sobrevida quando é retomada numa obra.

Bibliografia:

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Interações digitais: usos sociais da Internet em perspectiva etnográfica
Docente: Profª. Drª. Adriana Braga

Descrição:

Este estudo busca investigar as interações ocorrentes a partir dos ambientes de Internet. O objetivo central consiste em descrever e analisar aspectos da dinâmica interacional estabelecida entre participantes das interações sociais no ambiente digital. Em termos mais específicos, pretendo discutir formas particulares com as quais arranjos interacionais se organizam, bem como as relações de pertença e reconhecimento entre as participantes, à luz de teorias da enunciação e da interação social. Procurei caracterizar este ambiente de mídia como locus privilegiado do encontro entre cibercultura, práticas sociais e tecnologia computacional.

Antecedentes:

O presente projeto busca a dar continuidade a atividades de pesquisa já em andamento, desta vez enfatizando principalmente a dimensão de processo de subjetivação presente nas atividades on-line, em dinâmicas comunicacionais tais como constituição de identidades, processos de legitimação e criação de circuitos comunicacionais, aspectos componentes do universo de atividades digitais a que denomino “Ordem da Interação Digital”.
A problemática que norteia este estudo parte da compreensão das redes e mídias sociais, fenômeno midiático expressivo surgido na última década, como ambientes específicos possibilitados pelo suporte técnico e seus usos, que originam práticas sociais peculiares. Acredito que essas interações sociais tecnologicamente mediadas podem ser pensadas como um interessante ponto de partida para investigar a relação entre tecnologias da informação e interação social na contemporaneidade.

Objetivos:

O fenômeno que este estudo se propõe a investigar se refere a atualizações contemporâneas específicas, usos sociais das tecnologias computacionais por grupos em interação. As atividades on-line estão inseridas em condições práticas de uso, utilizando-se de recursos de vários contextos interacionais em combinações específicas de acordo com a demanda do caso de uso em questão. Tais atividades não parecem substituir atividades tradicionais, mas funcionar como seus complementos ou transformações. Vários aspectos da conversação oral-auditiva podem ser identificados na CMC; entretanto, outros modelos podem compor essa atividade específica, como escritura de cartas, telefonema, conversação presencial, etc. Nesse sentido, o material em exame aponta para a necessidade de observação do modo peculiar de expressão comunicativa nestes ambientes, buscando compreender a especificidade dessa cultura comunicacional a partir do modo pelo qual participantes interagem.

A forte dimensão interacional do fenômeno observado aponta para a necessidade de uma abordagem de cunho etnográfico, visando captar com maior precisão e abrangência a complexa relação interacional ali estabelecida. Assim, serão examinadas transcrições de entrevistas realizadas com informantes selecionados/as, anotações feitas a partir da participação em eventos presenciais, interações multimídia encontradas nos ambientes da rede, e ainda, o conteúdo de um diário de campo etnográfico.

Perspectivas teóricas:

Desde a criação de interfaces simplificadas para veiculação de conteúdos on-line, os ambientes de Internet passaram a ser largamente utilizados por usuários/as não especializados/as como meio de expressão individual e coletiva, operando como um espaço social para apresentações do self, onde são veiculadas representações de identidade e de individualidade, em uma dinâmica análoga ao que Goffman (1998) denomina “gerenciamento da impressão” (impression management).

Os indivíduos se agregam a partir de interesses e necessidades que definem conteúdos específicos. Mas para além desses conteúdos, o fato de se sentirem sociados provoca satisfação em seus membros, a formação daquela sociedade como tal é em si um valor. O puro processo de sociação, a forma desse processo é, assim, um valor estético socialmente apreciado. Sendo assim, a sociabilidade (Simmel, 1983) evita atritos com a realidade, de modo que os motivos da sociação, implicados na vida prática, não têm importância neste contexto interacional. Ponto semelhante é desenvolvido por Goffman, para quem a maior parte da interação social cotidiana é possibilitada pelo engajamento comum e voluntário dos participantes no que ele chama de “consenso operacional” (Goffman, 1998), uma espécie de concordância superficial, onde cada participante abstrai suas posições pessoais em prol de uma definição da situação compartilhada por todos:

A conservação desta concordância superficial é facilitada pelo fato de cada participante ocultar seus próprios desejos por trás de afirmações que apóiam valores aos quais todos os presentes se sentem obrigados a prestar falsa homenagem. (...) Os participantes, em conjunto, contribuem para uma única definição geral da situação, que implica não tanto num acordo real quanto às pretensões de qual pessoa, referentes a quais questões, serão temporariamente acatadas, haverá também um acordo real quanto à conveniência de se evitar um conflito aberto de definições da situação. Referir-me-ei a este nível de acordo como um “consenso operacional” (Goffman, 1998, pp. 18-19).

