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Programa de Pós-Graduação em Comunicação
Pós-Graduação
 
 

Projetos de pesquisa Imagem ilustrativa deste item

Linha de Pesquisa: Comunicação e Representação

Representações midiáticas das juventudes na publicidade
Docente: Profª. Drª. Cláudia da Silva Pereira

Descrição:

Estudos relacionados às representações midiáticas, principalmente na Publicidade, das juventudes, considerando, em tal diversidade, sua centralidade como uma das mais importantes e expressivas construções sociais da sociedade contemporânea e, portanto, possível porta de acesso à compreensão de seus valores, práticas e crenças mais centrais. Além disso, busca-se discutir o papel de tais representações na sempre renovada ideia de “ser jovem” e  como esta dinâmica impacta a própria configuração dos grupos sociais, e subculturais, que podem ser associados aos “tipos ideias” presentes nos anúncios e demais peças publicitárias circulantes nas sociedades.

Antecedentes:

Este projeto de pesquisa tem como precedente os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos, desde 2001, sobre adolescência, juventude, corpo e suas representações sociais na mídia. Em 2011, concentrou-se nas representações midiáticas da juventude dos anos 1960 até a atualidade, buscando compreender, em contextos históricos e sociais distintos, de que maneira a mídia elabora a construção social da ideia de juventude e de todas as relações que estabelece com o consumo, com a cultura material e com as subculturas.

Objetivos:

O objetivo principal deste projeto é analisar as representações da juventude nos meios de comunicação. Para tanto, as questões serão aprofundadas a partir dos seguintes objetivos secundários:

  • Analisar peças publicitárias, identificando os sistemas de classificação que contribuem para o estabelecimento dos modelos culturalmente construídos em nossa sociedade a respeito da adolescência e da juventude.
  • Especificamente com relação à adolescência, privilegiar as questões de gênero, corpo e identidade, refletindo sobre as formas com que a comunicação, tanto jornalística como publicitária, representa esta fase da vida e investigando se, a partir de seu discurso, produz e reproduz padrões baseados em valores, crenças e práticas da cultura considerada “adulta”.
  • Concentrando as discussões nas representações da juventude, estudar as subculturas a partir do discurso da cultura midiática e analisá-las comparativamente com resultados de trabalhos de campo que contemplem a observação participante e a etnografia, descrevendo seus diversos aspectos sociais e culturais de sociabilidade, identidade e consumo.

Perspectivas teóricas:

Dentre os diversos aportes teóricos que fundamentam este projeto de pesquisa, destacam-se os mais centrais, quais sejam: a Teoria das Representações Sociais, com base nas obras de Serge Moscovici e Stuart Hall); a Sociologia da Juventude, a partir de autores como Edgar Morin, Luis Antonio Groppo e Jon Savage; as teorias sobre subculturas desenvolvidas por pesquisadores dos Estudos Culturais Britânicos; a Antropologia do Consumo e a análise da narrativa publicitária, através de textos de Everardo Rocha, entre outros.

A pesquisa que aqui se propõe tem como base, para a construção de seu terreno teórico-metodológico, as contribuições destes dois autores, Serge Moscovici, interacionista, e Stuart Hall, construcionista, para a análise das representações midiáticas da juventude na publicidade.

Edgar Morin, no final dos anos 1960, debruçou-se sobre a questão da “cultura juvenil” para compreender o fenômeno, então em fase de consolidação, dos meios de comunicação de massa. O autor estabeleceu uma relação direta entre um e outro, considerando que a “cultura juvenil” surge no pós-guerra, a partir de produções de cinema, televisão, rádio e música dedicadas a este novo público, que nasceu, segundo ele, junto com a cultura de massa. Morin apresenta, então, uma definição para a ideia de juventude: “classe de idade”. Consiste em uma fase da vida biológica, portanto transitória, porém que abraça um conjunto de valores e práticas muito específicos, determinantes para a unidade de um grupo, ou de uma classe. Como o próprio sociólogo afirma, trata-se de um conceito ambíguo, já que aponta uma estabilidade (classe) e uma transitoriedade (de idade), mas que define o que seria, segundo ele, “uma realidade sócio-histórica” .

