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Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
Pós-Graduação
 
 

Projetos de pesquisa Imagem ilustrativa deste item

Linha de Pesquisa: Comunicação e Experiência

O documental no cinema e na televis√£o: imagens e sentidos em disputa
Docente: Profª. Drª. Andréa França

Descrição:

O documental no cinema e na televis√£o: imagens e sentidos em disputa” visa ampliar, aprofundar e sistematizar estudos que venho desenvolvendo h√° alguns anos no campo do document√°rio, seja no campo do cinema, das artes ou da televis√£o. Trata-se de uma reflex√£o sobre imagens e pr√°ticas documentais que amplia e desloca a no√ß√£o de documento, considerando-o uma composi√ß√£o complexa de camadas de tempos, sentidos, lacunas, uma composi√ß√£o em aberto para novas leituras - e n√£o um objeto dado a priori (Comolli, 2004; Didi-Huberman, 2003; Mitchell, 2011). Em foco, est√° a possibilidade de ler a imagem-documento como mapa cognitivo, afetivo, sensorial, cujos referentes imediatos cedem espa√ßo para associa√ß√Ķes, justaposi√ß√Ķes e imers√Ķes novas. ¬†¬†

Antecedentes:

O cinema documental brasileiro vem propondo um di√°logo prof√≠cuo com a falta de documentos testemunhais - pict√≥ricos, impressos, audiovisuais - da √©poca da ditadura no pa√≠s. Elena (Petra Costa, 2013), Os dias com ele (Maria Clara Escobar, 2013), Di√°rio de uma Busca (Flavia Castro, 2010), Uma longa viagem (Lucia Murat, 2011), Utopia e barb√°rie (Silvio Tendler, 2009), Cidad√£o Boilesen (Chaim Litewski, 2009), entre outros, apostam em atos performativos, em narrativas po√©ticas e sensoriais, para lidar com essa falta. Situa√ß√Ķes, afetos e traumas do passado s√£o teatralizados (auto-performance do diretor) de modo a permitir que a imagem-documento (fotografias, sobretudo) seja experimentada n√£o de um modo √ļnico, como revela√ß√£o de uma evid√™ncia, mas como superf√≠cie lacunar, sempre pass√≠vel de novas leituras.

Imagem e montagem exploram as sensa√ß√Ķes inscritas no corpo daqueles que encenam a dor (do ex√≠lio, da morte, da aus√™ncia), transformando o document√°rio n√£o em uma janela aberta para a hist√≥ria do pa√≠s, mas num teatro expl√≠cito e reinvidicado, onde gestos, falas e experi√™ncias exibem a dif√≠cil din√Ęmica das rela√ß√Ķes entre documental e ficcional, documento e lacuna, mem√≥ria e hist√≥ria, imagens dom√©sticas e p√ļblicas. Em meio a essa din√Ęmica, emerge uma imagem-documento povoada de incompletudes e vest√≠gios do que foi, convocando o espectador a participar de um universo familiar - de filhos, pais - e estranhamente opaco. Filmes que revelam portanto imagens lacunares friccionadas pelas aus√™ncias √≠ntimas e hist√≥ricas.

Tais propostas colocam quest√Ķes √† no√ß√£o de documento, √† pr√°tica da montagem, √† produ√ß√£o cinematogr√°fica e audiovisual. A utiliza√ß√£o de imagens-documento n√£o como lugar de atesta√ß√£o ou de refer√™ncia, mas como lugar de incompletude e do sensorial (Deleuze, 2007) √© o que tem mobilizado essa pesquisa. Artigos como “Imagem-performada e Imagem-atesta√ß√£o: o document√°rio brasileiro e a reemerg√™ncia dos espectros da ditadura” (Revista Gal√°xia, v. 28, 2014), “Os brinquedos-f√≥sseis e o tempo da mem√≥ria” (em: Eu assino embaixo: Biografia, mem√≥ria e cultura, 2014), “Figuras da imers√£o visual do espectador na imagem: a constru√ß√£o dos lugares de experi√™ncia nas pr√°ticas documentais contempor√Ęneas” (Comunica√ß√£o, M√≠dia e Consumo v. 10, 2013), “Documento, arquivo e ensaio f√≠lmico: a apropria√ß√£o de imagens na produ√ß√£o audiovisual contempor√Ęnea” (Revista Gal√°xia v. 11, 2011), entre outros de minha autoria, s√£o refer√™ncias importantes dentro dessa discuss√£o.

Por outro lado, no dom√≠nio da televis√£o, se minhas publica√ß√Ķes anteriores investigavam nos document√°rios feitos nos anos 1970, o desejo de enunciar asser√ß√Ķes e verdades sobre o mundo e o tempo (Fran√ßa, 2012), o projeto atual estuda, a partir de um conjunto de programas da d√©cada seguinte feitos para a Rede Bandeirantes e a extinta Rede Manchete, a no√ß√£o de documento vinculada n√£o √† ideia de atesta√ß√£o/asser√ß√£o, mas como experimenta√ß√£o sensorial, pl√°stica e sonora (Am√©rica, de Jo√£o Moreira Salles, Angola, de Roberto Berliner, African Pop, de Belis√°rio Franca, entre outros). No recorte espec√≠fico da rela√ß√£o entre document√°rio e TV, a d√©cada de 1980 no Brasil inaugura um pensamento do documental conectado √† consci√™ncia das m√ļltiplas media√ß√Ķes da imagem. O v√≠deo convoca uma consci√™ncia cr√≠tica, est√©tica e pol√≠tica de que o “real”, na sua dimens√£o ontol√≥gica, √© desafiado radicalmente pelo advento da tecnologia digital - no cinema, na fotografia, na televis√£o, nas artes em geral. O v√≠deo inaugura no campo das imagens documentais uma discuss√£o sobre o sentido de realidade, de referente, e expande o alcance sensorial, afetivo e cognitivo do mundo (Dubois, 2004; Bellour, 1997). A emerg√™ncia da no√ß√£o de paisagem documental, na TV, √© favorecida pela experimenta√ß√£o visual, pl√°stica e sonora com o v√≠deo.

√Č precisamente essa situa√ß√£o no dom√≠nio das imagens que solicita uma maior urg√™ncia √†s interroga√ß√Ķes que o cr√≠tico franc√™s Serge Daney se coloca em meados dos anos 1980: como se inserir nesse fluxo audiovisual? Como instaurar diferen√ßa em meio √† homogeneidade das imagens? Como inventar novas maneiras de olhar? Como dir√° Daney, habitar o mundo √© ser habitado por imagens, por todas elas - do cinema √† televis√£o, da publicidade √†s galerias de arte e museus; habitar o mundo √© desde ent√£o ser habitado por imagens que atravessam o pr√≥prio percurso do olhar, imagens que nos constituem, nos assujeitam, nos (con)formam mas que tamb√©m nos redefinem e libertam quando inventam rela√ß√Ķes novas entre si, de modo a convocar no espectador diferentes afetos - o mal-estar, a d√ļvida, o desconforto (Comolli, 2004).
Eis, portanto, uma rela√ß√£o - entre imagem-documento, cinema, televis√£o - hist√≥rica e certamente complexa que nos estimula a refletir sobre a no√ß√£o de documento nas suas conex√Ķes com a mem√≥ria hist√≥rica e o esquecimento, com as imagens enquanto campo de disputa de sentidos, com a montagem como gesto capaz de operar deslocamentos e ressignifica√ß√Ķes do que j√° est√° dado. Queremos discutir e problematizar essa rela√ß√£o no que diz respeito ao aumento da produ√ß√£o de document√°rios em todo mundo e √† profus√£o de imagens documentais n√£o s√≥ nas salas de cinema, nos festivais e na televis√£o, mas na internet, em dispositivos m√≥veis como celulares, nos espa√ßos das galerias, bienais e museus.