Mesmo com toda a mediação tecnológica, a interação nos ambientes digitais parece não prescindir do encontro presencial. Por vezes, frequentadores/as efetivamente promovem encontros de fato, mais aos moldes da sociabilidade descrita por Simmel. Os encontros são concebidos, planejados e comentados no ambiente digital, e documentados nos ambientes de Internet por participantes. Nesse caso, as relações mediadas pelas tecnologias participam do contexto da interação, e a propósito dela. Esta interação, associação de interesses compartilhados, utiliza as mídias disponíveis de modo complementar, a serviço da interação.

Se por um lado, a teorização de Goffman sobre a ordem da interação face a face parece se aplicar muito bem ao objeto sob investigação, por outro, os dados apontam também diferenças importantes. Goffman considera que há duas espécies de expressividade do indivíduo, atividades radicalmente diferentes e igualmente significativas: a expressão “transmitida”, ligada à linguagem verbal e à intencionalidade, e a expressão “emitida”, que inclui os gestos, olhares, suores, sorrisos ou expressões faciais, permitindo inferências nem sempre controladas pelo indivíduo. No caso das interações digitais, há menos elementos de emissão de expressão, havendo uma preponderância da informação deliberadamente transmitida. Isso traz consequências ao tipo de interação que se estabelece. Segundo Goffman (1998), um indivíduo, ao se apresentar diante de outros, pode agir de várias maneiras com relação ao que esses outros esperam dele. O processo de apresentação do self no contexto digital se dá de diversas maneiras. Relativamente livres da expressividade via emissão, os sujeitos encontram menos obstáculos - ou obstáculos de outra ordem - em tentar manejar a impressão causada nos outros, através de tentativas de controle com relação à informação fornecida.

O ambiente digital apresenta características de interação diferenciadas daquelas apresentadas pela sociabilidade, deixando perceber o desenvolvimento de outra forma de sociação, o conflito. A importância sociológica do conflito (kampf) é problematizada por Simmel (1983) de forma original. Enquanto admite-se que o conflito modifique ou até produza grupos de interesse, o autor se pergunta se o conflito, independente de qualquer fenômeno do qual resulte ou acompanhe, é, em si mesmo, uma forma de sociação. Apesar dos conflitos serem motivados por fatores de dissociação, são também modos de se conseguir algum tipo de unidade. Assim, o conflito pode ser visto como algo positivo, na medida em que ambas as formas de relação, a divergente ou a convergente, se diferenciam fundamentalmente da indiferença entre indivíduos ou grupos, que seria nesse sentido puramente negativa. É da divergência de ânimos e direções de pensamentos que fluem a estrutura orgânica e a vitalidade do grupo. Ao contrário do que pode parecer, unidade e discordância são tipos de interação que não se anulam, mas se somam; e mesmo que a discordância possa ser destrutiva em relações particulares, não tem necessariamente o mesmo efeito no relacionamento total do grupo, podendo até ter um papel inteiramente positivo em quadro mais abrangente. As hostilidades preservam limites no interior do grupo e muitas vezes garantem suas condições de sobrevivência. O direito e o poder de rebeldia contra tiranias, arbitrariedades, mau-humor contribui para a manutenção da relação com pessoas cujo temperamento não poderia ser suportado de outra forma.

Entre os pontos característicos da sociabilidade, Simmel destaca também sua natureza democrática, uma espécie de “toma lá, dá cá,” onde cada participante oferece valores sociais ao ambiente (alegria, realce) na mesma proporção com que recebe. Eliminado o que é pessoal e objetivo, a sociabilidade “cria um mundo sociológico ideal” (Simmel, 1983, p. 172), onde o prazer do indivíduo está implicado no prazer dos outros. Esta espécie de clube criado a partir desta interação específica, que se manifesta como um “campo finito de significação” (Schutz, 1962), desvinculado dos assuntos sérios e objetivos, aparece frequentemente nos materiais da comunicação mediada por computador.

