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Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
Pós-Graduação
 
 

Projetos de pesquisa Imagem ilustrativa deste item

Linha de Pesquisa: Comunicação e Representação

Representa√ß√Ķes midi√°ticas das juventudes na publicidade
Docente: Profª. Drª. Cláudia da Silva Pereira

Descrição:

Estudos relacionados √†s representa√ß√Ķes midi√°ticas, principalmente na Publicidade, das juventudes, considerando, em tal diversidade, sua centralidade como uma das mais importantes e expressivas constru√ß√Ķes sociais da sociedade contempor√Ęnea e, portanto, poss√≠vel porta de acesso √† compreens√£o de seus valores, pr√°ticas e cren√ßas mais centrais. Al√©m disso, busca-se discutir o papel de tais representa√ß√Ķes na sempre renovada ideia de “ser jovem” e¬† como esta din√Ęmica impacta a pr√≥pria configura√ß√£o dos grupos sociais, e subculturais, que podem ser associados aos “tipos ideias” presentes nos an√ļncios e demais pe√ßas publicit√°rias circulantes nas sociedades.

Antecedentes:

Este projeto de pesquisa tem como precedente os trabalhos que v√™m sendo desenvolvidos, desde 2001, sobre adolesc√™ncia, juventude, corpo e suas representa√ß√Ķes sociais na m√≠dia. Em 2011, concentrou-se nas representa√ß√Ķes midi√°ticas da juventude dos anos 1960 at√© a atualidade, buscando compreender, em contextos hist√≥ricos e sociais distintos, de que maneira a m√≠dia elabora a constru√ß√£o social da ideia de juventude e de todas as rela√ß√Ķes que estabelece com o consumo, com a cultura material e com as subculturas.

Objetivos:

O objetivo principal deste projeto √© analisar as representa√ß√Ķes da juventude nos meios de comunica√ß√£o. Para tanto, as quest√Ķes ser√£o aprofundadas a partir dos seguintes objetivos secund√°rios:

  • Analisar pe√ßas publicit√°rias, identificando os sistemas de classifica√ß√£o que contribuem para o estabelecimento dos modelos culturalmente constru√≠dos em nossa sociedade a respeito da adolesc√™ncia e da juventude.
  • Especificamente com rela√ß√£o √† adolesc√™ncia, privilegiar as quest√Ķes de g√™nero, corpo e identidade, refletindo sobre as formas com que a comunica√ß√£o, tanto jornal√≠stica como publicit√°ria, representa esta fase da vida e investigando se, a partir de seu discurso, produz e reproduz padr√Ķes baseados em valores, cren√ßas e pr√°ticas da cultura considerada “adulta”.
  • Concentrando as discuss√Ķes nas representa√ß√Ķes da juventude, estudar as subculturas a partir do discurso da cultura midi√°tica e analis√°-las comparativamente com resultados de trabalhos de campo que contemplem a observa√ß√£o participante e a etnografia, descrevendo seus diversos aspectos sociais e culturais de sociabilidade, identidade e consumo.

Perspectivas teóricas:

Dentre os diversos aportes te√≥ricos que fundamentam este projeto de pesquisa, destacam-se os mais centrais, quais sejam: a Teoria das Representa√ß√Ķes Sociais, com base nas obras de Serge Moscovici e Stuart Hall); a Sociologia da Juventude, a partir de autores como Edgar Morin, Luis Antonio Groppo e Jon Savage; as teorias sobre subculturas desenvolvidas por pesquisadores dos Estudos Culturais Brit√Ęnicos; a Antropologia do Consumo e a an√°lise da narrativa publicit√°ria, atrav√©s de textos de Everardo Rocha, entre outros.
A pesquisa que aqui se prop√Ķe tem como base, para a constru√ß√£o de seu terreno te√≥rico-metodol√≥gico, as contribui√ß√Ķes destes dois autores, Serge Moscovici, interacionista, e Stuart Hall, construcionista, para a an√°lise das representa√ß√Ķes midi√°ticas da juventude na publicidade.
Edgar Morin, no final dos anos 1960, debru√ßou-se sobre a quest√£o da “cultura juvenil” para compreender o fen√īmeno, ent√£o em fase de consolida√ß√£o, dos meios de comunica√ß√£o de massa. O autor estabeleceu uma rela√ß√£o direta entre um e outro, considerando que a “cultura juvenil” surge no p√≥s-guerra, a partir de produ√ß√Ķes de cinema, televis√£o, r√°dio e m√ļsica dedicadas a este novo p√ļblico, que nasceu, segundo ele, junto com a cultura de massa. Morin apresenta, ent√£o, uma defini√ß√£o para a ideia de juventude: “classe de idade”. Consiste em uma fase da vida biol√≥gica, portanto transit√≥ria, por√©m que abra√ßa um conjunto de valores e pr√°ticas muito espec√≠ficos, determinantes para a unidade de um grupo, ou de uma classe. Como o pr√≥prio soci√≥logo afirma, trata-se de um conceito amb√≠guo, j√° que aponta uma estabilidade (classe) e uma transitoriedade (de idade), mas que define o que seria, segundo ele, “uma realidade s√≥cio-hist√≥rica” .
A ambiguidade do conceito proposto por Morin indica, de antem√£o, a complexidade da no√ß√£o de “juventude”. Luis Antonio Groppo apresenta uma ampla revis√£o liter√°ria a respeito do tema, concentrando-se no campo da Sociologia, mas n√£o sem antes passar pela Psicologia. Para este autor, a juventude √© uma “categoria social”, no sentido de que ultrapassa os limites de uma “classe de idade”, tornando-se, ao mesmo tempo, “representa√ß√£o s√≥cio-cultural e uma situa√ß√£o social”.
Entre outros autores cl√°ssicos que poderiam tamb√©m ter sido aqui evocados, Jon Savage merece destaque, para os fins deste projeto, por publicar uma pesquisa documental bastante abrangente, rica e reveladora sobre o que o autor denomina a “pr√©-hist√≥ria da adolesc√™ncia”. Percorrendo o per√≠odo de 1875 a 1945, portanto aquele que corresponde √† p√≥s-Revolu√ß√£o Industrial e √†s duas Grandes Guerras, Savage¬† busca demonstrar, por meio de registros em di√°rios, mat√©rias de jornais e outros documentos, que haveria uma experi√™ncia adolescente nos relatos de diversos personagens, alguns c√©lebres, como Anne Frank. E, assim, o autor apresenta uma s√©rie de express√Ķes desta proto-adolesc√™ncia atrav√©s de estilos de vida, movimentos sociais, valores, pr√°ticas e consumos, relacionando-os com o contexto s√≥cio-hist√≥rico analisado e com a constru√ß√£o social da ideia de juventude. Alguns exemplos s√£o o naturismo do grupo Wandervolgel e, mais tarde, o nacionalismo dos grupos juvenis na Alemanha; o risco, a aventura e as novas experi√™ncias envolvidas na experi√™ncia das duas guerras mundiais; o uso de drogas, tamb√©m durante este per√≠odo; os “ismos” (cubismo, futurismo, vorticismo); a arte urbana, a m√ļsica popular (jazz); a transgress√£o e a rebeldia presentes em diferentes manifesta√ß√Ķes juvenis, como as melindrosas dos anos 20; a delinqu√™ncia de grupos como os “Apaches”; as subculturas; a liberdade, o americanismo, o consumismo, o hedonismo e o “estado de esp√≠rito” jovem dos “Bright Young People”. A cada exemplo da obra de Savage, √© poss√≠vel remontar √†s origens das representa√ß√Ķes sociais contempor√Ęneas que nos fazem relacionar a no√ß√£o de juventude com valores que, por princ√≠pio, n√£o mereceriam ser naturalizados, mas que o s√£o, por for√ßa da constru√ß√£o social de outros per√≠odos hist√≥ricos e sociais.

A quest√£o das subculturas tamnb√©m √© fundamental para a compreens√£o do aspecto identit√°rio, pol√≠tico e de sociabilidade entre os jovens. Se tomarmos como refer√™ncia os primeiros olhares cient√≠ficos sobre os fen√īmenos juvenis, encontraremos, no Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCI), da Universidade de Birmingham, textos seminais sobre as primeiras incurs√Ķes dos jovens como atores sociais, nos anos 1960 e 1970. Dentre os diversos autores que mereceriam refer√™ncia neste projeto, al√©m de Stuart Hall, apontam-se tr√™s: os de John Clarke, Dick Hebdidge e Paul Hodkinson.