Objetivos:

  • Contribui√ß√£o te√≥rica √† rela√ß√£o entre a no√ß√£o de documento, document√°rio, televis√£o e cinema na busca de um refinamento da discuss√£o sobre produ√ß√£o, circula√ß√£o e exibi√ß√£o de imagens documentais.
  • Contribui√ß√£o aos estudos da produ√ß√£o audiovisual contempor√Ęnea, investigando a articula√ß√£o entre a no√ß√£o de documento e lacuna, documental e ficcional, e sua implica√ß√£o no dom√≠nio das disputas de sentido hist√≥rico e pol√≠tico em torno das imagens. ¬†
  • Problematiza√ß√£o das no√ß√Ķes que constituem pr√°ticas e discursos em torno das imagens documentais.
  • Estabelecer uma avalia√ß√£o hist√≥rica e cr√≠tica sobre o encontro do document√°rio com a TV no Brasil, a partir dos diferentes concep√ß√Ķes do documental, averiguando suas rela√ß√Ķes com a mem√≥ria e o esquecimento, o testemunho e a imagem-documento.

Perspectivas Teóricas

O projeto pensa o document√°rio dentro de um contexto midi√°tico √°vido por imagens documentais na sua dimens√£o de verdade, urg√™ncia e atesta√ß√£o. Dentro do nosso recorte por√©m, interessa pensar o documental como imagem indecifr√°vel e sem sentido determinado, enquanto n√£o for trabalhada na montagem. Fotografias ou imagens em movimento dizem muito pouco antes de serem colocadas em rela√ß√£o com outros elementos, associadas a outras imagens, temporalidades, textos, depoimentos, campos art√≠sticos. Segundo Georges Didi-Huberman, os historiadores t√™m muita dificuldade para trabalhar com imagens do passado porque se demanda com freq√ľ√™ncia muito √† imagem ou, ao contr√°rio, quase nada. Quando se demanda muito ‚Äď ou seja, que ela diga “toda a verdade” ‚Äď fica-se rapidamente decepcionado: as imagens s√£o apenas fragmentos arrancados, peda√ßos diante das quais aquilo que vemos √© frequentemente pouco em compara√ß√£o ao que sabemos. E quando se demanda pouco √† imagem, o movimento √© de desqualifica√ß√£o, de exclus√£o da imagem do campo da hist√≥ria e do conhecimento sob a alega√ß√£o de que ela n√£o passa de simulacro (Didi-Huberman, 2003, p. 85).

Nos seus escritos, Didi-Huberman reafirma a imagem - pict√≥rica, fotogr√°fica, em movimento - como constitu√≠da por camadas, temporalidades, lacunas, pass√≠vel sempre de novos sentidos, posto que n√£o √© um objeto inteiro, que possa ser capturado de uma vez por todas. Trata-se portanto de desmontar cada imagem, dissoci√°-la de imagens j√° dadas, contrast√°-las, reagrup√°-las, para que possa justamente aparecer o espa√ßo entre elas, suas rela√ß√Ķes subjacentes. Seu conceito de imagem de arquivo (imagem-documento) √© importante a essa pesquisa posto que explicita a imagem na sua precariedade e lacuna, mas tamb√©m na sua dimens√£o de testemunho, do gesto que a tornou poss√≠vel (2003). ¬†

Tamb√©m interessa ao projeto a rela√ß√£o da imagem-documento com a no√ß√£o de paisagem. Certamente a paisagem n√£o √© um tema ideologicamente neutro e sua reemerg√™ncia em determinadas √©pocas traz motivos diversos. As raz√Ķes para o seu aparecimento na televis√£o da d√©cada de 1980 est√£o, portanto, no horizonte de nossa investiga√ß√£o. Se, como coloca Anne Cauquelin, a Natureza √© uma “ideia que aparece vestida” em perfis intercambi√°veis, perspectivistas, por meio da emerg√™ncia de formas historicamente constitu√≠das (2007, p. 151), queremos pensar de que modo a emerg√™ncia da paisagem (urbana, da natureza) na TV se mistura √†s reflex√Ķes dos anos 1980 que atentam para a transforma√ß√£o na natureza das imagens quando elas passam a constituir um territ√≥rio de contamina√ß√£o entre si ‚Äď imagens do cinema, da televis√£o, do v√≠deo, da fotografia, do mundo digital. Neste cen√°rio, a reinvindica√ß√£o do document√°rio, ou da televis√£o, sobre si mesmo, em termos te√≥ricos ou pr√°ticos, j√° n√£o faz mais sentido (Le P√©ron, 1981; Bertin, 1981; Frapat, 1981).¬†

Tal abordagem mobiliza quest√Ķes que alavancaram esse projeto: que afetos e ideias as paisagens documentais televisivas - do Jap√£o, de Angola, da √Āfrica, da Am√©rica ‚Äď perpetuam? Como essas produ√ß√Ķes tencionam o entendimento do documental enquanto “retratos do real” em prol de experi√™ncias n√£o simplesmente subjetivas (a ilus√£o), mas de vis√Ķes assubjetivas que operam na materialidade da imagem? As paisagens documentais, nesse sentido, s√£o mais que inst√Ęncias geogr√°ficas; s√£o constru√ß√Ķes sensoriais, culturais e memorial√≠sticas em meio √†s quais a natureza, as cidades, o homem tornam-se uma evid√™ncia soberana que nos atravessa, um espasmo, a pot√™ncia de um instante que nos abre √† dura√ß√£o paradoxal de uma epifania (Deleuze, 2007).

Imagens documentais de terras distantes transformadas em paisagem pela televis√£o. Essa tema ecoa nas reflex√Ķes de Youssef Ishaghpour quando afirma, a partir do cinema de Abbas Kiarostami, que a paisagem s√≥ se torna vis√≠vel nos seus filmes por ser o “long√≠nquo” (2004). O long√≠nquo dos lugares, dos povos, dos h√°bitos, desenha o Outro como opacidade que irrompe inesperadamente. Queremos pensar como os document√°rios televisivos no Brasil produzem imagens de terras distantes, como se d√£o os procedimentos est√©ticos e suas formas de frui√ß√£o, como se formulam - ou n√£o - formas de alteridade m√ļltiplas.

Metodologia

Al√©m das obras e dos autores citados, queremos dialogar com cineastas que trabalham com a retomada de materiais de origens diversas, como Bill Morrison, Agn√®s Varda, Peter Forg√°cs, Harun Farocki. Nossa ideia n√£o √© analisar diretamente a produ√ß√£o desses cineastas, mas fazer de suas obras interlocutores que nos auxiliem para uma melhor investiga√ß√£o acerca dos procedimentos expressivos e estil√≠sticos usados em pr√°ticas documentais diversas, atentando para o uso que fazem de imagens-documento (imagens de vigil√Ęncia, dom√©sticas, an√īnimas, institucionais) na sua rela√ß√£o expl√≠cita com as lacunas, as zonas de sombra, os res√≠duos; ou ainda, o uso das imagens-documento como experimento sensorial, sonoro, pl√°stico (o tema da paisagem documental em Bill Morrison, por exemplo).¬†¬†

Pensar o document√°rio dentro de um contexto midi√°tico que come√ßa a se ampliar √© uma posi√ß√£o que encontra sustenta√ß√£o te√≥rica nas reflex√Ķes elaboradas pelo cr√≠tico de cinema Serge Daney e pelo fil√≥sofo Gilles Deleuze ¬†(1990), retomadas e aprofundadas por in√ļmeros pensadores contempor√Ęneos, que apontam para uma mudan√ßa na natureza da imagem cinematogr√°fica √† medida que esta passou, inexoravelmente, a estabelecer rela√ß√Ķes mais intensas com a televis√£o, o v√≠deo, as imagens digitais. As imagens em movimento constituem, a partir dos anos 80, um territ√≥rio de contamina√ß√£o entre imagens diversas e a reivindica√ß√£o de um fechamento do cinema ou do document√°rio sobre si mesmo, em termos te√≥ricos ou pr√°ticos, n√£o faz mais muito sentido.