A ambiguidade do conceito proposto por Morin indica, de antemão, a complexidade da noção de “juventude”. Luis Antonio Groppo apresenta uma ampla revisão literária a respeito do tema, concentrando-se no campo da Sociologia, mas não sem antes passar pela Psicologia. Para este autor, a juventude é uma “categoria social”, no sentido de que ultrapassa os limites de uma “classe de idade”, tornando-se, ao mesmo tempo, “representação sócio-cultural e uma situação social”.

Entre outros autores clássicos que poderiam também ter sido aqui evocados, Jon Savage merece destaque, para os fins deste projeto, por publicar uma pesquisa documental bastante abrangente, rica e reveladora sobre o que o autor denomina a “pré-história da adolescência”. Percorrendo o período de 1875 a 1945, portanto aquele que corresponde à pós-Revolução Industrial e às duas Grandes Guerras, Savage  busca demonstrar, por meio de registros em diários, matérias de jornais e outros documentos, que haveria uma experiência adolescente nos relatos de diversos personagens, alguns célebres, como Anne Frank. E, assim, o autor apresenta uma série de expressões desta proto-adolescência através de estilos de vida, movimentos sociais, valores, práticas e consumos, relacionando-os com o contexto sócio-histórico analisado e com a construção social da ideia de juventude. Alguns exemplos são o naturismo do grupo Wandervolgel e, mais tarde, o nacionalismo dos grupos juvenis na Alemanha; o risco, a aventura e as novas experiências envolvidas na experiência das duas guerras mundiais; o uso de drogas, também durante este período; os “ismos” (cubismo, futurismo, vorticismo); a arte urbana, a música popular (jazz); a transgressão e a rebeldia presentes em diferentes manifestações juvenis, como as melindrosas dos anos 20; a delinquência de grupos como os “Apaches”; as subculturas; a liberdade, o americanismo, o consumismo, o hedonismo e o “estado de espírito” jovem dos “Bright Young People”. A cada exemplo da obra de Savage, é possível remontar às origens das representações sociais contemporâneas que nos fazem relacionar a noção de juventude com valores que, por princípio, não mereceriam ser naturalizados, mas que o são, por força da construção social de outros períodos históricos e sociais.

A questão das subculturas tamnbém é fundamental para a compreensão do aspecto identitário, político e de sociabilidade entre os jovens. Se tomarmos como referência os primeiros olhares científicos sobre os fenômenos juvenis, encontraremos, no Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCI), da Universidade de Birmingham, textos seminais sobre as primeiras incursões dos jovens como atores sociais, nos anos 1960 e 1970. Dentre os diversos autores que mereceriam referência neste projeto, além de Stuart Hall, apontam-se três: os de John Clarke, Dick Hebdidge e Paul Hodkinson.

Metodologia:

Pesquisa documental e análise das Representações Sociais.

Além de reunir, selecionar, organizar e sistematizar os textos das Ciências Sociais que tratam da juventude como um objeto de estudo, em suas diversas representações midiáticas, a pesquisa também reunirá, da mesma forma, anúncios publicados desde a década de 1960 até hoje, nos principais jornais e revistas brasileiros, principalmente. Mas também pretende-se reunir material de outros países, para que possam ser realizados estudos comparados.

Através da análise interpretativa baseada na Teoria das Representações Sociais, os anúncios serão classificados a partir dos valores sociais que os sustentam, considerando, para tanto, o contexto histórico, social e cultural em que estão inseridos.

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Comunicação e consumo: narrativa publicitária, cultura e sociabilidade
Docente: Prof. Dr. Everardo Rocha

Descrição:

Esse projeto visa desenvolver uma investigação dos significados do consumo e da publicidade como forma de conhecer representações, experiências e práticas que giram em torno desses fenômenos na cultura contemporânea. A proposta de pesquisa é tanto identificar, classificar e analisar os valores, comportamentos, identidades e estilos de vida que eles elaboram como estudar os modos pelos quais o consumo e a narrativa publicitária operam distinções, diferenciações, semelhança entre grupos sociais e bens de consumo.

Antecedentes:

Esse projeto expressa a continuidade de um longo trabalho de investigação das relações entre comunicação, narrativa publicitária e consumo que venho desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em Comunicação do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Assim, ele tanto deriva quanto se insere numa perspectiva de interpretação da comunicação e do consumo cujo eixo central está, sobretudo, na investigação das formas pelas quais a narrativa publicitária elabora representações, propicia experiências e institui práticas sociais que transformam o consumo em um recurso essencial de classificação, identificação, diferenciação e distinção na cultura contemporânea.