Metodologia:

Pesquisa documental e an√°lise das Representa√ß√Ķes Sociais.
Al√©m de reunir, selecionar, organizar e sistematizar os textos das Ci√™ncias Sociais que tratam da juventude como um objeto de estudo, em suas diversas representa√ß√Ķes midi√°ticas, a pesquisa tamb√©m reunir√°, da mesma forma, an√ļncios publicados desde a d√©cada de 1960 at√© hoje, nos principais jornais e revistas brasileiros, principalmente. Mas tamb√©m pretende-se reunir material de outros pa√≠ses, para que possam ser realizados estudos comparados.
Atrav√©s da an√°lise interpretativa baseada na Teoria das Representa√ß√Ķes Sociais, os an√ļncios ser√£o classificados a partir dos valores sociais que os sustentam, considerando, para tanto, o contexto hist√≥rico, social e cultural em que est√£o inseridos.

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Comunicação e consumo: narrativa publicitária, cultura e sociabilidade
Docente: Prof. Dr. Everardo Rocha

Descrição:

Esse projeto visa desenvolver uma investiga√ß√£o dos significados do consumo e da publicidade como forma de conhecer representa√ß√Ķes, experi√™ncias e pr√°ticas que giram em torno desses fen√īmenos na cultura contempor√Ęnea. A proposta de pesquisa √© tanto identificar, classificar e analisar os valores, comportamentos, identidades e estilos de vida que eles elaboram como estudar os modos pelos quais o consumo e a narrativa publicit√°ria operam distin√ß√Ķes, diferencia√ß√Ķes, semelhan√ßa entre grupos sociais e bens de consumo.

Antecedentes:

Esse projeto expressa a continuidade de um longo trabalho de investiga√ß√£o das rela√ß√Ķes entre comunica√ß√£o, narrativa publicit√°ria e consumo que venho desenvolvendo no Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o do Departamento de Comunica√ß√£o Social da PUC-Rio. Assim, ele tanto deriva quanto se insere numa perspectiva de interpreta√ß√£o da comunica√ß√£o e do consumo cujo eixo central est√°, sobretudo, na investiga√ß√£o das formas pelas quais a narrativa publicit√°ria elabora representa√ß√Ķes, propicia experi√™ncias e institui pr√°ticas sociais que transformam o consumo em um recurso essencial de classifica√ß√£o, identifica√ß√£o, diferencia√ß√£o e distin√ß√£o na cultura contempor√Ęnea.

Os antecedentes dessa pesquisa remontam √† d√©cada de 1980 e desta perspectiva de interpreta√ß√£o da narrativa publicit√°ria e do consumo resultaram, ao longo desses anos, os livros “Magia e capitalismo: um estudo antropol√≥gico da publicidade”; “A sociedade do sonho: comunica√ß√£o, cultura e consumo”; “As representa√ß√Ķes do consumo: estudos sobre a narrativa publicit√°ria”; “Antropologia e comunica√ß√£o: cultura, simbolismo e consumo” e “Juventude e consumo: um estudo sobre a comunica√ß√£o na cultura contempor√Ęnea” (em coautoria com a professora Claudia Pereira), al√©m de in√ļmeros ensaios publicados em revistas acad√™micas e como cap√≠tulos de livros. A viabiliza√ß√£o dessas pesquisas contou sempre com o decisivo apoio do CNPq tanto atrav√©s de sucessivas bolsas de Produtividade em Pesquisa quanto atrav√©s do PIBIC.

Assim, parte substancial de minha produ√ß√£o acad√™mica na qual o presente projeto se insere est√° voltada para pesquisas sobre as representa√ß√Ķes presentes na narrativa publicit√°ria e as pr√°ticas relacionadas ao consumo que, acredito, s√£o quest√Ķes fundamentais para a √°rea da Comunica√ß√£o. A investiga√ß√£o cr√≠tica da publicidade e seu lugar na cultura contempor√Ęnea √© algo fundamental pela imensa riqueza intelectual contida em um tipo de narrativa que produz e sustenta uma fatia substancial dos significados dos bens de consumo, do espa√ßo que possuem em nossas experi√™ncias concretas de vida e do sentido que atribu√≠mos a eles nas pr√°ticas sociais cotidianas. √Č igualmente importante a busca de preencher uma lacuna, pois uma narrativa t√£o poderosa, complexa e t√≠pica do campo da Comunica√ß√£o como a publicidade e experi√™ncias e pr√°ticas t√£o centrais na cultura contempor√Ęnea quanto o consumo, ainda s√£o temas pouco estudadas.

Objetivos:

Esse projeto pretende estudar os principais significados que as narrativas publicit√°rias elaboram, investigando as formas pelas quais elas, ao produzirem sentido p√ļblico e coletivo para os bens de consumo, tamb√©m prescrevem valores e modelam pr√°ticas sociais. Atrav√©s de um complexo conjunto de representa√ß√Ķes, a narrativa publicit√°ria expressa identidades, diferen√ßas, subjetividades, projetos, comportamentos, rela√ß√Ķes, define capitais sociais e oferece um mapa classificat√≥rio central que regula diversas esferas da experi√™ncia social na cultura contempor√Ęnea. Assim, esse projeto visa intensificar, aprofundar, sistematizar e ampliar o estudo da narrativa publicit√°ria, investigando como nela se configura um sistema de valores que informa os comportamentos concretos de grupos sociais em suas experi√™ncias e pr√°ticas de consumo.

Neste projeto, vamos pensar a quest√£o da narrativa publicit√°ria e do consumo em dois planos. Por um lado, como sistema de significa√ß√£o, permitindo descortinar um vasto panorama do imagin√°rio da sociedade contempor√Ęnea. Por outro, como conjunto de experi√™ncias particulares e pr√°ticas concretas que perpassa o cotidiano e codifica os estilos de vida dos diferentes grupos sociais. Tamb√©m, atrav√©s da investiga√ß√£o da publicidade e do consumo buscamos compreender aquilo que no imagin√°rio da sociedade brasileira pode estar no plano global, onde s√£o compartilhadas experi√™ncias culturais contempor√Ęneas, bem como no plano local, onde se define o que nos √© marcadamente singular.

Assim, dentro de uma disposi√ß√£o mais de ampliar a massa cr√≠tica em rela√ß√£o √† comunica√ß√£o, √† publicidade e ao consumo, a pesquisa vai procurar identificar na narrativa publicit√°ria os modos de elabora√ß√£o dos valores culturais que constroem o imagin√°rio, as experi√™ncias e as pr√°ticas de consumo. Para tanto, se colocam as seguintes quest√Ķes e tem√°ticas de estudo

  • Investigar as representa√ß√Ķes da narrativa publicit√°ria e a constru√ß√£o de sistemas de classifica√ß√£o que articulam semelhan√ßas e diferen√ßas entre grupos atrav√©s dos usos sociais dos bens e dos padr√Ķes de consumo;
  • Analisar as principais representa√ß√Ķes acionadas pela narrativa publicit√°ria, em particular aquelas relacionadas √†s quest√Ķes de g√™nero, gera√ß√£o, diferen√ßa cultural e etnocentrismo;
  • Avaliar as formas pelas quais os bens de consumo podem traduzir uma estrutura√ß√£o das identidades sociais, atuando como for√ßa cultural na forma√ß√£o da vis√£o de mundo dos diferentes grupos;
  • Investigar a narrativa publicit√°ria como exerc√≠cio do poder atrav√©s das representa√ß√Ķes ideol√≥gicas que marcam o universo das pr√°ticas, o capital social e as distin√ß√Ķes de gosto;
  • Analisar as formas pelas quais a publicidade elabora identidades sociais a partir de marcas, grifes, objetos e bens de consumo e entender seu papel na superposi√ß√£o entre as identidades de cidad√£o e de consumidor;
  • Estudar o consumo e a narrativa publicit√°ria no quadro do novo modelo de produ√ß√£o econ√īmica da modernidade e como operador de novas experi√™ncias de sensibilidades, identidades culturais e modos de sociabilidade;
  • Investigar a narrativa publicit√°ria e a experi√™ncia do consumo e suas rela√ß√Ķes, tanto l√≥gicas quanto hist√≥ricas, com o entretenimento na cultura moderno-contempor√Ęnea;
  • Analisar o consumo como espa√ßo de disputa, negocia√ß√£o e tens√£o entre experi√™ncia individual e identidade coletiva e entre perspectivas globais e realidades locais;

Perspectivas teóricas:

Esses temas de pesquisa s√£o desafios colocados ao estudo da narrativa publicit√°ria, do fen√īmeno do consumo e do universo cultural que os sustenta. S√£o tamb√©m quest√Ķes que re√ļnem a investiga√ß√£o da publicidade e do consumo com a tradi√ß√£o dos estudos das ideologias, representa√ß√Ķes e sistemas simb√≥licos. Assim, este projeto vai procurar descrever, classificar, sistematizar e interpretar os significados da narrativa publicit√°ria e sua tradu√ß√£o nas experi√™ncias e pr√°ticas do consumo, tendo como meta entender a sua l√≥gica e seu modo de opera√ß√£o na cultura contempor√Ęnea - e na experi√™ncia brasileira em especial - atrav√©s das possibilidades oferecidas pela converg√™ncia de diferentes tradi√ß√Ķes intelectuais.