Esse estado de coisas também foi diagnosticado na mesma época pelo crítico de cinema franco-iraniano Youssef Ishaghpour ao definir a televisão como o "extra-campo" do cinema, algo que o determinava do interior e do exterior, e o artista como sendo obrigado a se tornar um "especialista" da mídia e do seu funcionamento (1986, p. 12). Para esse crítico, a criação artística só é possível no interior desse contexto, e não excluída dele. Não há mais como filmar uma certa realidade depurada de outras imagens, de modo que a criação no terreno das imagens tem daqui para frente não apenas o próprio cinema como pano de fundo, mas a multiplicidade de imagens que nos cerca, atravessa e constitui.

Interessa, nesse aspecto, investigar o lugar que o document√°rio nos anos 80 reserva ao telespectador brasileiro; se h√°, como na d√©cada de 70, a cren√ßa de que o trabalho por entre as brechas da reportagem pode suscitar um pensamento cr√≠tico a respeito do pa√≠s, a cren√ßa de que o document√°rio pode ser o lugar dos “desvios” (da Tv, do cinema comercial), mesmo que imerso na efemeridade de uma m√≠dia de massa.

O projeto explora e tira partido da ideia de W. J. T. Mitchell de que as imagens s√£o “agentes” de uma disputa ‚Äď de sentidos, de entendimentos, de percep√ß√Ķes -, de que elas funcionam frequentemente como extens√Ķes de pr√°ticas pol√≠ticas, que elas retornam, se misturam, nos buscam e nos interpelam de modo imprevis√≠vel. Se as imagens t√™m uma tend√™ncia a ganhar vida, ele afirma, elas nem sempre o fazem do mesmo modo (2011, p. 128). Para a pesquisa em foco, pensar as imagens documentais numa disputa √© consider√°-las na sua temporalidade, decomposi√ß√£o, desaparecimento, fragmenta√ß√£o e, por fim, na sua eventual sobrevida quando √© retomada numa obra.

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Intera√ß√Ķes digitais: usos sociais da Internet em perspectiva etnogr√°fica
Docente: Profª. Drª. Adriana Braga

Descrição:

Este estudo busca investigar as intera√ß√Ķes ocorrentes a partir dos ambientes de Internet. O objetivo central consiste em descrever e analisar aspectos da din√Ęmica interacional estabelecida entre participantes das intera√ß√Ķes sociais no ambiente digital. Em termos mais espec√≠ficos, pretendo discutir formas particulares com as quais arranjos interacionais se organizam, bem como as rela√ß√Ķes de perten√ßa e reconhecimento entre as participantes, √† luz de teorias da enuncia√ß√£o e da intera√ß√£o social. Procurei caracterizar este ambiente de m√≠dia como locus privilegiado do encontro entre cibercultura, pr√°ticas sociais e tecnologia computacional.

Antecedentes:

O presente projeto busca a dar continuidade a atividades de pesquisa j√° em andamento, desta vez enfatizando principalmente a dimens√£o de processo de subjetiva√ß√£o presente nas atividades on-line, em din√Ęmicas comunicacionais tais como constitui√ß√£o de identidades, processos de legitima√ß√£o e cria√ß√£o de circuitos comunicacionais, aspectos componentes do universo de atividades digitais a que denomino “Ordem da Intera√ß√£o Digital”.
A problem√°tica que norteia este estudo parte da compreens√£o das redes e m√≠dias sociais, fen√īmeno midi√°tico expressivo surgido na √ļltima d√©cada, como ambientes espec√≠ficos possibilitados pelo suporte t√©cnico e seus usos, que originam pr√°ticas sociais peculiares. Acredito que essas intera√ß√Ķes sociais tecnologicamente mediadas podem ser pensadas como um interessante ponto de partida para investigar a rela√ß√£o entre tecnologias da informa√ß√£o e intera√ß√£o social na contemporaneidade.

Objetivos:

O fen√īmeno que este estudo se prop√Ķe a investigar se refere a atualiza√ß√Ķes contempor√Ęneas espec√≠ficas, usos sociais das tecnologias computacionais por grupos em intera√ß√£o. As atividades on-line est√£o inseridas em condi√ß√Ķes pr√°ticas de uso, utilizando-se de recursos de v√°rios contextos interacionais em combina√ß√Ķes espec√≠ficas de acordo com a demanda do caso de uso em quest√£o. Tais atividades n√£o parecem substituir atividades tradicionais, mas funcionar como seus complementos ou transforma√ß√Ķes. V√°rios aspectos da conversa√ß√£o oral-auditiva podem ser identificados na CMC; entretanto, outros modelos podem compor essa atividade espec√≠fica, como escritura de cartas, telefonema, conversa√ß√£o presencial, etc. Nesse sentido, o material em exame aponta para a necessidade de observa√ß√£o do modo peculiar de express√£o comunicativa nestes ambientes, buscando compreender a especificidade dessa cultura comunicacional a partir do modo pelo qual participantes interagem.

A forte dimens√£o interacional do fen√īmeno observado aponta para a necessidade de uma abordagem de cunho etnogr√°fico, visando captar com maior precis√£o e abrang√™ncia a complexa rela√ß√£o interacional ali estabelecida. Assim, ser√£o examinadas transcri√ß√Ķes de entrevistas realizadas com informantes selecionados/as, anota√ß√Ķes feitas a partir da participa√ß√£o em eventos presenciais, intera√ß√Ķes multim√≠dia encontradas nos ambientes da rede, e ainda, o conte√ļdo de um di√°rio de campo etnogr√°fico.

Perspectivas teóricas:

Desde a cria√ß√£o de interfaces simplificadas para veicula√ß√£o de conte√ļdos on-line, os ambientes de Internet passaram a ser largamente utilizados por usu√°rios/as n√£o especializados/as como meio de express√£o individual e coletiva, operando como um espa√ßo social para apresenta√ß√Ķes do self, onde s√£o veiculadas representa√ß√Ķes de identidade e de individualidade, em uma din√Ęmica an√°loga ao que Goffman (1998) denomina “gerenciamento da impress√£o” (impression management).

Os indiv√≠duos se agregam a partir de interesses e necessidades que definem conte√ļdos espec√≠ficos. Mas para al√©m desses conte√ļdos, o fato de se sentirem sociados provoca satisfa√ß√£o em seus membros, a forma√ß√£o daquela sociedade como tal √© em si um valor. O puro processo de socia√ß√£o, a forma desse processo √©, assim, um valor est√©tico socialmente apreciado. Sendo assim, a sociabilidade (Simmel, 1983) evita atritos com a realidade, de modo que os motivos da socia√ß√£o, implicados na vida pr√°tica, n√£o t√™m import√Ęncia neste contexto interacional. Ponto semelhante √© desenvolvido por Goffman, para quem a maior parte da intera√ß√£o social cotidiana √© possibilitada pelo engajamento comum e volunt√°rio dos participantes no que ele chama de “consenso operacional” (Goffman, 1998), uma esp√©cie de concord√Ęncia superficial, onde cada participante abstrai suas posi√ß√Ķes pessoais em prol de uma defini√ß√£o da situa√ß√£o compartilhada por todos:

A conserva√ß√£o desta concord√Ęncia superficial √© facilitada pelo fato de cada participante ocultar seus pr√≥prios desejos por tr√°s de afirma√ß√Ķes que ap√≥iam valores aos quais todos os presentes se sentem obrigados a prestar falsa homenagem. (...) Os participantes, em conjunto, contribuem para uma √ļnica defini√ß√£o geral da situa√ß√£o, que implica n√£o tanto num acordo real quanto √†s pretens√Ķes de qual pessoa, referentes a quais quest√Ķes, ser√£o temporariamente acatadas, haver√° tamb√©m um acordo real quanto √† conveni√™ncia de se evitar um conflito aberto de defini√ß√Ķes da situa√ß√£o. Referir-me-ei a este n√≠vel de acordo como um “consenso operacional” (Goffman, 1998, pp. 18-19).