Desta maneira, na sociabilidade, a conversa é o propósito em si, a conversa é a realização de uma relação lúdica, que só quer ser relação. Enfim, talvez seja interessante para justificar a investigação sobre esse tipo de material, a aproximação que Simmel faz da sociabilidade, “exatamente por sua distância de sua realidade imediata, pode revelar a natureza mais profunda desta realidade, de maneira mais completa, consistente e realista que qualquer tentativa de apreendê-la mais diretamente” (Simmel, 1983, p. 180). A considerar o relaxamento dos papéis formais desempenhados em outras situações interacionais, os momentos de sociabilidade tornam-se mais propensos ao fluxo de conteúdos espontâneos, íntimos ou inconscientes, informações talvez mais facilmente protegidas em situações sérias.

Metodologia:

Para os fins deste estudo, considero que dois conceitos estão intimamente articulados, a saber, “interação social” (Goffman, 1999) e “enunciação” (Benveniste, 1989). Por sobre os elementos mais palpáveis das interações digitais - os posts, links, layout - é possível perceber um conjunto de princípios, valores e interpretações sobre os eventos. Negociações de sentido realizadas por interações de modo dinâmico, que negociam significados a partir de perspectivas e métodos práticos de enfrentamento de situações concretas e posicionamentos das/os participantes da interação. Estas perspectivas e posições são afirmadas e registradas através de discursos que se materializam em textos escritos, vídeos, fotos, links, principalmente no contexto das mídias e redes sociais. Os trabalhos sobre os discursos pressupõem que estes já trazem em si “marcas” que revelam aspectos do funcionamento do sistema social e da cultura dentro da qual foram gerados, ainda que, muitas vezes, o/a enunciador/a não o pretenda (Fausto Neto, 1991).

Assim, fragmentos de definições de situação aparecem como tópicos de debate nos discursos desses ambientes, seguidos de outros posicionamentos relativos, estruturando o que chamei de thread (termo tomado da metodologia desenvolvida por Rutter & Smith, 2002, que se refere a um conjunto de comentários motivados por dado assunto em interações digitais), unidade de análise descrita abaixo. O thread, assim, se mostra como resultante de um duplo ordenamento: sujeito à ordem do discurso (na sua dimensão política de negociação de significados), e à ordem da interação (na sua dinâmica de apresentação do self das/os participantes). Desta maneira, acredito que a articulação entre enunciação e interação social resulta produtiva para operacionalizar a leitura dos complexos processos interacionais sob exame.

O contexto discursivo da Internet pode ser pensado como um front de lutas por definições de realidade, e nessa “transação de falas” (Mouillaud, 1997) que produz os sentidos, significados de toda ordem disputam espaço de legitimidade. No entrecruzamento de pressupostos culturais, cultura de consumo, saberes tradicionais e relações históricas de poder, definições de realidade são propostas, negociadas e transformadas no âmbito da constituição desses discursos.

Nas relações interpessoais face a face, por telefone e assim por diante, as pessoas sabem como agir visando determinada impressão no interior de seu grupo de convivência cotidiana. Mesmo que nenhuma regra esteja formalmente codificada, existe uma regulação tácita que cria expectativas de práticas sociais entre os indivíduos. A CMC, por sua incipiência, demanda dos/as participantes das interações neste contexto certa improvisação diante de situações não vividas. Sendo assim, adapta-se modelos de outros contextos de interação para experimentar e ao mesmo tempo criar as regras para as relações ocorrentes neste ambiente específico. Assim, os padrões de expressão praticados nesses ambientes não deixam de estar submetidos ao controle social das/os participantes da interação. A possibilidade do anonimato, por exemplo, pode funcionar simultaneamente como estímulo para vínculos de amizade e intimidade, bem como para a agressividade e desrespeito ao outro.

Para o exame das trocas sociais ocorrentes no ambiente digital, uma aproximação caso a caso busca o refinamento da reflexão sobre os objetos comunicacionais emergentes a partir de sua natureza prática mais que teórica. Ao se afastar das práticas interativas vividas pelos sujeitos, corre-se o risco de produzir uma teoria estipulativa que se baseia na potencialidade oferecida pela tecnologia disponível na Internet como meio de comunicação e não em seus usos concretos.

No clássico livro “A Interpretação das culturas”, de 1973, Geertz se posiciona entre aqueles que se preocupam com a limitação, com a especificação do conceito de cultura, visando reduzi-lo a uma dimensão justa que garanta a continuação de sua pertinência. Para substituir a teorização de seus antecessores que concebiam inúmeras e amplas definições para o conceito, o autor defende um conceito de cultura semiótico. Partindo da proposição de Max Weber, segundo a qual “o homem (sic) é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu,” a cultura seria “essas teias e sua análise” (Geertz, 1978, p. 15), demandando assim uma ciência interpretativa em busca do significado.