O consumo e o dispositivo publicit√°rio que lhe d√° voz s√£o fatos sociais, coletivos e p√ļblicos, que se inscrevem l√≥gica e historicamente em nossa cultura. Portanto, a devida aten√ß√£o √† tem√°tica do revestimento cultural desses fen√īmenos indica uma inst√Ęncia de maior abrang√™ncia cuja an√°lise pode encontrar sustenta√ß√£o consistente na tradi√ß√£o da Comunica√ß√£o e demais Ci√™ncias Sociais em an√°lise de sistemas simb√≥licos. O que √© constitutivo da publicidade como narrativa e do consumo como pr√°tica - as marcas, produtos, servi√ßos, mercados, compras, escolhas, atitudes, decis√Ķes, etc. - faz parte de um universo de trocas simb√≥licas que acontecem entre atores sociais no palco da cultura. Publicidade e consumo s√£o, entre outras coisas, processos de comunica√ß√£o e classifica√ß√£o de pessoas e objetos.

O projeto, portanto, considera o estudo da narrativa publicit√°ria e do consumo como refer√™ncias centrais para uma interpreta√ß√£o da cultura contempor√Ęnea. As representa√ß√Ķes, experi√™ncias e pr√°ticas que esses fen√īmenos acionam definem uma inst√Ęncia de inven√ß√£o de categorias ordenadoras da cultura em nosso tempo, expressando princ√≠pios, ideais, sensibilidades, estilos, identidades sociais e projetos coletivos. A publicidade e o consumo espelham, com exata adequa√ß√£o, certo “esp√≠rito do tempo”, uma face bem definida da sociedade na qual vivemos. N√£o √© por acaso que a experi√™ncia contempor√Ęnea se traduz no que chamam “sociedade de consumo”.

A complexidade e a riqueza intelectual das quest√Ķes a√≠ implicadas indicam que estud√°-las traduz um esfor√ßo intelectual significativo para atender uma efetiva demanda produzida pela cultura contempor√Ęnea. Em certo sentido, compreender a sociedade contempor√Ęnea passa pela compreens√£o de algumas das quest√Ķes que se inscrevem na pesquisa dos dispositivos publicit√°rios e das experi√™ncias de consumo. Conhecer o poderoso sistema de representa√ß√Ķes sustentado pela narrativa publicit√°ria e pelas pr√°ticas de consumo √© uma chave para a compreens√£o profunda das transforma√ß√Ķes sociais que fundaram a chamada modernidade.

Estudar o consumo atrav√©s do contexto simb√≥lico no qual ele est√° inserido √© investir na tradi√ß√£o acad√™mica que pensa a modernidade para al√©m da vis√£o predominantemente utilit√°ria. A compreens√£o da sociedade moderno-contempor√Ęnea teve no pensamento econ√īmico - e na categoria “produ√ß√£o”, em especial - a sua chave explicativa b√°sica. O consumo foi relegado a um mero reflexo, uma esp√©cie de efeito secund√°rio da produ√ß√£o, dentro de uma vis√£o racionalista e utilit√°ria, dominada pela chamada “raz√£o pr√°tica” (Sahlins, 1979).

√Č no sentido de realizar um debate intelectual capaz de ampliar essa interpreta√ß√£o da cultura moderno-contempor√Ęnea que √© necess√°rio estudar estes sistemas simb√≥licos - consumo e narrativa publicit√°ria - como oportunidade privilegiada para entender muitos dos significados da mentalidade contempor√Ęnea e, tamb√©m, da experi√™ncia brasileira (DaMatta, 1985). Algumas possibilidades promissoras deste estudo passam por uma d√©marche que assuma a narrativa publicit√°ria e o consumo como c√≥digos culturais capazes de expressar uma complexa pluralidade de mensagens, disponibilizar um amplo conjunto de experi√™ncias e mapear uma parte substancial das pr√°ticas cotidianas. Assim, nossa refer√™ncia para realizar essa pesquisa est√° na tradi√ß√£o das an√°lises de sistemas simb√≥licos que balizam um espa√ßo te√≥rico seguro composto de materiais cl√°ssicos na literatura da Comunica√ß√£o e das Ci√™ncias Sociais.

Metodologia:

Para realizar esta investiga√ß√£o, o projeto vai privilegiar m√©todos de pesquisa qualitativos e, em particular, a etnografia. O m√©todo etnogr√°fico pode ser caracterizado como capta√ß√£o e interpreta√ß√£o de valores e pr√°ticas socialmente experimentadas, atrav√©s de uma √™nfase na explora√ß√£o de fen√īmenos particulares; na perspectiva microsc√≥pica; nas entrevistas em profundidade; na an√°lise do discurso de informantes; na investiga√ß√£o em detalhe; na observa√ß√£o participante; na decodifica√ß√£o de representa√ß√Ķes. A etnografia busca, para utilizar a consagrada express√£o de Clifford Geertz, realizar uma “descri√ß√£o densa” da experi√™ncia cultural (Geertz, 1978) sendo o conhecimento cient√≠fico gerado, em certo sentido, pela vis√£o interna de um fen√īmeno obtida a partir do ponto de vista “nativo”. Para al√©m do contexto “cl√°ssico” do qual nasceu, a etnografia consolidou uma tradi√ß√£o de estudo de sistemas culturais de grupos urbanos, abrindo espa√ßo para a an√°lise de fen√īmenos como publicidade e o consumo - suas representa√ß√Ķes e suas pr√°ticas.

Este projeto visa, portanto, pesquisar representa√ß√Ķes, estilos e valores expressos na narrativa publicit√°ria e, efetivamente, experimentados nas pr√°ticas de consumo dos atores sociais. Utilizar a etnografia como m√©todo de pesquisa quer dizer estudar as categorias que norteiam o pensamento e as pr√°ticas de grupos sociais concretos, historicamente datados, dotados de fronteiras culturais n√≠tidas e caracter√≠sticas comuns de experi√™ncia. A primeira quest√£o tipicamente etnogr√°fica √©, portanto, configurar um grupo como conjunto de atores sociais que compartilham certa homogeneidade de pensamento, que trocam experi√™ncias, que possuam ethos, vis√Ķes de mundo, pr√°ticas e estilos de vida capazes de permitir a constru√ß√£o de unidades sociol√≥gicas significativas.

Definir fronteiras que estabele√ßam uma esp√©cie de territorialidade simb√≥lica √© parte do cuidado etnogr√°fico com o qual se pretende conduzir a pesquisa. Por isso, o projeto procurar√° captar a vis√£o que os grupos sociais possuem dos significados dos an√ļncios publicit√°rios e do consumo, entendendo o peso relativo destes fen√īmenos em suas vidas. Etnografias s√£o estudos concretos e pontuais, que pretendem conhecer os fen√īmenos a partir das percep√ß√Ķes de grupos e, assim, entender como eles concebem e praticam suas experi√™ncias de vida. O esfor√ßo de ouvir o outro, a perspectiva microsc√≥pica e a busca de relativiza√ß√£o que isto implica s√£o marcas pr√≥prias do projeto etnogr√°fico. Nesse sentido, √© nosso prop√≥sito tamb√©m examinar os limites e possibilidades da etnografia como instrumento de pesquisa em Comunica√ß√£o, analisando os significados das representa√ß√Ķes publicit√°rias e das pr√°ticas sociais de consumo.

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Representa√ß√Ķes sociais do corpo e da morte na cultura midi√°tica.
Docente: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues

Descrição:

Estudar a constru√ß√£o de imagens e representa√ß√Ķes do corpo e da morte pelos meios de comunica√ß√£o e investigar as pr√°ticas corporais suscitadas pela cultura midi√°tica.

Antecedentes:

Este projeto procura dar continuidade aos trabalhos de investiga√ß√£o que, com o apoio de institui√ß√Ķes como CNPq, Funda√ß√£o Ford, ANPOCS, BNDES e Faperj, o pesquisador respons√°vel vem desenvolvendo, desde os anos setenta, sobre sistemas sociais de classifica√ß√£o do corpo e sobre representa√ß√Ķes sociais do corpo e da morte na sociedade industrial. Tais trabalhos prosseguiram, a partir de 1982, versando sobre reconstitui√ß√£o das cren√ßas e pr√°ticas associadas ao corpo e √† morte no Rio de Janeiro, sempre com o apoio do CNPq. Tais estudos resultaram nos livros Tabu do Corpo (1979) e Tabu da Morte (1983). Posteriormente, materializando o desenvolvimento do trabalho a que o presente Projeto diz respeito, resultaram os livros Ensaios em Antropologia do Poder (1992), Higiene e Ilus√£o (1995), O Corpo na Hist√≥ria (1999) e Comunica√ß√£o e significado (2006).