Mesmo com toda a media√ß√£o tecnol√≥gica, a intera√ß√£o nos ambientes digitais parece n√£o prescindir do encontro presencial. Por vezes, frequentadores/as efetivamente promovem encontros de fato, mais aos moldes da sociabilidade descrita por Simmel. Os encontros s√£o concebidos, planejados e comentados no ambiente digital, e documentados nos ambientes de Internet por participantes. Nesse caso, as rela√ß√Ķes mediadas pelas tecnologias participam do contexto da intera√ß√£o, e a prop√≥sito dela. Esta intera√ß√£o, associa√ß√£o de interesses compartilhados, utiliza as m√≠dias dispon√≠veis de modo complementar, a servi√ßo da intera√ß√£o.

Se por um lado, a teoriza√ß√£o de Goffman sobre a ordem da intera√ß√£o face a face parece se aplicar muito bem ao objeto sob investiga√ß√£o, por outro, os dados apontam tamb√©m diferen√ßas importantes. Goffman considera que h√° duas esp√©cies de expressividade do indiv√≠duo, atividades radicalmente diferentes e igualmente significativas: a express√£o “transmitida”, ligada √† linguagem verbal e √† intencionalidade, e a express√£o “emitida”, que inclui os gestos, olhares, suores, sorrisos ou express√Ķes faciais, permitindo infer√™ncias nem sempre controladas pelo indiv√≠duo. No caso das intera√ß√Ķes digitais, h√° menos elementos de emiss√£o de express√£o, havendo uma preponder√Ęncia da informa√ß√£o deliberadamente transmitida. Isso traz consequ√™ncias ao tipo de intera√ß√£o que se estabelece. Segundo Goffman (1998), um indiv√≠duo, ao se apresentar diante de outros, pode agir de v√°rias maneiras com rela√ß√£o ao que esses outros esperam dele. O processo de apresenta√ß√£o do self no contexto digital se d√° de diversas maneiras. Relativamente livres da expressividade via emiss√£o, os sujeitos encontram menos obst√°culos - ou obst√°culos de outra ordem - em tentar manejar a impress√£o causada nos outros, atrav√©s de tentativas de controle com rela√ß√£o √† informa√ß√£o fornecida.

O ambiente digital apresenta caracter√≠sticas de intera√ß√£o diferenciadas daquelas apresentadas pela sociabilidade, deixando perceber o desenvolvimento de outra forma de socia√ß√£o, o conflito. A import√Ęncia sociol√≥gica do conflito (kampf) √© problematizada por Simmel (1983) de forma original. Enquanto admite-se que o conflito modifique ou at√© produza grupos de interesse, o autor se pergunta se o conflito, independente de qualquer fen√īmeno do qual resulte ou acompanhe, √©, em si mesmo, uma forma de socia√ß√£o. Apesar dos conflitos serem motivados por fatores de dissocia√ß√£o, s√£o tamb√©m modos de se conseguir algum tipo de unidade. Assim, o conflito pode ser visto como algo positivo, na medida em que ambas as formas de rela√ß√£o, a divergente ou a convergente, se diferenciam fundamentalmente da indiferen√ßa entre indiv√≠duos ou grupos, que seria nesse sentido puramente negativa. √Č da diverg√™ncia de √Ęnimos e dire√ß√Ķes de pensamentos que fluem a estrutura org√Ęnica e a vitalidade do grupo. Ao contr√°rio do que pode parecer, unidade e discord√Ęncia s√£o tipos de intera√ß√£o que n√£o se anulam, mas se somam; e mesmo que a discord√Ęncia possa ser destrutiva em rela√ß√Ķes particulares, n√£o tem necessariamente o mesmo efeito no relacionamento total do grupo, podendo at√© ter um papel inteiramente positivo em quadro mais abrangente. As hostilidades preservam limites no interior do grupo e muitas vezes garantem suas condi√ß√Ķes de sobreviv√™ncia. O direito e o poder de rebeldia contra tiranias, arbitrariedades, mau-humor contribui para a manuten√ß√£o da rela√ß√£o com pessoas cujo temperamento n√£o poderia ser suportado de outra forma.

Entre os pontos caracter√≠sticos da sociabilidade, Simmel destaca tamb√©m sua natureza democr√°tica, uma esp√©cie de “toma l√°, d√° c√°,” onde cada participante oferece valores sociais ao ambiente (alegria, realce) na mesma propor√ß√£o com que recebe. Eliminado o que √© pessoal e objetivo, a sociabilidade “cria um mundo sociol√≥gico ideal” (Simmel, 1983, p. 172), onde o prazer do indiv√≠duo est√° implicado no prazer dos outros. Esta esp√©cie de clube criado a partir desta intera√ß√£o espec√≠fica, que se manifesta como um “campo finito de significa√ß√£o” (Schutz, 1962), desvinculado dos assuntos s√©rios e objetivos, aparece frequentemente nos materiais da comunica√ß√£o mediada por computador.

Desta maneira, na sociabilidade, a conversa √© o prop√≥sito em si, a conversa √© a realiza√ß√£o de uma rela√ß√£o l√ļdica, que s√≥ quer ser rela√ß√£o. Enfim, talvez seja interessante para justificar a investiga√ß√£o sobre esse tipo de material, a aproxima√ß√£o que Simmel faz da sociabilidade, “exatamente por sua dist√Ęncia de sua realidade imediata, pode revelar a natureza mais profunda desta realidade, de maneira mais completa, consistente e realista que qualquer tentativa de apreend√™-la mais diretamente” (Simmel, 1983, p. 180). A considerar o relaxamento dos pap√©is formais desempenhados em outras situa√ß√Ķes interacionais, os momentos de sociabilidade tornam-se mais propensos ao fluxo de conte√ļdos espont√Ęneos, √≠ntimos ou inconscientes, informa√ß√Ķes talvez mais facilmente protegidas em situa√ß√Ķes s√©rias.

Metodologia:

Para os fins deste estudo, considero que dois conceitos est√£o intimamente articulados, a saber, “intera√ß√£o social” (Goffman, 1999) e “enuncia√ß√£o” (Benveniste, 1989). Por sobre os elementos mais palp√°veis das intera√ß√Ķes digitais - os posts, links, layout - √© poss√≠vel perceber um conjunto de princ√≠pios, valores e interpreta√ß√Ķes sobre os eventos. Negocia√ß√Ķes de sentido realizadas por intera√ß√Ķes de modo din√Ęmico, que negociam significados a partir de perspectivas e m√©todos pr√°ticos de enfrentamento de situa√ß√Ķes concretas e posicionamentos das/os participantes da intera√ß√£o. Estas perspectivas e posi√ß√Ķes s√£o afirmadas e registradas atrav√©s de discursos que se materializam em textos escritos, v√≠deos, fotos, links, principalmente no contexto das m√≠dias e redes sociais. Os trabalhos sobre os discursos pressup√Ķem que estes j√° trazem em si “marcas” que revelam aspectos do funcionamento do sistema social e da cultura dentro da qual foram gerados, ainda que, muitas vezes, o/a enunciador/a n√£o o pretenda (Fausto Neto, 1991).