A técnica etnográfica foi concebida e historicamente aplicada a grupos sociais em interação face a face com o/a etnógrafo/a, que fazia da sua experiência uma fonte de dados. O modo peculiar de interação ocorrente nos ambientes digitais ainda é de alguma forma uma novidade, que traz desafios metodológicos à aplicação desta tradicional técnica de pesquisa, tornando necessário ajustar alguns pressupostos da etnografia a esse novo objeto, de que somos testemunhas e agentes em sua confecção.

Em termos metodológicos, a etnografia se funda na noção de observação participante, visto ser impossível, em situações face a face, uma observação não-participante. Ora, os ambientes interacionais da Web caracterizam-se pela ausência física das/os participantes, sendo possível tornar-se “invisível.” Sendo assim, é possível apreender a cultura de um grupo somente observando? É possível uma “observação não-participante?”

A condição que possibilita o ofício do/a etnógrafo/a é a imersão e a experiência da efetiva participação no ambiente pesquisado. Este ofício inclui participar, observar, descrever: categorias que formam a unidade do fazer etnográfico. Então, lurking é participação? Essa especificidade é o objeto central desse questionamento metodológico. A observação participante on-line é uma participação peculiar, na medida em que, em termos de presença/ausência, a informação acerca da presença do/a observador/a no setting não está disponível às/aos demais participantes.

A partir de uma problematização em torno das particularidades da interação em um ambiente baseado em texto, o newsgroup RumCom.local, dois pesquisadores ingleses, tendo optado pelo método etnográfico, relacionam as vantagens da sua aplicação ao ambiente on-line.

Etnografia online é certamente um sonho do pesquisador. Ela não implica em deixar o conforto de seu escritório; não há complexos privilégios de acesso para negociar; dados de campo podem ser facilmente gravados e salvos para análise posterior; um grande montante de informação pode ser coletado rapidamente e sem custos (Rutter & Smith, 2002a, p. 3).

Os autores alertam para a importância de o/a pesquisador/a estar atento a respeito de onde estamos estudando como etnógrafos eletrônicos, na medida em que, como em uma ligação telefônica, as relações estabelecidas na rede são definidas por atos de interação e comunicação, considerando que não há um “lugar” no universo virtual para além da metáfora (2002a, p. 4).

No estudo das ações sociais, a etnometodologia (Greiffenhagen & Watson, 2005) trata do seu sentido como sendo situado e prático, ou seja, envolvendo um âmbito de considerações práticas para o uso, o que Schutz (1962) chama de ‘atitude da vida cotidiana.’ Tais atividades são caracterizadas mais por sua natureza prática que teórica. Assim, recomenda-se proceder através de análise empírica adequada, baseada caso a caso.

Em termos metodológicos, esta vertente da Sociologia trabalha com a noção de ‘exigência singular de adequação’, uma competência exigida do/a analista na atividade concernida. A competência comum na atividade sob exame pode evitar que o/a analista descreva as atividades dos/as pesquisados/as de forma estipulativa ou focalize nas vicissitudes do/a novato/a. Ou seja, o que pode ser familiar para os/as participantes de uma interação específica pode parecer ‘estranho’ para um/a observador/a pouco competente no campo do fenômeno.

Os logfiles, registros das atividades realizadas produzidos através da própria tecnologia, muito frequentemente são tomados como os dados da pesquisa, facilitando os problemas de coleta de material para análise (Miller, 1995). Entretanto, há muitos perigos nesta opção metodológica. Os logfiles apresentam uma vista aérea da interação geral, ou seja, um ponto de vista típico do/a analista, não do/a participante da interação, uma instância corrente, em processo, além de perder a possibilidade de capturar como os/as participantes estabelecem aquela interação ao longo do tempo. O uso das tecnologias de comunicação está implicado em atividades mais amplas da vida cotidiana, a comunicação estabelecida por esses meios pode ter outro objetivo além da comunicação em si, desta forma a dependência exclusiva dos logfiles envolve uma descontextualização que arrisca não permitir que o fenômeno seja percebido propriamente. Assim, há uma tentação de tratar os logfiles como independentes e priorizar apenas os seus conteúdos, removendo as especificidades da interação comunicativa. Nesse sentido, analistas que tomam os logfiles como única fonte de dados poderiam ser caracterizados como o que Roy Turner chamou de ‘arqueólogos/as por opção,’ analistas que optam por considerar apenas fragmentos e traços de uma sociedade em suas análises, quando a própria sociedade ainda está disponível (Greiffenhagen & Watson, 2005).