Objetivo:

A pesquisa volta-se para a an√°lise dos significados contempor√Ęneos do corpo e da morte, conforme se materializam em t√≥picos como sa√ļde, higiene, bem-estar, juventude, beleza, viol√™ncia, risco, velhice, doen√ßa, lixo... √Č ponto central da investiga√ß√£o considerar o modo pelo qual estes t√≥picos espec√≠ficos v√™m sendo afetados por fen√īmenos caracter√≠sticos da sociedade industrial-capitalista, tais como trabalho, previd√™ncia, tempo livre, moda, consumo, mercantiliza√ß√£o, globaliza√ß√£o, subjetiva√ß√£o, espetaculariza√ß√£o, massifica√ß√£o e individualiza√ß√£o.

Entre os objetivos desse projeto figura o desenvolvimento de trabalhos que se proponham a aprofundar a investiga√ß√£o do problema das representa√ß√Ķes sociais do corpo e da morte e de o compreender em fun√ß√£o da realidade brasileira.

Perspectivas teóricas:

A hip√≥tese geral da pesquisa √© a de que o desenvolvimento da sociedade industrial vem progressivamente liberando os corpos de serem os produtores do sistema socioecon√īmico (“corpos-ferramentas”) e os obrigando a assumir um novo papel, o de reprodutores da ordem social e pol√≠tica (“corpos-consumidores”). A hip√≥tese espec√≠fica √© a de que os meios de comunica√ß√£o desempenham papel fundamental neste processo, na medida em que definem, prop√Ķem e, mesmo, imp√Ķem novos padr√Ķes de sa√ļde, higiene, beleza e bem-estar. Por outro lado, as representa√ß√Ķes do corpo vigorantes na sociedade industrial, capitalista, de consumo e individualista raramente reservam um espa√ßo confort√°vel para a morte, cuja explicita√ß√£o se torna tabu e cujos ritos tendem a se disfar√ßar nos bastidores da vida coletiva.

As exce√ß√Ķes a esta regra geral tamb√©m merecem aten√ß√Ķes te√≥ricas e conceituais. A morte silenciada dos cotidianos ‚Äď que foi constatada quase unanimemente pelos soci√≥logos e historiadores da morte no Ocidente - com frequ√™ncia aparece de modo quase publicit√°rio e espetacularizado nos meios de comunica√ß√£o. Isto se d√° especialmente por ocasi√£o de cat√°strofes naturais, de acidentes de grandes propor√ß√Ķes, ou de morte de pessoas c√©lebres. Nesses termos, a espetaculariza√ß√£o da morte pode ent√£o estar apontando para uma nova dire√ß√£o dos ritos f√ļnebres? Os meios de comunica√ß√£o de massa, sobretudo os eletr√īnicos, podem estar tornando a morte mais p√ļblica? Podem estar propiciando uma rela√ß√£o mais face a face com esta? H√° ainda outra quest√£o emp√≠rica de grande import√Ęncia a ser estudada: a espetaculariza√ß√£o dos funerais de pessoas comuns. Que dizer desses rituais, que aparentemente come√ßam a se difundir, que transformam as antigas e vetustas solenidades f√ļnebres estritamente familiares em quase shows produzidos e geridos por empresas?

O recorte emp√≠rico fundamental da pesquisa procurar√° averiguar a presen√ßa do corpo e da morte nos meios de comunica√ß√£o, colocando em evid√™ncia os valores que lhes s√£o atribu√≠dos, as suas frequ√™ncias e as suas tipologias em ve√≠culos como jornais, revistas, televis√£o, cinema, r√°dio e internet. A pesquisa dar√° √™nfase particular √† analise de pe√ßas publicit√°rias associadas ao corpo e √† morte (raras, por√©m muito expressivas), especialmente √†quelas que apresentam um valor que a experi√™ncia do pesquisador sup√Ķe ser estrat√©gico, como os an√ļncios e campanhas que versam, entre outros, sobre seguros de vida, promo√ß√£o da sa√ļde, seguran√ßa do trabalho, preven√ß√£o de doen√ßas letais, aposentadorias privadas, campanhas de vacina√ß√£o, evita√ß√£o de DSTs, etc.

Um trabalho dessa natureza, conjugando representa√ß√Ķes do corpo e da morte, tem uma virtude, propositalmente procurada: t√£o relevante quanto estudar aquilo que uma sociedade quer ser √© estudar aquilo que ela n√£o quer ser, pois frequentemente, por suas facetas negativas, as sociedades mostram aquilo que escondem em seus lados positivos. No caso espec√≠fico da morte, esta propriedade se demonstra ostensivamente, uma vez que as cren√ßas e pr√°ticas associadas √† morte, em toda sociedade, se ligam intimamente aos modos de vida e √†s atitudes diante da exist√™ncia, afetando diretamente as concep√ß√Ķes e pr√°ticas corporais.

Ao lado dos estudos desenvolvidos pelos te√≥ricos da comunica√ß√£o relativos ao entendimento do fen√īmeno midi√°tico, o presente projeto reserva um lugar importante para conceitos, teorias e conhecimentos desenvolvidos no campo antropol√≥gico e que se revelaram bastante apropriados para o estudo da significa√ß√£o, dos dramas sociais, dos sistemas mitol√≥gicos e rituais. Especialmente, para abordar o tema do corpo e da morte na cultura midi√°tica o desenvolvimento deste projeto servir-se-√° de conceitos e teorias destinados ao entendimento das pr√°ticas corporais, dos ritos f√ļnebres, das cren√ßas e concep√ß√Ķes sobre o ap√≥s a morte. Trata-se, por exemplo, de trabalhos como os de Van Gennep, Victor Turner, Leach, L√©vi-Strauss, Radcliffe-Brown, Mary Douglas, Louis-Vincent Thomas, entre outros.

Metodologia:

Uma determina√ß√£o r√≠gida dos m√©todos de trabalho poder√° certamente conter erros. N√£o obstante, o enfoque te√≥rico adotado sugere algumas "opera√ß√Ķes" cuja realiza√ß√£o poder√° ser promissora no que diz respeito ao fornecimento de dados relevantes para a presente pesquisa. Sem ordem de prioridade, pode-se mencionar os seguintes "focos" de trabalho, observando, entretanto, que a experi√™ncia j√° aprendeu que estes focos n√£o fornecem materiais homog√™neos:

  • Imagens: pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, filmes, imagens de TV e de publicidade, etc. que, incidindo direta ou indiretamente sobre o tema da pesquisa, relatem ou permitam inferir fatos associados, por exemplo, √†s pr√°ticas corporais, √†s cenas do morrer, aos ritos corporais e f√ļnebres, √†s paisagens cemiteriais e tamb√©m aos cen√°rios dos corpos (parques, praias, esportes, etc.), √†s concep√ß√Ķes sobre o al√©m e sobre a materialidade corporal... Tais imagens poder√£o ser objeto de an√°lise semiol√≥gica, simb√≥lico-estrutural ou de conte√ļdo.
  • Jornais: a leitura de jornais de √©pocas distintas poder√° fornecer material farto a uma pesquisa sobre corpo e morte na cultura midi√°tica, se nela forem considerados, por exemplo, os an√ļncios f√ļnebres, de rem√©dios, de cl√≠nicas, de tratamentos de doen√ßas, de academias de gin√°stica, de dietas, as coberturas dos funerais de pessoas "importantes", as reportagens sobre doen√ßas letais, crimes e acidentes... Semelhante material costuma se prestar bem √† an√°lise quantitativa de conte√ļdo.
  • Literatura: os romances frequentemente fazem a etnografia dos costumes da √©poca em que foram escritos ou em que se desenvolveram as a√ß√Ķes que relatam; documentos liter√°rios poder√£o vir a fornecer relatos sobre como eram/s√£o as pr√°ticas e representa√ß√Ķes do corpo, as express√Ķes corporais, os modos de trajar, como se morria/morre nas diferentes √©pocas, como se vivia/vive a agonia, como se comunica(va) o advento da morte √† coletividade, como eram/s√£o os ritos funer√°rios, as etiquetas das condol√™ncias e do luto, como se dava ou d√° a reorganiza√ß√£o das rela√ß√Ķes sociais...
  • Arquivos: poder√£o ser consultados arquivos de tribunais, de cart√≥rios, de institui√ß√Ķes policiais, de institui√ß√Ķes religiosas (par√≥quias, semin√°rios, conventos...), de institui√ß√Ķes ligadas √† morte e ao corpo (necrot√©rios, cemit√©rios, santas-casas... mas tamb√©m academias, clubes, escolas de medicina, de enfermagem), arquivos de jornais e de emissoras de televis√£o.
  • Visitas e observa√ß√£o direta: poder√£o ser prof√≠cuas as visitas a institui√ß√Ķes direta ou indiretamente associadas ao corpo e √† morte. Penso, por exemplo, em fortifica√ß√Ķes, pres√≠dios e cadeias, igrejas e conventos, cemit√©rios para humanos e para animais dom√©sticos, necrot√©rios, asilos e hospitais; tamb√©m em academias, hospitais, cl√≠nicas de cirurgia pl√°stica, de tratamento de disfun√ß√£o er√©til...