Assim, fragmentos de defini√ß√Ķes de situa√ß√£o aparecem como t√≥picos de debate nos discursos desses ambientes, seguidos de outros posicionamentos relativos, estruturando o que chamei de thread (termo tomado da metodologia desenvolvida por Rutter & Smith, 2002, que se refere a um conjunto de coment√°rios motivados por dado assunto em intera√ß√Ķes digitais), unidade de an√°lise descrita abaixo. O thread, assim, se mostra como resultante de um duplo ordenamento: sujeito √† ordem do discurso (na sua dimens√£o pol√≠tica de negocia√ß√£o de significados), e √† ordem da intera√ß√£o (na sua din√Ęmica de apresenta√ß√£o do self das/os participantes). Desta maneira, acredito que a articula√ß√£o entre enuncia√ß√£o e intera√ß√£o social resulta produtiva para operacionalizar a leitura dos complexos processos interacionais sob exame.

O contexto discursivo da Internet pode ser pensado como um front de lutas por defini√ß√Ķes de realidade, e nessa “transa√ß√£o de falas” (Mouillaud, 1997) que produz os sentidos, significados de toda ordem disputam espa√ßo de legitimidade. No entrecruzamento de pressupostos culturais, cultura de consumo, saberes tradicionais e rela√ß√Ķes hist√≥ricas de poder, defini√ß√Ķes de realidade s√£o propostas, negociadas e transformadas no √Ęmbito da constitui√ß√£o desses discursos.

Nas rela√ß√Ķes interpessoais face a face, por telefone e assim por diante, as pessoas sabem como agir visando determinada impress√£o no interior de seu grupo de conviv√™ncia cotidiana. Mesmo que nenhuma regra esteja formalmente codificada, existe uma regula√ß√£o t√°cita que cria expectativas de pr√°ticas sociais entre os indiv√≠duos. A CMC, por sua incipi√™ncia, demanda dos/as participantes das intera√ß√Ķes neste contexto certa improvisa√ß√£o diante de situa√ß√Ķes n√£o vividas. Sendo assim, adapta-se modelos de outros contextos de intera√ß√£o para experimentar e ao mesmo tempo criar as regras para as rela√ß√Ķes ocorrentes neste ambiente espec√≠fico. Assim, os padr√Ķes de express√£o praticados nesses ambientes n√£o deixam de estar submetidos ao controle social das/os participantes da intera√ß√£o. A possibilidade do anonimato, por exemplo, pode funcionar simultaneamente como est√≠mulo para v√≠nculos de amizade e intimidade, bem como para a agressividade e desrespeito ao outro.

Para o exame das trocas sociais ocorrentes no ambiente digital, uma aproximação caso a caso busca o refinamento da reflexão sobre os objetos comunicacionais emergentes a partir de sua natureza prática mais que teórica. Ao se afastar das práticas interativas vividas pelos sujeitos, corre-se o risco de produzir uma teoria estipulativa que se baseia na potencialidade oferecida pela tecnologia disponível na Internet como meio de comunicação e não em seus usos concretos.

No cl√°ssico livro “A Interpreta√ß√£o das culturas”, de 1973, Geertz se posiciona entre aqueles que se preocupam com a limita√ß√£o, com a especifica√ß√£o do conceito de cultura, visando reduzi-lo a uma dimens√£o justa que garanta a continua√ß√£o de sua pertin√™ncia. Para substituir a teoriza√ß√£o de seus antecessores que concebiam in√ļmeras e amplas defini√ß√Ķes para o conceito, o autor defende um conceito de cultura semi√≥tico. Partindo da proposi√ß√£o de Max Weber, segundo a qual “o homem (sic) √© um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu,” a cultura seria “essas teias e sua an√°lise” (Geertz, 1978, p. 15), demandando assim uma ci√™ncia interpretativa em busca do significado.

A técnica etnográfica foi concebida e historicamente aplicada a grupos sociais em interação face a face com o/a etnógrafo/a, que fazia da sua experiência uma fonte de dados. O modo peculiar de interação ocorrente nos ambientes digitais ainda é de alguma forma uma novidade, que traz desafios metodológicos à aplicação desta tradicional técnica de pesquisa, tornando necessário ajustar alguns pressupostos da etnografia a esse novo objeto, de que somos testemunhas e agentes em sua confecção.

Em termos metodol√≥gicos, a etnografia se funda na no√ß√£o de observa√ß√£o participante, visto ser imposs√≠vel, em situa√ß√Ķes face a face, uma observa√ß√£o n√£o-participante. Ora, os ambientes interacionais da Web caracterizam-se pela aus√™ncia f√≠sica das/os participantes, sendo poss√≠vel tornar-se “invis√≠vel.” Sendo assim, √© poss√≠vel apreender a cultura de um grupo somente observando? √Č poss√≠vel uma “observa√ß√£o n√£o-participante?”

A condição que possibilita o ofício do/a etnógrafo/a é a imersão e a experiência da efetiva participação no ambiente pesquisado. Este ofício inclui participar, observar, descrever: categorias que formam a unidade do fazer etnográfico. Então, lurking é participação? Essa especificidade é o objeto central desse questionamento metodológico. A observação participante on-line é uma participação peculiar, na medida em que, em termos de presença/ausência, a informação acerca da presença do/a observador/a no setting não está disponível às/aos demais participantes.

A partir de uma problematização em torno das particularidades da interação em um ambiente baseado em texto, o newsgroup RumCom.local, dois pesquisadores ingleses, tendo optado pelo método etnográfico, relacionam as vantagens da sua aplicação ao ambiente on-line.

Etnografia online é certamente um sonho do pesquisador. Ela não implica em deixar o conforto de seu escritório; não há complexos privilégios de acesso para negociar; dados de campo podem ser facilmente gravados e salvos para análise posterior; um grande montante de informação pode ser coletado rapidamente e sem custos (Rutter & Smith, 2002a, p. 3).

Os autores alertam para a import√Ęncia de o/a pesquisador/a estar atento a respeito de onde estamos estudando como etn√≥grafos eletr√īnicos, na medida em que, como em uma liga√ß√£o telef√īnica, as rela√ß√Ķes estabelecidas na rede s√£o definidas por atos de intera√ß√£o e comunica√ß√£o, considerando que n√£o h√° um “lugar” no universo virtual para al√©m da met√°fora (2002a, p. 4).

No estudo das a√ß√Ķes sociais, a etnometodologia (Greiffenhagen & Watson, 2005) trata do seu sentido como sendo situado e pr√°tico, ou seja, envolvendo um √Ęmbito de considera√ß√Ķes pr√°ticas para o uso, o que Schutz (1962) chama de ‘atitude da vida cotidiana.’ Tais atividades s√£o caracterizadas mais por sua natureza pr√°tica que te√≥rica. Assim, recomenda-se proceder atrav√©s de an√°lise emp√≠rica adequada, baseada caso a caso.

Em termos metodol√≥gicos, esta vertente da Sociologia trabalha com a no√ß√£o de ‘exig√™ncia singular de adequa√ß√£o’, uma compet√™ncia exigida do/a analista na atividade concernida. A compet√™ncia comum na atividade sob exame pode evitar que o/a analista descreva as atividades dos/as pesquisados/as de forma estipulativa ou focalize nas vicissitudes do/a novato/a. Ou seja, o que pode ser familiar para os/as participantes de uma intera√ß√£o espec√≠fica pode parecer ‘estranho’ para um/a observador/a pouco competente no campo do fen√īmeno.