As possibilidades e limitações das abordagens apontadas acima evidenciam a necessidade de, a cada pesquisa, desenvolver uma composição de técnicas que resulta, em cada caso, num aparato metodológico específico - naquilo que Becker (1993) denomina “multimétodo.” Como dito acima, os/as participantes conduzem suas atividades na Internet tendo como modelo recursos de várias práticas comunicacionais anteriores, sendo uma delas a escrita em geral, concretizadas em enunciados passíveis de ser analisados pelo aporte teórico fornecido pela Análise do Discurso - a complementar o trabalho etnográfico.

Se por um lado, o arquivo disponibilizado pela tecnologia da Internet em logfiles parece oferecer ‘tudo’ o que se passa nas atividades da rede, o que parece minimizar os problemas de coleta de dados, por outro, a utilização deste recurso como única fonte de dados pode tirar a oportunidade do/a analista de perceber os sentidos intersubjetivamente partilhados.

O ambiente disponibilizado pela Internet não é ocupado de forma homogênea, há muitas estruturas distintas. Das muitas aplicações disponíveis, algumas se estabelecem e permanecem, enquanto que outras formas de uso dos recursos técnicos proporcionados caem em desuso. Entre os formatos que parecem ter se estabelecido com vigor, pode-se destacar o e-mail - meio de comunicação em geral pessoal e privado -, o website - institucional e público -, o mensageiro instantâneo - pessoal, privado e sincrônico -, e as mídias e redes sociais, público e pessoal, ou seja, espaço público, mas “com dono/a”.

O ponto de partida para a operacionalização deste estudo consiste em comentários publicados nas redes sociais. A estes dados, acrescentam-se entrevistas presenciais, por telefone e mensageiro instantâneo com participantes, além de observação participante em encontros presenciais, experiências registradas sistematicamente em um diário de campo etnográfico. Estas opções visam a ampliar a base empírica de dados para a compreensão do fenômeno em sua complexidade, evitando os perigos de ter como única fonte de dados os registros disponíveis nos logfiles, como abordado acima.

A unidade básica de análise para lidar com os numerosos dados provenientes dos registros disponíveis na rede consiste no thread, um conjunto de comentários relativos a um mesmo tema, fenômeno interacional/verbal típico da interação social na Internet, descrito por Rutter e Smith (2002a; 2002b). Em um thread, as/os participantes alternam comentários datados e numerados, em uma espécie de radicalização da dinâmica de “turnos de fala” (Schegloff, Sacks & Jefferson, 1974) na conversação face a face, na qual não há corte ou sobreposição de falas, mas uma sequência configurada.

Assim, considero importante buscar, além da diversidade dos conteúdos apresentados nos ambientes digitais, “os princípios estruturantes que fornecem ordem em meio ao fluxo” (Smith, 2004, p. 51). A estipulação dos threads, a observação de sua duração, frequência e conteúdos para a organização e exame desses dados em seu conjunto demonstram grande potencial analítico, uma vez que é no confronto entre posições manifestas ao longo dos threads que a negociação social dos sentidos se realiza, tanto na ordem do discurso quanto na ordem da interação, os dois eixos principais desta investigação, visando a uma caracterização profunda das modalidades de interação ocorrentes no ambiente digital.

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Imagens e representações da realidade: a realização do
    filme documental hoje
Docente: Profª. Drª. Angeluccia Bernardes Habert

Descrição:

Este projeto procura discutir o cinema documental hoje, identificando filmes e realizadores mais representativos da produção recente brasileira. O jogo, ou a interface, entre duas premissas - o documental como socorro nobre da ficção e o documental como ligação das questões da representação da realidade, da subjetividade, da auto-reflexividade e da tendência atual de construção de textos com várias vozes. Da mesma maneira agrega as questões da continuidade e descontinuidade da cinematografia nacional.