Os antecedentes dessa pesquisa remontam à década de 1980 e desta perspectiva de interpretação da narrativa publicitária e do consumo resultaram, ao longo desses anos, os livros “Magia e capitalismo: um estudo antropológico da publicidade”; “A sociedade do sonho: comunicação, cultura e consumo”; “As representações do consumo: estudos sobre a narrativa publicitária”; “Antropologia e comunicação: cultura, simbolismo e consumo” e “Juventude e consumo: um estudo sobre a comunicação na cultura contemporânea” (em coautoria com a professora Claudia Pereira), além de inúmeros ensaios publicados em revistas acadêmicas e como capítulos de livros. A viabilização dessas pesquisas contou sempre com o decisivo apoio do CNPq tanto através de sucessivas bolsas de Produtividade em Pesquisa quanto através do PIBIC.

Assim, parte substancial de minha produção acadêmica na qual o presente projeto se insere está voltada para pesquisas sobre as representações presentes na narrativa publicitária e as práticas relacionadas ao consumo que, acredito, são questões fundamentais para a área da Comunicação. A investigação crítica da publicidade e seu lugar na cultura contemporânea é algo fundamental pela imensa riqueza intelectual contida em um tipo de narrativa que produz e sustenta uma fatia substancial dos significados dos bens de consumo, do espaço que possuem em nossas experiências concretas de vida e do sentido que atribuímos a eles nas práticas sociais cotidianas. É igualmente importante a busca de preencher uma lacuna, pois uma narrativa tão poderosa, complexa e típica do campo da Comunicação como a publicidade e experiências e práticas tão centrais na cultura contemporânea quanto o consumo, ainda são temas pouco estudadas.

Objetivos:

Esse projeto pretende estudar os principais significados que as narrativas publicitárias elaboram, investigando as formas pelas quais elas, ao produzirem sentido público e coletivo para os bens de consumo, também prescrevem valores e modelam práticas sociais. Através de um complexo conjunto de representações, a narrativa publicitária expressa identidades, diferenças, subjetividades, projetos, comportamentos, relações, define capitais sociais e oferece um mapa classificatório central que regula diversas esferas da experiência social na cultura contemporânea. Assim, esse projeto visa intensificar, aprofundar, sistematizar e ampliar o estudo da narrativa publicitária, investigando como nela se configura um sistema de valores que informa os comportamentos concretos de grupos sociais em suas experiências e práticas de consumo.

Neste projeto, vamos pensar a questão da narrativa publicitária e do consumo em dois planos. Por um lado, como sistema de significação, permitindo descortinar um vasto panorama do imaginário da sociedade contemporânea. Por outro, como conjunto de experiências particulares e práticas concretas que perpassa o cotidiano e codifica os estilos de vida dos diferentes grupos sociais. Também, através da investigação da publicidade e do consumo buscamos compreender aquilo que no imaginário da sociedade brasileira pode estar no plano global, onde são compartilhadas experiências culturais contemporâneas, bem como no plano local, onde se define o que nos é marcadamente singular.

Assim, dentro de uma disposição mais de ampliar a massa crítica em relação à comunicação, à publicidade e ao consumo, a pesquisa vai procurar identificar na narrativa publicitária os modos de elaboração dos valores culturais que constroem o imaginário, as experiências e as práticas de consumo. Para tanto, se colocam as seguintes questões e temáticas de estudo

  • Investigar as representações da narrativa publicitária e a construção de sistemas de classificação que articulam semelhanças e diferenças entre grupos através dos usos sociais dos bens e dos padrões de consumo;
  • Analisar as principais representações acionadas pela narrativa publicitária, em particular aquelas relacionadas às questões de gênero, geração, diferença cultural e etnocentrismo;
  • Avaliar as formas pelas quais os bens de consumo podem traduzir uma estruturação das identidades sociais, atuando como força cultural na formação da visão de mundo dos diferentes grupos;
  • Investigar a narrativa publicitária como exercício do poder através das representações ideológicas que marcam o universo das práticas, o capital social e as distinções de gosto;
  • Analisar as formas pelas quais a publicidade elabora identidades sociais a partir de marcas, grifes, objetos e bens de consumo e entender seu papel na superposição entre as identidades de cidadão e de consumidor;
  • Estudar o consumo e a narrativa publicitária no quadro do novo modelo de produção econômica da modernidade e como operador de novas experiências de sensibilidades, identidades culturais e modos de sociabilidade;
  • Investigar a narrativa publicitária e a experiência do consumo e suas relações, tanto lógicas quanto históricas, com o entretenimento na cultura moderno-contemporânea;
  • Analisar o consumo como espaço de disputa, negociação e tensão entre experiência individual e identidade coletiva e entre perspectivas globais e realidades locais;