Para investigar as representa√ß√Ķes do corpo na cultura dos meios de comunica√ß√£o, o projeto utilizar√° prioritariamente o m√©todo etnogr√°fico. Isto √©, sempre que poss√≠vel, o projeto dar√° √™nfase √† observa√ß√£o participante, √†s entrevistas em profundidade e √† an√°lise dos discursos espont√Ęneos dos informantes, dos produtores e dos destinat√°rios das representa√ß√Ķes.

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Jo√£o do Rio e as representa√ß√Ķes da cidade:
    o artista, o rep√≥rter e o artif√≠cio
Docente: Prof. Dr. Renato Cordeiro Gomes

Descrição:

Minimizada at√© pouco tempo, a obra de Jo√£o do Rio, em sua maioria produzida para a imprensa, vem ganhando aten√ß√£o nos √ļltimos dez anos, depois do decl√≠nio das narrativas de ruptura. Grande parte dessa obra, ainda n√£o foi resgatada dos jornais e revistas. Este projeto procura resgat√°-la, edit√°-la e estud√°-la. Como profissional de imprensa, Jo√£o do Rio, pseud√īnimo de Paulo Barreto, trabalha numa simbiose de documental e ficcional, com a consci√™ncia do dilema do artista na modernidade frente √† sua autonomia/individualidade e ao mercado. Realiza as tens√Ķes entre o jornalista e o artista, que lan√ßa m√£o do artif√≠cio, para representar-se na sociedade e escrever, em suas pr√≥prias palavras, "o reflexo tumultu√°rio das transforma√ß√Ķes da vida do Rio de Janeiro". Por esse vi√©s, tra√ßa seu projeto mais ousado: a formula√ß√£o de uma psicologia urbana, que fecunda o imagin√°rio carioca, √† medida que enfrenta a problem√°tica legibilidade da cidade que se modernizava, e que ele registra em suas cr√īnicas e reportagens, que, rigorosamente selecionadas e organizadas, foram publicadas em livros, revelando que essa outra materialidade acarreta altera√ß√Ķes na constru√ß√£o da narratividade e da significa√ß√£o, ao mesmo tempo em que explora a ret√≥rica do moderno, que se implantava no Brasil, em especial, no Rio de Janeiro. Objetiva-se resgatar, em fontes prim√°rias (Gazeta de Not√≠cias, O Paiz, Kosmos, Ilustra√ß√£o Brazileira, Cidade do Rio,entre outras) na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, parte da produ√ß√£o de Jo√£o do Rio, recuperando os t√≠tulos originais das colunas e s√©ries, verificando as implica√ß√Ķes na produ√ß√£o de sentido a mudan√ßa de suporte material (do jornal e revista para o livro) e estudando a√≠ as representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro.

Antecedentes:

Para melhor contextualizar o presente projeto, é necessário situá-lo na série histórica dos projetos anteriores, que vêm recebendo, sem interrupção, o patrocínio de CNPq, desde 1994, de que sou pesquisador 1B, de Produtividade em Pesquisa.

Do primeiro projeto dessa s√©rie, “A leitura da cidade moderna e o Rio de Janeiro”, resultou o livro Todas as cidades, a cidade (2 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2008). Buscou-se a√≠ ler textos que liam a cidade, para construir um modelo te√≥rico (n√£o r√≠gido e sempre provis√≥rio) para a leitura da cidade moderna. Adotando uma perspectiva multidisciplinar, com √™nfase nas representa√ß√Ķes midi√°ticas e liter√°rias, elegeram-se, estrategicamente, textos respons√°veis pelo olhar prism√°tico sobre a biblioteca da cidade moderna, para depreender-se a legibilidade da cidade que se foi tornando ileg√≠vel. O quadro te√≥rico constru√≠do serviu de embasamento para a leitura do Rio de Janeiro representado e dramatizado em textos narrativos do s√©culo XX, estrategicamente selecionados.

Esse ponto de partida motivou desdobramentos em projetos subsequentes que tiveram como centro, ou mesmo linha articuladora entre eles, a representa√ß√£o da cidade moderna e suas derivas p√≥s-modernas, em especial o Rio de Janeiro, mas n√£o restringindo a essa metr√≥pole, sobretudo no projeto (bi√™nio 1998-2000) Grafias urbanas: representa√ß√Ķes da cidade na narrativa brasileira dos anos 1980 e 1990. Buscou-se verificar como a cidade, num contexto de globaliza√ß√£o e cada vez mais rarefeita enquanto presen√ßa encorpada nas narrativas, √© representada em sua diversidade.

O projeto seguinte (2000-2003), Cidade e na√ß√£o: representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro no in√≠cio e no final do s√©culo XX ‚Äď uma guerra de relatos, buscou aprofundar essas quest√Ķes, estudando a tematiza√ß√£o e as representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro em duas viradas do s√©culo, para isso conjugando “cidade e na√ß√£o”. Se no in√≠cio do s√©culo XX havia um projeto de na√ß√£o em que se impunha a constru√ß√£o de uma “alegoria nacional”, que, a partir do Rio de Janeiro, apontava para o futuro, o fim do s√©culo, numa √©poca p√≥s-ut√≥pica, aponta para o esgar√ßamento dessa alegoria. Por outro lado, frente √† globaliza√ß√£o econ√īmica e cultural, volta-se a repensar a na√ß√£o n√£o mais como um todo unit√°rio e homog√™neo, e j√° n√£o se pensa a identidade cultural, agora m√ļltipla e fragmentada. Da perspectiva te√≥rico-cr√≠tica aberta pela investiga√ß√£o, derivou-se um outro projeto Imagens e representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro no in√≠cio e no final do s√©culo XX, inserido na linha de pesquisa “Comunica√ß√£o e representa√ß√Ķes sociais”, do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o Social da PUC-Rio.

O projeto para o tri√™nio 2003 - 2006, O livro de registro da cidade: m√≠dia, literatura e experi√™ncia urbana, prop√īs uma esp√©cie de s√≠ntese-balan√ßo que pudesse viabilizar uma esp√©cie de coroamento dos projetos anteriores e possibilitasse, ao mesmo tempo, aprofundamento da investiga√ß√£o para verificar como as abordagens te√≥rico-cr√≠ticas da cultura das m√≠dias e da literatura configuram a quest√£o da representa√ß√£o e da legibilidade da cidade moderna e suas derivas p√≥s-modernas. A cidade caracteriza-se como arena cultural, espa√ßo dos embates das m√ļltiplas culturas urbanas. Discutiram-se os efeitos e as pot√™ncias da vida nas grandes cidades na produ√ß√£o midi√°tica, art√≠stica e liter√°ria, atestando ser a cidade algo que produz sentidos ‚Äď um sistema de representa√ß√£o cultural, que se conecta a tra√ßos da vida contempor√Ęnea, tais como o deslocamento, o desenraizamento, a fragmenta√ß√£o, a desterritorializa√ß√£o. Esse quadro atrela-se a um tempo marcado pela intensifica√ß√£o dos fluxos comunicacionais, pela globaliza√ß√£o, e contraditoriamente pelo acirramento da no√ß√£o de local, pela crise do Estado-na√ß√£o que afeta a cl√°ssica defini√ß√£o s√≥cio-espacial de identidade, referida a um territ√≥rio particular.

Tais aspectos permitiram articular a pesquisa √† quest√£o da legibilidade da cidade, que funcionou como fio articulador das pesquisas, aqui sintetizadas. Revelou, ainda, a necessidade do car√°ter multidisciplinar na abordagem do fen√īmeno urbano, para enfatizar o papel das m√≠dias e da literatura na (re)articula√ß√£o permanente do imagin√°rio urbano.