Os logfiles, registros das atividades realizadas produzidos atrav√©s da pr√≥pria tecnologia, muito frequentemente s√£o tomados como os dados da pesquisa, facilitando os problemas de coleta de material para an√°lise (Miller, 1995). Entretanto, h√° muitos perigos nesta op√ß√£o metodol√≥gica. Os logfiles apresentam uma vista a√©rea da intera√ß√£o geral, ou seja, um ponto de vista t√≠pico do/a analista, n√£o do/a participante da intera√ß√£o, uma inst√Ęncia corrente, em processo, al√©m de perder a possibilidade de capturar como os/as participantes estabelecem aquela intera√ß√£o ao longo do tempo. O uso das tecnologias de comunica√ß√£o est√° implicado em atividades mais amplas da vida cotidiana, a comunica√ß√£o estabelecida por esses meios pode ter outro objetivo al√©m da comunica√ß√£o em si, desta forma a depend√™ncia exclusiva dos logfiles envolve uma descontextualiza√ß√£o que arrisca n√£o permitir que o fen√īmeno seja percebido propriamente. Assim, h√° uma tenta√ß√£o de tratar os logfiles como independentes e priorizar apenas os seus conte√ļdos, removendo as especificidades da intera√ß√£o comunicativa. Nesse sentido, analistas que tomam os logfiles como √ļnica fonte de dados poderiam ser caracterizados como o que Roy Turner chamou de ‘arque√≥logos/as por op√ß√£o,’ analistas que optam por considerar apenas fragmentos e tra√ßos de uma sociedade em suas an√°lises, quando a pr√≥pria sociedade ainda est√° dispon√≠vel (Greiffenhagen & Watson, 2005).

As possibilidades e limita√ß√Ķes das abordagens apontadas acima evidenciam a necessidade de, a cada pesquisa, desenvolver uma composi√ß√£o de t√©cnicas que resulta, em cada caso, num aparato metodol√≥gico espec√≠fico - naquilo que Becker (1993) denomina “multim√©todo.” Como dito acima, os/as participantes conduzem suas atividades na Internet tendo como modelo recursos de v√°rias pr√°ticas comunicacionais anteriores, sendo uma delas a escrita em geral, concretizadas em enunciados pass√≠veis de ser analisados pelo aporte te√≥rico fornecido pela An√°lise do Discurso - a complementar o trabalho etnogr√°fico.

Se por um lado, o arquivo disponibilizado pela tecnologia da Internet em logfiles parece oferecer ‘tudo’ o que se passa nas atividades da rede, o que parece minimizar os problemas de coleta de dados, por outro, a utiliza√ß√£o deste recurso como √ļnica fonte de dados pode tirar a oportunidade do/a analista de perceber os sentidos intersubjetivamente partilhados.

O ambiente disponibilizado pela Internet n√£o √© ocupado de forma homog√™nea, h√° muitas estruturas distintas. Das muitas aplica√ß√Ķes dispon√≠veis, algumas se estabelecem e permanecem, enquanto que outras formas de uso dos recursos t√©cnicos proporcionados caem em desuso. Entre os formatos que parecem ter se estabelecido com vigor, pode-se destacar o e-mail - meio de comunica√ß√£o em geral pessoal e privado -, o website - institucional e p√ļblico -, o mensageiro instant√Ęneo - pessoal, privado e sincr√īnico -, e as m√≠dias e redes sociais, p√ļblico e pessoal, ou seja, espa√ßo p√ļblico, mas “com dono/a”.

O ponto de partida para a operacionaliza√ß√£o deste estudo consiste em coment√°rios publicados nas redes sociais. A estes dados, acrescentam-se entrevistas presenciais, por telefone e mensageiro instant√Ęneo com participantes, al√©m de observa√ß√£o participante em encontros presenciais, experi√™ncias registradas sistematicamente em um di√°rio de campo etnogr√°fico. Estas op√ß√Ķes visam a ampliar a base emp√≠rica de dados para a compreens√£o do fen√īmeno em sua complexidade, evitando os perigos de ter como √ļnica fonte de dados os registros dispon√≠veis nos logfiles, como abordado acima.

A unidade b√°sica de an√°lise para lidar com os numerosos dados provenientes dos registros dispon√≠veis na rede consiste no thread, um conjunto de coment√°rios relativos a um mesmo tema, fen√īmeno interacional/verbal t√≠pico da intera√ß√£o social na Internet, descrito por Rutter e Smith (2002a; 2002b). Em um thread, as/os participantes alternam coment√°rios datados e numerados, em uma esp√©cie de radicaliza√ß√£o da din√Ęmica de “turnos de fala” (Schegloff, Sacks & Jefferson, 1974) na conversa√ß√£o face a face, na qual n√£o h√° corte ou sobreposi√ß√£o de falas, mas uma sequ√™ncia configurada.

Assim, considero importante buscar, al√©m da diversidade dos conte√ļdos apresentados nos ambientes digitais, “os princ√≠pios estruturantes que fornecem ordem em meio ao fluxo” (Smith, 2004, p. 51). A estipula√ß√£o dos threads, a observa√ß√£o de sua dura√ß√£o, frequ√™ncia e conte√ļdos para a organiza√ß√£o e exame desses dados em seu conjunto demonstram grande potencial anal√≠tico, uma vez que √© no confronto entre posi√ß√Ķes manifestas ao longo dos threads que a negocia√ß√£o social dos sentidos se realiza, tanto na ordem do discurso quanto na ordem da intera√ß√£o, os dois eixos principais desta investiga√ß√£o, visando a uma caracteriza√ß√£o profunda das modalidades de intera√ß√£o ocorrentes no ambiente digital.

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Imagens e representa√ß√Ķes da realidade: a realiza√ß√£o do
    filme documental hoje
Docente: Profª. Drª. Angeluccia Bernardes Habert

Descrição:

Este projeto procura discutir o cinema documental hoje, identificando filmes e realizadores mais representativos da produ√ß√£o recente brasileira. O jogo, ou a interface, entre duas premissas - o documental como socorro nobre da fic√ß√£o e o documental como liga√ß√£o das quest√Ķes da representa√ß√£o da realidade, da subjetividade, da auto-reflexividade e da tend√™ncia atual de constru√ß√£o de textos com v√°rias vozes. Da mesma maneira agrega as quest√Ķes da continuidade e descontinuidade da cinematografia nacional.

Antecedentes:

Esta pesquisa parte da experiência anterior com estudos de produtos midiáticos que se auto definem como portadores de realidade, com resultados publicados ao longo dos anos, mas pretende ser uma investigação inteiramente nova, deslocando o conhecimento e a metodologia analítica para a observação de outro conjunto de objetos, no caso a produção recente do cinema documental brasileiro. Uma comunicação deste projeto com o título Representando a realidade: o cinema documental hoje foi realizada no VIII Congresso da Abralic, Belo Horizonte, julho 2002, no Simpósio O intelectual periférico.

Perspectivas teóricas:

O uso do documental para oxigenar a fic√ß√£o em um filme super ensaiado e a sua inten√ß√£o de ter feito um filme sobre o Brasil real s√£o afirma√ß√Ķes de Walter Moreira Salles (CINEMAIS, N.9, jan/fev, 1998), definindo Central do Brasil. Esta procura de um outro pa√≠s, a busca da singularidade, do retorno para o interior realizada atrav√©s da invers√£o do fluxo migrat√≥rio mais forte do pa√≠s, surge na d√©cada de noventa como outra id√©ia fora de lugar: assemelha-se ao j√° antevisto por Robert Schwarz (1989) como o nacional por subtra√ß√£o. Central do Brasil surpreende, ent√£o, com sua tem√°tica cinema novista passada a limpo.