Antecedentes:

Esta pesquisa parte da experiência anterior com estudos de produtos midiáticos que se auto definem como portadores de realidade, com resultados publicados ao longo dos anos, mas pretende ser uma investigação inteiramente nova, deslocando o conhecimento e a metodologia analítica para a observação de outro conjunto de objetos, no caso a produção recente do cinema documental brasileiro. Uma comunicação deste projeto com o título Representando a realidade: o cinema documental hoje foi realizada no VIII Congresso da Abralic, Belo Horizonte, julho 2002, no Simpósio O intelectual periférico.

Perspectivas teóricas:

O uso do documental para oxigenar a ficção em um filme super ensaiado e a sua intenção de ter feito um filme sobre o Brasil real são afirmações de Walter Moreira Salles (CINEMAIS, N.9, jan/fev, 1998), definindo Central do Brasil. Esta procura de um outro país, a busca da singularidade, do retorno para o interior realizada através da inversão do fluxo migratório mais forte do país, surge na década de noventa como outra idéia fora de lugar: assemelha-se ao já antevisto por Robert Schwarz (1989) como o nacional por subtração. Central do Brasil surpreende, então, com sua temática cinema novista passada a limpo.

O esforço de integrar fragmentos de discursos da singularidade procura evocar na mente do espectador ideal ( implícito no texto construído) a simpatia para, em seguida, provocar uma reação emotiva positiva, por meio de uma fabulação simples, aparentemente espontânea, próxima da cultura oral e plena de marcas contrastantes da cultura do outro, ou da minha cultura para o outro. Este uso complementar e restaurador das convenções do documental pela ficção atua ao mesmo tempo como uma renovação estética e como diluição das fronteiras entre as categorias ficção e documental.

O documentário, mesmo o mais radical dos documentários tem muito de autobiografia, tem muito de quem fez, de tudo que ficou para trás e que na verdade não ficou, veio junto com você, afirma Vladimir Carvalho (CINEMAIS, N.16, mar/abril, 1999). O cineasta que se especializou como documentarista, trabalhou como assistente de direção em Aruanda ( de Linduarte Noronha, 1959), marco inicial do Cinema Novo e na primeira fase de Cabra marcado para morrer, ( Eduardo Coutinho, 1964 a 1984). Ainda jovem descobriu que o documentário era um cinema de câmera, era uma coisa muito natural, buscar cinema na realidade viva palpitante, distinto do cinema espetáculo.

Desde os primórdios do cinema documental prevalecia a idéia de filmar sur le vif , expressão de Louis Lumière. Por coincidência, quando o conceito de cultura em desaparecimento foi cristalizado e as observações de outras culturas se tornam estudos sistemáticos, no final do mesmo século, em 1895, ocorre a invenção da câmera de 5 kg. Esta câmera permite o deslocamento e a observação quase imediata sobre o desconhecido, em lugares e em situações mais distantes. Quando Grierson cunhou o termo documentary para qualificar o filme Moana, de Flaherty, em 1925, depois da consagração de Nanook, de 1922, estava falando de filmes que seguiam o modelo ideológico do observador- observado, mas que já foram narrados com a retórica do cinema de ficção; criando personagens, encenações dramáticas, aproximações didáticas, humorísticas e uma estrutura que simula a curiosidade e a surpresa do observador e prepara a revelação da coisa observada. O advento do som direto acresceu este estágio do documentário com a riqueza da linguagem humana e a possibilidade, através das entrevistas, de enfatizar ou somar de outros verdades e sabedorias.

Decisivamente, o cinema, neste início do século XXI, experimenta uma outra revolução tecnológica que afeta sua constituição, modifica consideravelmente seus recursos de informação e de entretenimento e altera sua base de reprodução, sendo criadas as condições para captação e produção digital.

Em nossos dias, o cinema, ele mesmo, tem tomado a si a aura de uma cultura em desaparecimento a partir de seu envolvimento com as várias mídias digitais e eletrônica diz Russerl (1999)-este meio se torna cada vez mais auto referencial. Mesmo a sua categoria dita documental desenvolve uma representação mais auto-reflexiva, mostrando os aspectos da produção, da construção e do envolvimento daquele que observa com o observado. Ao mesmo tempo que experimenta elementos de criatividade inusitados, dantes trabalhado pela estética de vanguarda, incorpora outros elementos da ficção, trabalha a reconstituição do observado e desenvolve cada vez mais a consciência de que a linguagem é o principal meio de troca entre os seres humanos e a realidade, no seu processo de percepção, de cognição e de ação social.