Esta s√©rie de investiga√ß√Ķes coerente e articulada forneceu um lastro para a proposta do projeto para o per√≠odo 2006-2010, proposta renovada, pela extens√£o do corpus, com bolsa de Produtividade em Pesquisa para o per√≠odo 2010-2014 e que¬† trouxe para o centro das preocupa√ß√Ķes um objeto at√© certo ponto recessivo em pesquisas anteriores. Refiro-me √† obra de Jo√£o do Rio, que vem sendo objeto de minhas reflex√Ķes, mas sobretudo a partir da prepara√ß√£o do volume sobre o autor para a “Cole√ß√£o Perfis do Rio”, publicado em 1996.

Essas revisita√ß√Ķes levaram-me a constatar certos fatos que dificultam o acesso aos textos do autor: (a) dos seus 26 livros publicados (um deles p√≥stumo), poucos foram republicados nas duas √ļltimas d√©cadas (alguns, hoje, de dif√≠cil acesso), al√©m de algumas colet√Ęneas (desde a pioneira Jo√£o do Rio: uma antologia, de 1971, com a qual seu organizador, Lu√≠s Martins, ensaiou um resgate do autor; at√© o volume Jo√£o do Rio por Renato Cordeiro Gomes (2005), que organizei e escrevi um estudo introdut√≥rio, para a Cole√ß√£o “Nossos Cl√°ssicos”, retomada pela Ed. Agir; (b) poucas bibliotecas no pa√≠s possuem em seus acervos todas as obras publicadas em livro do autor, destacando-se o Real Gabinete Portugu√™s de Leitura, do Rio de Janeiro, herdeira da biblioteca de Jo√£o do Rio; (c) parte significativa dos seus textos ainda est√£o nos jornais e revistas ilustradas em que colaborou, dispon√≠veis (muitas vezes em estado prec√°rio) no acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Essas constata√ß√Ķes juntam-se ao fato do interesse que a obra de Jo√£o do Rio vem despertando a partir dos anos 80, mas sobretudo nos de 1990.

Objetivos:

Os objetivos desta pesquisa consistem, numa primeira inst√Ęncia, o resgate em fontes prim√°rias de cr√īnicas de Jo√£o do Rio, o que implica consultas na Biblioteca Nacional. As fontes selecionadas foram os peri√≥dicos: (a) o jornal Gazeta de Not√≠cias, o mais importante peri√≥dico da √©poca no qual Jo√£o do Rio escreveu de 1903 a 1915, e chegou a redator chefe, publicando uma infinidade de colunas e s√©ries, textos de v√£o de cr√īnicas a contos, enquetes, reportagens, resenhas de livros, coment√°rios pol√≠ticos, relatos de viagens, tradu√ß√Ķes, folhetins...¬† Interessa, aqui, selecionar essencialmente cr√īnicas e reportagens que tratam das representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro, em especial a coluna “A cidade (07/09/1903, a primeira colabora√ß√£o de Paulo Barreto na Gazeta de Not√≠cias, assinando com um X., a 20/03/1904), as s√©ries “A pobre gente” (1904), que trata das figura√ß√Ķes da mis√©ria no Rio de Janeiro, e “A vida na cidade” (de 21/12/1906 a 15/02/1907), a coluna “Cinematographo”, assinada por Joe (11/08/1907 a 19/12/1910), que deu origem ao livro hom√īnimo; (b) O Paiz, outro importante jornal carioca para onde Paulo Barreto se transferiu em 1915 e colaborou at√© 1920: aqui, elege-se a coluna “Pall-Mall Rio” (23/09/1915 a 04/10/1917), de Jos√© Ant√īnio Jos√©, que deu origem ao livro hom√īnimo, em que seleciona as cr√īnicas que comp√Ķem uma esp√©cie de “revista de uma esta√ß√£o”, o inverno carioca de 1916, pela anota√ß√£o da vida elegante dos “encantadores”, que freq√ľentam essa coluna social; (c) Kosmos, a sofisticada revista criada em 1904, que, como s√≠mbolo das reformas modernizantes de Pereira Passos, divulgava as no√ß√Ķes de progresso e buscava ganhar a opini√£o p√ļblica das elites para essas mudan√ßas que queriam mostrar que o Rio se civilizava, sob o signo do cosmopolitismo. A√≠. Jo√£o do Rio publicou, entre 1904 e 1906, cr√īnicas e reportagens; (d) A Ilustra√ß√£o Brazileira, revista em que colaborou de 14/06/1914 a 01/11/14, em que adota o Rio de Janeiro como ponto de observa√ß√£o da cidade, do pa√≠s e do mundo. O trabalho com essas cr√īnicas que privilegiam as representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro implicar√° a transcri√ß√£o, atualiza√ß√£o da ortografia, tendo o cuidado de preservar as palavras estrangeiras, marcas de √©poca e do estilo de Jo√£o do Rio. √Č necess√°rio tamb√©m elaborar notas informativas, culturais e contextuais.

Objetiva-se com essa recolha resgatar os t√≠tulos originais das colunas e s√©ries, reagrupando as cr√īnicas nas se√ß√Ķes originais, distribuindo-as pela cronologia rigorosa. Por outro lado, a investiga√ß√£o exige, ainda, o cotejo com as que foram reeditadas em livro (boa parte delas √© ainda in√©dita nesse suporte). √Č de extrema relev√Ęncia estudar a organiza√ß√£o desses livros de cr√īnicas (em especial A alma encantadora das ruas, 1908, que inclui textos da revista Kosmos e das s√©ries “A vida na cidade” e “A pobre gente”; e Cinematographo,1911,e Pall-Mall Rio, 1916, que rearranjam as cr√īnicas das colunas hom√īnimas), para estudar a passagem do jornal ao livro, verificando o que implica essa mudan√ßa do suporte material, em fun√ß√£o da produ√ß√£o de sentido na representa√ß√£o do Rio de Janeiro, certamente o personagem mais encorpado desses textos.

Este objetivo implica ampliar a pesquisa te√≥rica que atualize as diversas abordagens sobre a representa√ß√£o da cidade moderna e, em especial, do Rio de Janeiro, tema privilegiado na obra de Jo√£o do Rio. Esta acurada investiga√ß√£o possibilitar√° uma revis√£o e amplia√ß√£o da bibliografia sobre m√≠dia e experi√™ncia urbana, que contemple os m√ļltiplos aspectos que a quest√£o requer, a exemplo da comunica√ß√£o como via de acesso ao urbano, ou das representa√ß√Ķes da cidade na cultura midi√°tica. √Č imperativo, portanto, essa investiga√ß√£o te√≥rica que conta, hoje, com uma rica bibliografia, que, em perspectiva transdisciplinar e multicultural, se abre para outros campos do saber com os quais os estudos de m√≠dia podem estabelecer fecundo di√°logo. Nesta √≥tica, objetiva-se estabelecer, quanto √† representa√ß√£o da cidade, as rela√ß√Ķes entre m√≠dia, literatura e outras artes e o universo mais amplo da cultura, com destaque para as representa√ß√Ķes da cidade mediadas pela imprensa, de que se valeu Jo√£o do Rio.

Perspectivas teóricas:

Jo√£o do Rio achava, como declarou, que sua obra s√≥ poderia ser vista, em conjunto, “dentro de dez anos. A√≠ ver√£o, talvez, que eu tentei ser o reflexo tumultu√°rio de transforma√ß√Ķes e que, nos meus livros, n√£o est√° a obra-prima, mas em todos os aspectos morais, mentais, pol√≠ticos, sociais, mundanos, ideol√≥gicos, pr√°ticos - a vida do Rio...”