O esfor√ßo de integrar fragmentos de discursos da singularidade procura evocar na mente do espectador ideal ( impl√≠cito no texto constru√≠do) a simpatia para, em seguida, provocar uma rea√ß√£o emotiva positiva, por meio de uma fabula√ß√£o simples, aparentemente espont√Ęnea, pr√≥xima da cultura oral e plena de marcas contrastantes da cultura do outro, ou da minha cultura para o outro. Este uso complementar e restaurador das conven√ß√Ķes do documental pela fic√ß√£o atua ao mesmo tempo como uma renova√ß√£o est√©tica e como dilui√ß√£o das fronteiras entre as categorias fic√ß√£o e documental.

O document√°rio, mesmo o mais radical dos document√°rios tem muito de autobiografia, tem muito de quem fez, de tudo que ficou para tr√°s e que na verdade n√£o ficou, veio junto com voc√™, afirma Vladimir Carvalho (CINEMAIS, N.16, mar/abril, 1999). O cineasta que se especializou como documentarista, trabalhou como assistente de dire√ß√£o em Aruanda ( de Linduarte Noronha, 1959), marco inicial do Cinema Novo e na primeira fase de Cabra marcado para morrer, ( Eduardo Coutinho, 1964 a 1984). Ainda jovem descobriu que o document√°rio era um cinema de c√Ęmera, era uma coisa muito natural, buscar cinema na realidade viva palpitante, distinto do cinema espet√°culo.

Desde os prim√≥rdios do cinema documental prevalecia a id√©ia de filmar sur le vif , express√£o de Louis Lumi√®re. Por coincid√™ncia, quando o conceito de cultura em desaparecimento foi cristalizado e as observa√ß√Ķes de outras culturas se tornam estudos sistem√°ticos, no final do mesmo s√©culo, em 1895, ocorre a inven√ß√£o da c√Ęmera de 5 kg. Esta c√Ęmera permite o deslocamento e a observa√ß√£o quase imediata sobre o desconhecido, em lugares e em situa√ß√Ķes mais distantes. Quando Grierson cunhou o termo documentary para qualificar o filme Moana, de Flaherty, em 1925, depois da consagra√ß√£o de Nanook, de 1922, estava falando de filmes que seguiam o modelo ideol√≥gico do observador- observado, mas que j√° foram narrados com a ret√≥rica do cinema de fic√ß√£o; criando personagens, encena√ß√Ķes dram√°ticas, aproxima√ß√Ķes did√°ticas, humor√≠sticas e uma estrutura que simula a curiosidade e a surpresa do observador e prepara a revela√ß√£o da coisa observada. O advento do som direto acresceu este est√°gio do document√°rio com a riqueza da linguagem humana e a possibilidade, atrav√©s das entrevistas, de enfatizar ou somar de outros verdades e sabedorias.

Decisivamente, o cinema, neste in√≠cio do s√©culo XXI, experimenta uma outra revolu√ß√£o tecnol√≥gica que afeta sua constitui√ß√£o, modifica consideravelmente seus recursos de informa√ß√£o e de entretenimento e altera sua base de reprodu√ß√£o, sendo criadas as condi√ß√Ķes para capta√ß√£o e produ√ß√£o digital.

Em nossos dias, o cinema, ele mesmo, tem tomado a si a aura de uma cultura em desaparecimento a partir de seu envolvimento com as v√°rias m√≠dias digitais e eletr√īnica diz Russerl (1999)-este meio se torna cada vez mais auto referencial. Mesmo a sua categoria dita documental desenvolve uma representa√ß√£o mais auto-reflexiva, mostrando os aspectos da produ√ß√£o, da constru√ß√£o e do envolvimento daquele que observa com o observado. Ao mesmo tempo que experimenta elementos de criatividade inusitados, dantes trabalhado pela est√©tica de vanguarda, incorpora outros elementos da fic√ß√£o, trabalha a reconstitui√ß√£o do observado e desenvolve cada vez mais a consci√™ncia de que a linguagem √© o principal meio de troca entre os seres humanos e a realidade, no seu processo de percep√ß√£o, de cogni√ß√£o e de a√ß√£o social.

Desta recente possibilidade de cada vez mais gravar a interven√ß√£o humana sem interrup√ß√Ķes, permitida pelos processos de capta√ß√£o digital, a realidade representada se torna intersubjetiva. Ela explode na tela em fragmentos subjetivos. Estabelece-se ent√£o uma conversa√ß√£o ampla, intermin√°vel que s√≥ √© limitada pelo processo de edi√ß√£o, permitindo a evoca√ß√£o polif√īnica - muitas vozes e inumer√°veis significados.

Objetivos:

Geral: Realizar uma leitura da produção recente do cinema, a partir da década de noventa, com a finalidade de recuperar a presença do documental, identificar os realizadores mais representativos e discutir as mudanças que promovem e os significados que suscitam.

Espec√≠ficos: Estabelecer alguns modelos de representa√ß√£o; observar as transforma√ß√Ķes do modelo observador-observado; desvendar influ√™ncias; tematizar aspectos importantes do universo cultural; e compreender o filme documental como mediador do homem e da sua realidade social.

Metodologia:

Nossa leitura anal√≠tica vai trilhar um caminho a partir do filme Central do Brasil, interligando filmes e interpreta√ß√Ķes cr√≠ticas de diferentes proced√™ncias para compreender como concretamente ocorrem as estrat√©gias textuais dos filmes; como se atualizam as categorias mencionadas (Brasil real, representa√ß√£o da realidade, reconstitui√ß√£o, falsifica√ß√£o, nacionalidade, comunidade, auto-reflexividade, subjetividade, singularidade, conversa√ß√£o e polifonia); como se apresenta a rela√ß√£o obervador-observado e como podemos retirar do filme os movimentos de leitura que apresenta. Pretende-se tomar alguns filmes produzidos a partir da d√©cada de noventa como corpus da pesquisa e por estarem ligados a realizadores mais significativos.

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Jornalismo Investigativo e interesse p√ļblico: as experi√™ncias
    profissionais no processo de constru√ß√£o social da realidade
Docente: Prof. Dr. Leonel Azevedo de Aguiar

Descrição:

Esse projeto de pesquisa visa estudar processos e produtos jornal√≠sticos que resultem em modelos anal√≠ticos e ferramentas metodol√≥gicas para o campo dos estudos em jornalismo. A partir das teorias do jornalismo, pretende compreender quais s√£o os crit√©rios de noticiabilidade que regem a produ√ß√£o da informa√ß√£o no jornalismo investigativo em compara√ß√£o com a cobertura factual cotidiana, de modo a descrever as melhores pr√°ticas jornal√≠sticas e examinar as representa√ß√Ķes sobre interesse p√ļblico pela comunidade dos jornalistas.

A proposta desse projeto √©, portanto, pesquisar os crit√©rios de noticiabilidade que regem o jornalismo investigativo em dois jornais da “grande imprensa” editados na cidade do Rio de Janeiro: O Globo e O Dia. A pesquisa tem um car√°ter comparativo, analisando os crit√©rios de noticiabilidade nas coberturas especiais com as mat√©rias factuais produzidas pela cobertura cotidiana nas duas empresas jornal√≠sticas, tanto na m√≠dia impressa quanto na m√≠dia digital.