Desta recente possibilidade de cada vez mais gravar a intervenção humana sem interrupções, permitida pelos processos de captação digital, a realidade representada se torna intersubjetiva. Ela explode na tela em fragmentos subjetivos. Estabelece-se então uma conversação ampla, interminável que só é limitada pelo processo de edição, permitindo a evocação polifônica - muitas vozes e inumeráveis significados.

Objetivos:

Geral: Realizar uma leitura da produção recente do cinema, a partir da década de noventa, com a finalidade de recuperar a presença do documental, identificar os realizadores mais representativos e discutir as mudanças que promovem e os significados que suscitam.

Específicos: Estabelecer alguns modelos de representação; observar as transformações do modelo observador-observado; desvendar influências; tematizar aspectos importantes do universo cultural; e compreender o filme documental como mediador do homem e da sua realidade social.

Metodologia:

Nossa leitura analítica vai trilhar um caminho a partir do filme Central do Brasil, interligando filmes e interpretações críticas de diferentes procedências para compreender como concretamente ocorrem as estratégias textuais dos filmes; como se atualizam as categorias mencionadas (Brasil real, representação da realidade, reconstituição, falsificação, nacionalidade, comunidade, auto-reflexividade, subjetividade, singularidade, conversação e polifonia); como se apresenta a relação obervador-observado e como podemos retirar do filme os movimentos de leitura que apresenta. Pretende-se tomar alguns filmes produzidos a partir da década de noventa como corpus da pesquisa e por estarem ligados a realizadores mais significativos.

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Jornalismo Investigativo e interesse público: as experiências
    profissionais no processo de construção social da realidade
Docente: Prof. Dr. Leonel Azevedo de Aguiar

Descrição:

Esse projeto de pesquisa visa estudar processos e produtos jornalísticos que resultem em modelos analíticos e ferramentas metodológicas para o campo dos estudos em jornalismo. A partir das teorias do jornalismo, pretende compreender quais são os critérios de noticiabilidade que regem a produção da informação no jornalismo investigativo em comparação com a cobertura factual cotidiana, de modo a descrever as melhores práticas jornalísticas e examinar as representações sobre interesse público pela comunidade dos jornalistas.

A proposta desse projeto é, portanto, pesquisar os critérios de noticiabilidade que regem o jornalismo investigativo em dois jornais da “grande imprensa” editados na cidade do Rio de Janeiro: O Globo e O Dia. A pesquisa tem um caráter comparativo, analisando os critérios de noticiabilidade nas coberturas especiais com as matérias factuais produzidas pela cobertura cotidiana nas duas empresas jornalísticas, tanto na mídia impressa quanto na mídia digital.

Antecedentes:

O projeto está inserido em uma linha de continuidade teórica que estuda as relações de poder-saber que atravessam os discursos jornalísticos produzidos pela “grande imprensa”. Nessa perspectiva, explora o campo jornalístico enquanto uma das regularidades discursivas que constituem a cultura das mídias e a cibercultura. Em diversos artigos já publicados, procuramos identificar as formações discursivas presentes no campo midiático contemporâneo, com destaque para o jornalismo especializado e duas de suas vertentes: o jornalismo científico e o jornalismo ambiental. A pesquisa sobre jornalismo investigativo prossegue nesta teorização.

Objetivos:

Gerais

  • Verificar se os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia aplicados na cobertura jornalística cotidiana nos suportes impresso e digital também são válidos para o jornalismo investigativo ou se, nessa modalidade informativa, os critérios e valores podem ser diferentes;
  • Identificar e classificar os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia aplicados no jornalismo investigativo, descrevendo os modos de atuação profissional dos repórteres investigativos;
  • Analisar quais as representações por produzidas pelos jornalistas, enquanto uma comunidade interpretativa, acerca do critério de noticiabilidade “interesse público”;
  • Explorar modelos analíticos e ferramentas metodológicas resultantes desse projeto de pesquisa para serem aplicadas no campo dos estudos do jornalismo.

Específicos

  • Identificar os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia na cobertura factual e nos suportes impresso e digital em dois jornais da grande imprensa no Rio de Janeiro: O Globo e O Dia.
  • Identificar os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia nas reportagens investigativas desses dois jornais.
  • Comparar, apontando semelhanças e diferenças, entre os critérios de noticiabilidade e os valores-notícia identificados nos itens 1 e 2.
  • Analisar os modos pelos quais as representações sobre interesse público, presentes na comunidade interpretativa dos jornalistas, são determinantes para a produção de reportagens investigativas.
  • Formular critérios de noticiabilidade e valores-notícia para as reportagens investigativas dos jornais pesquisados.
  • Contribuir com os estudos acadêmicos sobre jornalismo.
  • Contribuir para a melhoria contínua do ensino de jornalismo no curso de graduação da PUC-Rio, através de um projeto de pesquisa que possibilite a permanente atualização das práticas pedagógicas e inovações das metodologias de ensino.