Com toda certeza, ele acertou quanto √† vis√£o de conjunto de sua prol√≠fera obra, mas errou quanto ao tempo para que sua produ√ß√£o m√ļltipla pudesse ser avaliada. A fiar nos n√ļmeros observados em edi√ß√Ķes de seus livros, pode-se dizer que ele foi um best-seller de seu tempo, al√©m de ter um expressivo p√ļblico de leitores de seus textos (cr√īnicas, contos etc) publicados na imprensa. Sua obra, por√©m, foi sendo praticamente esquecida, sem reedi√ß√Ķes, minimizada em nossa historiografia da imprensa e da literatura. Ra√ļl Antelo levanta a hip√≥tese de que tenha sido imprescind√≠vel o decl√≠nio das narrativas de ruptura para avaliarmos que sua obra contribuiu decisivamente a abrir janelas na modernidade brasileira.¬† De fato, o tratamento que a obra de Jo√£o do Rio recebeu da cr√≠tica e historiografia, at√© os anos 1980, com as exce√ß√Ķes de praxe, desconsiderava seus aspectos modernos e significativos para a an√°lise do projeto republicano e na inser√ß√£o compuls√≥ria do Brasil na Belle √Čpoque (a express√£o √© de Sevcenko (1983), embora, algumas vezes, elogiavam-se os dotes invulgares do jornalista que reformou a imprensa brasileira, arejando-a e movimentando-a, bem como o cronista √°gil e sagaz, ou o valor de algum conto. Contribuiu para o julgamento negativo o n√£o-enquadramento da produ√ß√£o de Jo√£o do Rio nos preceitos que se tornaram os c√Ęnones oficiais do Modernismo brasileiro (visto em sua vers√£o paulista dado como hegem√īnica, como matriz), padr√£o que serviu de paradigma para julgamento de obras e autores que precederam o movimento inaugurado em 1922, sob os par√Ęmetros das vanguardas e da ruptura. Somente nos anos 1980, motivadas pelos renovados estudos hist√≥ricos da Rep√ļblica Velha, come√ßaram as revis√Ķes do per√≠odo com as pesquisas sobre o Pr√©-modernismo (com destaque para o grupo da Funda√ß√£o Casa de Rui Barbosa), que matizaram o per√≠odo, resgatando autores at√© ent√£o relegados ao limbo do esquecimento, como ainda puseram em xeque a falta de crit√©rios sistem√°ticos e consistentes no estudo desses autores, entre os quais se destaca Jo√£o do Rio. Al√©m disso, uma outra visada te√≥rico-metodol√≥gica permitiu novas abordagens do per√≠odo, ao considerar a produ√ß√£o discursiva do per√≠odo em suas rela√ß√Ķes com outras produ√ß√Ķes culturais.

Justifica-se, assim, dar continuidade ao resgate de parte significativa da produ√ß√£o de Jo√£o do Rio e propor um estudo sobre ela. Tal investimento implica trabalhar com fontes prim√°rias, mas requer o equacionamento de determinas quest√Ķes que conduzir√£o o estudo da obra que, em primeira inst√Ęncia, foi publicada em jornais e revistas. Essa materialidade certamente determinada modos de enuncia√ß√£o coadunados com os ve√≠culos da impressa que medeiam esse tipo de texto (a cr√īnica, sobretudo), que ganha outra dimens√£o ao passar para outra materialidade, o livro.

Formulemos a quest√£o em outras palavras. Ao tornar-se um homem de letras, abra√ßando para toda a vida o jornalismo, √© sem d√ļvida o primeiro grande rep√≥rter brasileiro do in√≠cio do s√©culo XX. √Č como profissional da imprensa que escreve vertiginosamente nos principais jornais e revistas ilustradas do pa√≠s, revelando-se, por excel√™ncia, o cronista que registra as transforma√ß√Ķes e o cotidiano do Rio de Janeiro.

Escrever na imprensa, tamb√©m esp√©cie de laborat√≥rio ou lugar primeiro da maioria de seus textos, era “o volunt√°rio cativeiro para o qual n√£o h√° aboli√ß√£o poss√≠vel”, como disse em cr√īnica da Gazeta de Not√≠cias, de 10/05/1908, quando se comemorava o centen√°rio da imprensa no Brasil. V√™ os jornalistas como “escravos do momento social”, cujo trabalho √© estar nos lugares todos “para descrever tudo com ou sem exagero, com ou sem simpatia, mas fatalmente, pois t√™m de falar da vida alheia”; ent√£o “o rem√©dio √© escrever, escrever sem descanso atabalhoadamente, fazer o grande poema √©pico da semana, sem a demora de um instante”. Jo√£o do Rio demonstra uma aguda consci√™ncia do papel da imprensa no mundo moderno, tribut√°rio do instante (lembre-se que “O Instante” √© o t√≠tulo da coluna que assina com o pseud√īnimo Joe, na Gazeta de Not√≠cias e depois em O Paiz), e prende-se √† mat√©ria (a realidade observada), com que vai construindo uma obra em progresso, aberta e inacabada, cuja grandeza √© feita do instant√Ęneo (como o fixado pelo fot√≥grafo, como afirma numa cr√īnica de Pall-Mall Rio), do flagrante do cotidiano urbano. Dessa mesma mat√©ria escreve tamb√©m sua obra de fic√ß√£o. Esse com√©rcio tem, na sua ambival√™ncia, o artif√≠cio como moeda comum, e p√Ķe a nu a discuss√£o sobre o valor est√©tico num mundo em que os bens simb√≥licos s√£o tamb√©m mercadoria. Jo√£o do Rio fica, portanto, entre o pragmatismo do jornalista e a autonomia do artista, entre a mercadoria e a arte.¬† √Č o dilema do artista na modernidade: livre do mecenato, busca sua autonomia, mas tem de submeter-se √†s leis do mercado, sabendo que a arte que produz √© mercadoria que requer comprador. O artista passa a ser uma esp√©cie de “marginal” no mundo pragm√°tico das utilidades e da funcionalidade, patentes na modernidade, mesmo em sua adapta√ß√£o nestes tr√≥picos perif√©ricos, numa √©poca de arrivismo, de inser√ß√£o compuls√≥ria numa ordem econ√īmica capitalista, como acontecia com o Brasil. O artista perde a autonomia, sai da exclusividade da esfera est√©tica, para ficar √† merc√™ do consumidor. Est√° em pauta a discuss√£o sobre valor est√©tico, quest√£o que se estender√° at√© nossos dias, quando a legitima√ß√£o da obra arte passa por outras inst√Ęncias e institui√ß√Ķes, em que o est√©tico cede lugar ao cultural. Essa discuss√£o j√° est√° circulando nas reflex√Ķes de Jo√£o do Rio.

A artificializa√ß√£o √©, ent√£o, uma tend√™ncia que “corresponde ao desejo de superar as condi√ß√Ķes prec√°rias da realidade social e da pr√≥pria natureza” (Levin, 1996, p. 84), a que est√£o relacionados os recursos do cinismo e da ironia que marcam com certa freq√ľ√™ncia narradores e personagens de cr√īnicas e de narrativas ficcionais.

Em s√≠ntese, essa tomada de posi√ß√£o que molda sua produ√ß√£o discursiva revela a percep√ß√£o de que a cultura de massa, que come√ßava a ganhar relev√Ęncia no Brasil, com a chegada de novos recursos t√©cnicos, poderia afetar (e representar um “perigo” para) a literatura. Essa preocupa√ß√£o de Jo√£o do Rio estava na enquete que ele organizou na Gazeta de Not√≠cias sobre o a situa√ß√£o da literatura em rela√ß√£o ao jornalismo, para j√° ir apontando tens√Ķes entre a alta cultura e a cultura de massa, naquele momento. Esse fator que implica borrar os limites entre a not√≠cia e a fic√ß√£o, e a rela√ß√£o de ambas com as novas t√©cnicas, √© retomado nos pref√°cios de Cinematographo (1909), de Vida vertiginosa (1911) e de Pall-Mall Rio (1916), ao expor a concep√ß√£o desses livros, que recolhem e re-arrumam cr√īnicas antes publicadas na imprensa, revelando ao mesmo tempo a consci√™ncia de que essa outra materialidade (o livro) afeta a produ√ß√£o de sentido e a pr√≥pria concep√ß√£o de jornalismo e de literatura. A obra de Jo√£o do Rio realiza dramaticamente as tens√Ķes entre o jornalista e o artista, que lan√ßam m√£o do artif√≠cio, para escrever “o reflexo tumultu√°rio de transforma√ß√Ķes, (...) em todos os aspectos morais, mentais, pol√≠ticos, sociais, mundanos, ideol√≥gicos, pr√°ticos - a vida do Rio...” - nas palavras do pr√≥prio autor. Deste ponto de vista, deriva-se a pergunta que possibilitar√° articular a leitura dessa vasta produ√ß√£o estampada nos jornais e revistas ilustradas da Belle √Čpoque tropical: “o que √© ler/escrever o Rio de Janeiro? E seu color√°rio: “com que linguagem?”. Conjugam-se, assim, o jornalista, o artista e o artif√≠cio. Esses tra√ßos convergem, assim, para as representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro e para a formula√ß√£o de uma psicologia urbana, bin√īmio que se articula no projeto mais ousado de Jo√£o do Rio.