Perspectivas teóricas:

Esses temas de pesquisa são desafios colocados ao estudo da narrativa publicitária, do fenômeno do consumo e do universo cultural que os sustenta. São também questões que reúnem a investigação da publicidade e do consumo com a tradição dos estudos das ideologias, representações e sistemas simbólicos. Assim, este projeto vai procurar descrever, classificar, sistematizar e interpretar os significados da narrativa publicitária e sua tradução nas experiências e práticas do consumo, tendo como meta entender a sua lógica e seu modo de operação na cultura contemporânea - e na experiência brasileira em especial - através das possibilidades oferecidas pela convergência de diferentes tradições intelectuais.

O consumo e o dispositivo publicitário que lhe dá voz são fatos sociais, coletivos e públicos, que se inscrevem lógica e historicamente em nossa cultura. Portanto, a devida atenção à temática do revestimento cultural desses fenômenos indica uma instância de maior abrangência cuja análise pode encontrar sustentação consistente na tradição da Comunicação e demais Ciências Sociais em análise de sistemas simbólicos. O que é constitutivo da publicidade como narrativa e do consumo como prática - as marcas, produtos, serviços, mercados, compras, escolhas, atitudes, decisões, etc. - faz parte de um universo de trocas simbólicas que acontecem entre atores sociais no palco da cultura. Publicidade e consumo são, entre outras coisas, processos de comunicação e classificação de pessoas e objetos.

O projeto, portanto, considera o estudo da narrativa publicitária e do consumo como referências centrais para uma interpretação da cultura contemporânea. As representações, experiências e práticas que esses fenômenos acionam definem uma instância de invenção de categorias ordenadoras da cultura em nosso tempo, expressando princípios, ideais, sensibilidades, estilos, identidades sociais e projetos coletivos. A publicidade e o consumo espelham, com exata adequação, certo “espírito do tempo”, uma face bem definida da sociedade na qual vivemos. Não é por acaso que a experiência contemporânea se traduz no que chamam “sociedade de consumo”.

A complexidade e a riqueza intelectual das questões aí implicadas indicam que estudá-las traduz um esforço intelectual significativo para atender uma efetiva demanda produzida pela cultura contemporânea. Em certo sentido, compreender a sociedade contemporânea passa pela compreensão de algumas das questões que se inscrevem na pesquisa dos dispositivos publicitários e das experiências de consumo. Conhecer o poderoso sistema de representações sustentado pela narrativa publicitária e pelas práticas de consumo é uma chave para a compreensão profunda das transformações sociais que fundaram a chamada modernidade.

Estudar o consumo através do contexto simbólico no qual ele está inserido é investir na tradição acadêmica que pensa a modernidade para além da visão predominantemente utilitária. A compreensão da sociedade moderno-contemporânea teve no pensamento econômico - e na categoria “produção”, em especial - a sua chave explicativa básica. O consumo foi relegado a um mero reflexo, uma espécie de efeito secundário da produção, dentro de uma visão racionalista e utilitária, dominada pela chamada “razão prática” (Sahlins, 1979).

É no sentido de realizar um debate intelectual capaz de ampliar essa interpretação da cultura moderno-contemporânea que é necessário estudar estes sistemas simbólicos - consumo e narrativa publicitária - como oportunidade privilegiada para entender muitos dos significados da mentalidade contemporânea e, também, da experiência brasileira (DaMatta, 1985). Algumas possibilidades promissoras deste estudo passam por uma démarche que assuma a narrativa publicitária e o consumo como códigos culturais capazes de expressar uma complexa pluralidade de mensagens, disponibilizar um amplo conjunto de experiências e mapear uma parte substancial das práticas cotidianas. Assim, nossa referência para realizar essa pesquisa está na tradição das análises de sistemas simbólicos que balizam um espaço teórico seguro composto de materiais clássicos na literatura da Comunicação e das Ciências Sociais.