Perspectivas teóricas:

A partir da premissa de que os meios de comunicação de massa são dispositivos de construção social da realidade, a pesquisa visa contribuir com determinadas questões para a teoria do jornalismo. Por um lado, pretende identificar os conceitos na obra de Foucault que possam ser utilizados para a compreensão do campo midiático e da ordem do discurso jornalístico. Por outro, busca refletir sobre os estudos do jornalismo, com destaque para as conceituações de notícias como construção discursiva e as rotinas produtivas que envolvem a comunidade interpretativa dos jornalistas.

Uma determinada perspectiva teórica desta pesquisa vincula-se à teoria do jornalismo, tomando como ponto de partida os trabalhos de Traquina (2005), Lage (2005), Sousa (2004), Schudson (1996), Zelizer (1993), Genro (1987), Hall (1984) e Tuchman (1978). A partir dessa teoria, pretendemos realizar um estudo sobre os emissores e os processos produtivos no jornalismo impresso, tendo como referencial teórico às pesquisas sobre a produção de informação, mais conhecidas como newsmaking. Conforme Wolf (2003), este enfoque teórico não se refere à cobertura de um evento particular, mas a rotina produtiva cotidiana da cobertura jornalística por períodos prolongados. Os estudos de newsmaking pretendem analisar o conjunto de critérios que definem a noticiabilidade de cada acontecimento, isto é, a sua relevância para ser transformado em notícia.

A outra perspectiva teórica deste projeto é determinada pelos métodos genealógicos e arqueológicos de análise das práticas discursivas e suas relações de poder-saber propostos por Michel Foucault. Estudar o jornalismo enquanto uma ordem do discurso – com poder para disciplinar e controlar a multiplicidade dos acontecimentos em regularidades discursivas que produzem um determinado saber sobre o real – está se tornando uma instigante dimensão para o campo dos estudos do jornalismo.

O projeto, portanto, está voltado para uma dupla visada teórica: explorar as teses da arqueologia do saber e da genealogia do poder da obra foucaultiana - vinculando suas possíveis contribuições ao campo comunicacional - e refletir sobre os estudos do jornalismo, com destaque para a teoria do newsmaking. Nossa intenção é colocar diferentes teóricos em um diálogo fértil, possibilitando inovações metodológicas e conceituais para os estudos em jornalismo.

Metodologia:

A perspectiva metodológica desta pesquisa visa privilegiar as análises, a partir da teoria do newsmaking, das estratégias discursivas através das quais a mídia jornalística constrói a representação social da realidade. Duas questões podem definir o âmbito e expor os problemas de que se ocupa essa teorização: que representação da sociedade os noticiários fornecem? Como se associa essa representação às exigências cotidianas de produção de notícias? O ponto central desse tipo de questionamento situa-se dentro de dois limites: a cultura profissional dos jornalistas e a organização do trabalho com suas rotinas produtivas.

A pesquisa pretende discutir como os critérios de noticiabilidade estão estreitamente relacionados com os processos de rotinização e de estandardização das práticas produtivas nas grandes empresas jornalísticas. Essa questão aponta para uma hipótese: o caráter negociado dos processos de produção da informação. Ou seja, o produto informativo parece ser o resultado de uma série de negociações, pragmaticamente orientadas, que têm por objeto o que é publicado e o modo como é publicado no jornal, seja impresso ou digital. Essas negociações são efetuadas pelos jornalistas - enquanto uma comunidade interpretativa - em função de inúmeros fatores, que apresentam graus diferenciados de importância, e em momentos diversos do processo produtivo.

Conforme Traquina (2005) e Wolf (2003), as pesquisas de newsmaking utilizam a técnica da observação participante, já que este procedimento metodológico torna possível reunir e obter, sistematicamente, os dados fundamentais sobre as rotinas produtivas operadas na empresa jornalística. O pesquisador deve estar inserido, cotidianamente, no ambiente de trabalho dos repórteres investigativos para realizar a observação sistemática dos fatos. Esta metodologia é complementada através de entrevistas com os jornalistas envolvidos nesses processos produtivos.