Dotado de aguda consci√™ncia de artista e jornalista, que sabe que produz para o mercado, Paulo Barreto desdobra-se em outros nomes. Faz-se m√ļltiplo, para captar o ef√™mero, o contingente, o circunstancial, que √© o mundo moderno atrelado ao universo urbano marcado pela mudan√ßa. Registra o que est√° destinado a desaparecer: “Olhai os mapas das cidades modernas. De s√©culo em s√©culo a transforma√ß√£o √© quase radical”, diz em A alma encantadora das ruas, de 1908. Para tal fim d√° privil√©gio ao g√™nero que, por suas caracter√≠sticas, est√° mais adequado √† fixa√ß√£o do ef√™mero: a cr√īnica moderna, filha da cidade, presa ao instante e veiculada pela imprensa, que se moderniza tamb√©m no Brasil do come√ßo do s√©culo XX e que far√° circular nesses tr√≥picos, a partir do Rio, as acep√ß√Ķes de moderno, modernidade e modernismo, instaurando, antes de 1922, toda uma ret√≥rica do moderno.

Essas s√£o as quest√Ķes que esta pesquisa quer enfrentar, ao trabalhar com um duplo movimento, o resgate das cr√īnicas de Jo√£o do Rio e um estudo desse imenso repert√≥rio de textos em que se busca equacionar a aguda consci√™ncia do autor em rela√ß√£o √† produ√ß√£o art√≠stica enquanto mercadoria, √†s tens√Ķes entre a literatura e o jornalismo, numa √©poca em que a cultura de massa ganha terreno no Brasil, com o desenvolvimento e moderniza√ß√£o da imprensa, a prolifera√ß√£o das revistas ilustradas, a fotografia, as charges, o cinemat√≥grafo. As preocupa√ß√Ķes quanto aos efeitos do jornal na literatura revelam-se no inqu√©rito com escritores que realizou em 1905, publicado em livro em O momento liter√°rio (1907). Como homem de letras e como homem de imprensa, sua obra borra os limites entre o fato e a fic√ß√£o: sua cr√īnica e seus contos e romances realizam o com√©rcio entre a literatura e o documento, e prop√Ķe esse pacto ao leitor. Esse com√©rcio tem, na sua ambival√™ncia, o artif√≠cio como moeda comum, e p√Ķe a nu a discuss√£o sobre o valor est√©tico num mundo em que os bens simb√≥licos s√£o tamb√©m mercadoria.

Metodologia:

A investiga√ß√£o ser√° feita em dois tipos de procedimentos. De um lado, a pesquisa nas fontes prim√°rias (jornais Gazeta de Not√≠cias e O Paiz e as revistas Kosmos e A Ilustra√ß√£o Brazileira), na Biblioteca Nacional e em outros acervos que se fizerem necess√°rios, para levantamento e regate das cr√īnicase reportagens de Jo√£o do Rio. Esse trabalho requer leitura rigorosa dos textos, reconstituindo-lhes a fei√ß√£o original, recontextualizando-as nas colunas ou s√©ries em que foram publicadas e estabelecendo-lhes a cronologia precisa. A vers√£o veiculada pela imprensa que ser√° cotejada com a republicada em livro (n√£o se trata de um estudo de cr√≠tica gen√©tica, mas um trabalho de fixa√ß√£o-editora√ß√£o dos textos: atualiza√ß√£o ortogr√°fica, corre√ß√£o de erros not√≥rios de composi√ß√£o gr√°fica etc). Busca-se estudar a mudan√ßa de suporte material - do jornal ao livro -, a fim de verificar a produ√ß√£o de sentido que essa materialidade implica.

De outro lado, a pesquisa da bibliografia te√≥rica e ensa√≠stica merecer√°, durante toda a pesquisa, acurada e progressiva triagem, para direcionar as quest√Ķes apresentadas formuldas neste projeto, na busca de rigoroso embasamento que d√™ consist√™ncia √† articula√ß√£o entre m√≠dia e experi√™ncia urbana, conjugada √†s representa√ß√Ķes do Rio de Janeiro na obra de Jo√£o do Rio selecionada e regatada das fontes prim√°rias, que constitui o corpus desta investiga√ß√£o.

A bibliografia arrolada em se√ß√£o espec√≠fica deste projeto, embora atualizad√≠ssima, ser√° necessariamente ampliada pela pesquisa, j√° que o estudo das representa√ß√Ķes urbanas tem merecido aten√ß√£o de grande n√ļmero de pesquisadores no Brasil e no exterior. Nesta perspectiva, √© impositivo considerar a problem√°tica do imagin√°rio urbano que, num movimento de m√£o dupla, fecunda as representa√ß√Ķes da cidade e √© enrequecido por elas. Como atesta Armando Silva, “a id√©ia brusca e determinista de que na cidade o que importa √© o ‘real’, o ‘econ√īmico’, o ‘social’, deixou fora outras considera√ß√Ķes mais abstratas, mas n√£o menos reais: podemos dizer que o real de uma cidade n√£o s√£o s√≥ a sua economia, a sua planifica√ß√£o f√≠sica ou seus conflitos sociais, mas tamb√©m as imagens imaginadas constru√≠das por fora deles, como exerc√≠cios fabulat√≥rios, em qualidade de representa√ß√£o de seus espa√ßos e de suas escrituras” (Silva, 2001, p. 79). Nesta √≥tica, busca-se ler como as “imagens imaginadas” s√£o constru√≠das pelos exerc√≠cios fabulat√≥rios que Jo√£o do Rio materializa nos jornais e nas revistas, proliferando e dispersando as representa√ß√Ķes do Rio na multiplicidade de aspectos que ele pr√≥prio, conscientemente, se disp√īs a falar, naquele com√©rcio entre a not√≠cia e a fic√ß√£o, num pacto que ele assina com o leitor, ao engendrar a narratividade das cr√īnicas e reportagens. “Esses relatos t√™m o duplo e estranho poder de mudar o ver num crer, e de fabricar o real com apar√™ncias. Dupla invers√£o. De um lado, a modernidade, outrora nascida de uma vontade observadora que lutava contra a credulidade e se fundamentava num contrato entre a vista e o real, transforma doravante essa rela√ß√£o e d√° a ver precisamente o que √© necess√°rio crer. A fic√ß√£o define o campo, o estatuto e os objetos de vis√£o” ‚Äď como formula Certeau (1990, p. 271-272). Disso Jo√£o do Rio tinha no√ß√£o aguda, pois sabia que a realidade se nutre de imagin√°rio e que a criava por meio da fabula√ß√£o que exigia o artif√≠cio da linguagem art√≠stica, como comprovam os pref√°cios escritos para seus livros que re-arrumam os textos antes publicados na imprensa, construindo um outro objeto “art√≠stico”, quando alocados em outro suporte material.

A pesquisa, deste modo, dirige o foco de aten√ß√£o para os textos resgatados de Jo√£o do Rio que representam a cidade do Rio de Janeiro, considerando as tens√Ķes entre o ficcional e o documental, os limites entre a alta cultura e a cultura de massa, aspectos que se articulam na produ√ß√£o do autor, o que implica, como aqui se formulou, uma discuss√£o sobre o valor est√©tico e o valor de mercado. Visa-se a verificar como essas narrativas s√£o respostas textuais aos pressupostos levantados na proposta deste projeto e como se articulam √†s conven√ß√Ķes ret√≥ricas das formas midi√°ticas e liter√°rias e aos regimes discursivos que as atrelam √† sociedade e √† cultura.

A “experi√™ncia urbana” √© o tra√ßo tem√°tico atrav√©s do qual se conjugam os campos de saber que a investiga√ß√£o exige, ao mesmo tempo em que indica, metodologicamente, a abertura para a perspectiva transdisciplinar condicionadora do objetivo de estudar as formas de representa√ß√£o da cidade na cultura midi√°tica e na literatura e em outros discursos e suas rela√ß√Ķes contextuais. O foco da investiga√ß√£o direciona-se √† problem√°tica da legibilidade da cidade, ou dito de outra maneira, p√Ķe-se em pauta a pergunta “o que √© escrever/ler a cidade?”, mais especificamente o Rio de Janeiro no corpus selecionado da obra de Jo√£o do Rio, pergunta que remete ao corol√°rio “com que linguagem?”, implicando o imagin√°rio urbano, as quest√Ķes do valor, a ordem do discurso, enfim, as imagens e representa√ß√Ķes da cidade que s√£o cultural e historicamente determinadas e encaradas como constru√ß√Ķes discursivas.

Esta estrat√©gia pressup√Ķe o deslocamento do foco de abordagem para al√©m do c√Ęnone liter√°rio, do que foi legitimado pelos pactos que institucionalizaram a literatura, visando √† revers√£o de hierarquias que alimentam os investimentos na ausculta√ß√£o das margens e considerando o ultrapassamento dos limites entre a alta cultura e a cultura de massa. Esta visada cr√≠tica contempla a diversidade complexa da produ√ß√£o cultural e imp√Ķe a discuss√£o do valor, redimensionando as articula√ß√Ķes entre literatura, cultura, pol√≠tica e historicidade e os meios de comunica√ß√£o de massa.

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