Antecedentes:

O projeto est√° inserido em uma linha de continuidade te√≥rica que estuda as rela√ß√Ķes de poder-saber que atravessam os discursos jornal√≠sticos produzidos pela “grande imprensa”. Nessa perspectiva, explora o campo jornal√≠stico enquanto uma das regularidades discursivas que constituem a cultura das m√≠dias e a cibercultura. Em diversos artigos j√° publicados, procuramos identificar as forma√ß√Ķes discursivas presentes no campo midi√°tico contempor√Ęneo, com destaque para o jornalismo especializado e duas de suas vertentes: o jornalismo cient√≠fico e o jornalismo ambiental. A pesquisa sobre jornalismo investigativo prossegue nesta teoriza√ß√£o.

Objetivos:

Gerais

  • Verificar se os crit√©rios de noticiabilidade e os valores-not√≠cia aplicados na cobertura jornal√≠stica cotidiana nos suportes impresso e digital tamb√©m s√£o v√°lidos para o jornalismo investigativo ou se, nessa modalidade informativa, os crit√©rios e valores podem ser diferentes;
  • Identificar e classificar os crit√©rios de noticiabilidade e os valores-not√≠cia aplicados no jornalismo investigativo, descrevendo os modos de atua√ß√£o profissional dos rep√≥rteres investigativos;
  • Analisar quais as representa√ß√Ķes por produzidas pelos jornalistas, enquanto uma comunidade interpretativa, acerca do crit√©rio de noticiabilidade “interesse p√ļblico”;
  • Explorar modelos anal√≠ticos e ferramentas metodol√≥gicas resultantes desse projeto de pesquisa para serem aplicadas no campo dos estudos do jornalismo.

Específicos

  • Identificar os crit√©rios de noticiabilidade e os valores-not√≠cia na cobertura factual e nos suportes impresso e digital em dois jornais da grande imprensa no Rio de Janeiro: O Globo e O Dia.
  • Identificar os crit√©rios de noticiabilidade e os valores-not√≠cia nas reportagens investigativas desses dois jornais.
  • Comparar, apontando semelhan√ßas e diferen√ßas, entre os crit√©rios de noticiabilidade e os valores-not√≠cia identificados nos itens 1 e 2.
  • Analisar os modos pelos quais as representa√ß√Ķes sobre interesse p√ļblico, presentes na comunidade interpretativa dos jornalistas, s√£o determinantes para a produ√ß√£o de reportagens investigativas.
  • Formular crit√©rios de noticiabilidade e valores-not√≠cia para as reportagens investigativas dos jornais pesquisados.
  • Contribuir com os estudos acad√™micos sobre jornalismo.
  • Contribuir para a melhoria cont√≠nua do ensino de jornalismo no curso de gradua√ß√£o da PUC-Rio, atrav√©s de um projeto de pesquisa que possibilite a permanente atualiza√ß√£o das pr√°ticas pedag√≥gicas e inova√ß√Ķes das metodologias de ensino.

Perspectivas teóricas:

A partir da premissa de que os meios de comunica√ß√£o de massa s√£o dispositivos de constru√ß√£o social da realidade, a pesquisa visa contribuir com determinadas quest√Ķes para a teoria do jornalismo. Por um lado, pretende identificar os conceitos na obra de Foucault que possam ser utilizados para a compreens√£o do campo midi√°tico e da ordem do discurso jornal√≠stico. Por outro, busca refletir sobre os estudos do jornalismo, com destaque para as conceitua√ß√Ķes de not√≠cias como constru√ß√£o discursiva e as rotinas produtivas que envolvem a comunidade interpretativa dos jornalistas.

Uma determinada perspectiva te√≥rica desta pesquisa vincula-se √† teoria do jornalismo, tomando como ponto de partida os trabalhos de Traquina (2005), Lage (2005), Sousa (2004), Schudson (1996), Zelizer (1993), Genro (1987), Hall (1984) e Tuchman (1978). A partir dessa teoria, pretendemos realizar um estudo sobre os emissores e os processos produtivos no jornalismo impresso, tendo como referencial te√≥rico √†s pesquisas sobre a produ√ß√£o de informa√ß√£o, mais conhecidas como newsmaking. Conforme Wolf (2003), este enfoque te√≥rico n√£o se refere √† cobertura de um evento particular, mas a rotina produtiva cotidiana da cobertura jornal√≠stica por per√≠odos prolongados. Os estudos de newsmaking pretendem analisar o conjunto de crit√©rios que definem a noticiabilidade de cada acontecimento, isto √©, a sua relev√Ęncia para ser transformado em not√≠cia.

A outra perspectiva te√≥rica deste projeto √© determinada pelos m√©todos geneal√≥gicos e arqueol√≥gicos de an√°lise das pr√°ticas discursivas e suas rela√ß√Ķes de poder-saber propostos por Michel Foucault. Estudar o jornalismo enquanto uma ordem do discurso ‚Äď com poder para disciplinar e controlar a multiplicidade dos acontecimentos em regularidades discursivas que produzem um determinado saber sobre o real ‚Äď est√° se tornando uma instigante dimens√£o para o campo dos estudos do jornalismo.

O projeto, portanto, est√° voltado para uma dupla visada te√≥rica: explorar as teses da arqueologia do saber e da genealogia do poder da obra foucaultiana - vinculando suas poss√≠veis contribui√ß√Ķes ao campo comunicacional - e refletir sobre os estudos do jornalismo, com destaque para a teoria do newsmaking. Nossa inten√ß√£o √© colocar diferentes te√≥ricos em um di√°logo f√©rtil, possibilitando inova√ß√Ķes metodol√≥gicas e conceituais para os estudos em jornalismo.

Metodologia:

A perspectiva metodol√≥gica desta pesquisa visa privilegiar as an√°lises, a partir da teoria do newsmaking, das estrat√©gias discursivas atrav√©s das quais a m√≠dia jornal√≠stica constr√≥i a representa√ß√£o social da realidade. Duas quest√Ķes podem definir o √Ęmbito e expor os problemas de que se ocupa essa teoriza√ß√£o: que representa√ß√£o da sociedade os notici√°rios fornecem? Como se associa essa representa√ß√£o √†s exig√™ncias cotidianas de produ√ß√£o de not√≠cias? O ponto central desse tipo de questionamento situa-se dentro de dois limites: a cultura profissional dos jornalistas e a organiza√ß√£o do trabalho com suas rotinas produtivas.

A pesquisa pretende discutir como os crit√©rios de noticiabilidade est√£o estreitamente relacionados com os processos de rotiniza√ß√£o e de estandardiza√ß√£o das pr√°ticas produtivas nas grandes empresas jornal√≠sticas. Essa quest√£o aponta para uma hip√≥tese: o car√°ter negociado dos processos de produ√ß√£o da informa√ß√£o. Ou seja, o produto informativo parece ser o resultado de uma s√©rie de negocia√ß√Ķes, pragmaticamente orientadas, que t√™m por objeto o que √© publicado e o modo como √© publicado no jornal, seja impresso ou digital. Essas negocia√ß√Ķes s√£o efetuadas pelos jornalistas - enquanto uma comunidade interpretativa - em fun√ß√£o de in√ļmeros fatores, que apresentam graus diferenciados de import√Ęncia, e em momentos diversos do processo produtivo.

Conforme Traquina (2005) e Wolf (2003), as pesquisas de newsmaking utilizam a técnica da observação participante, já que este procedimento metodológico torna possível reunir e obter, sistematicamente, os dados fundamentais sobre as rotinas produtivas operadas na empresa jornalística. O pesquisador deve estar inserido, cotidianamente, no ambiente de trabalho dos repórteres investigativos para realizar a observação sistemática dos fatos. Esta metodologia é complementada através de entrevistas com os jornalistas envolvidos nesses processos produtivos.