Metodologia:

Para realizar esta investigação, o projeto vai privilegiar métodos de pesquisa qualitativos e, em particular, a etnografia. O método etnográfico pode ser caracterizado como captação e interpretação de valores e práticas socialmente experimentadas, através de uma ênfase na exploração de fenômenos particulares; na perspectiva microscópica; nas entrevistas em profundidade; na análise do discurso de informantes; na investigação em detalhe; na observação participante; na decodificação de representações. A etnografia busca, para utilizar a consagrada expressão de Clifford Geertz, realizar uma “descrição densa” da experiência cultural (Geertz, 1978) sendo o conhecimento científico gerado, em certo sentido, pela visão interna de um fenômeno obtida a partir do ponto de vista “nativo”. Para além do contexto “clássico” do qual nasceu, a etnografia consolidou uma tradição de estudo de sistemas culturais de grupos urbanos, abrindo espaço para a análise de fenômenos como publicidade e o consumo - suas representações e suas práticas.

Este projeto visa, portanto, pesquisar representações, estilos e valores expressos na narrativa publicitária e, efetivamente, experimentados nas práticas de consumo dos atores sociais. Utilizar a etnografia como método de pesquisa quer dizer estudar as categorias que norteiam o pensamento e as práticas de grupos sociais concretos, historicamente datados, dotados de fronteiras culturais nítidas e características comuns de experiência. A primeira questão tipicamente etnográfica é, portanto, configurar um grupo como conjunto de atores sociais que compartilham certa homogeneidade de pensamento, que trocam experiências, que possuam ethos, visões de mundo, práticas e estilos de vida capazes de permitir a construção de unidades sociológicas significativas.

Definir fronteiras que estabeleçam uma espécie de territorialidade simbólica é parte do cuidado etnográfico com o qual se pretende conduzir a pesquisa. Por isso, o projeto procurará captar a visão que os grupos sociais possuem dos significados dos anúncios publicitários e do consumo, entendendo o peso relativo destes fenômenos em suas vidas. Etnografias são estudos concretos e pontuais, que pretendem conhecer os fenômenos a partir das percepções de grupos e, assim, entender como eles concebem e praticam suas experiências de vida. O esforço de ouvir o outro, a perspectiva microscópica e a busca de relativização que isto implica são marcas próprias do projeto etnográfico. Nesse sentido, é nosso propósito também examinar os limites e possibilidades da etnografia como instrumento de pesquisa em Comunicação, analisando os significados das representações publicitárias e das práticas sociais de consumo.

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Representações sociais do corpo e da morte na cultura midiática.
Docente: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues

Descrição:

Estudar a construção de imagens e representações do corpo e da morte pelos meios de comunicação e investigar as práticas corporais suscitadas pela cultura midiática.

Antecedentes:

Este projeto procura dar continuidade aos trabalhos de investigação que, com o apoio de instituições como CNPq, Fundação Ford, ANPOCS, BNDES e Faperj, o pesquisador responsável vem desenvolvendo, desde os anos setenta, sobre sistemas sociais de classificação do corpo e sobre representações sociais do corpo e da morte na sociedade industrial. Tais trabalhos prosseguiram, a partir de 1982, versando sobre reconstituição das crenças e práticas associadas ao corpo e à morte no Rio de Janeiro, sempre com o apoio do CNPq. Tais estudos resultaram nos livros Tabu do Corpo (1979) e Tabu da Morte (1983). Posteriormente, materializando o desenvolvimento do trabalho a que o presente Projeto diz respeito, resultaram os livros Ensaios em Antropologia do Poder (1992), Higiene e Ilusão (1995), O Corpo na História (1999) e Comunicação e significado (2006).

Objetivo:

A pesquisa volta-se para a análise dos significados contemporâneos do corpo e da morte, conforme se materializam em tópicos como saúde, higiene, bem-estar, juventude, beleza, violência, risco, velhice, doença, lixo... É ponto central da investigação considerar o modo pelo qual estes tópicos específicos vêm sendo afetados por fenômenos característicos da sociedade industrial-capitalista, tais como trabalho, previdência, tempo livre, moda, consumo, mercantilização, globalização, subjetivação, espetacularização, massificação e individualização.

Entre os objetivos desse projeto figura o desenvolvimento de trabalhos que se proponham a aprofundar a investigação do problema das representações sociais do corpo e da morte e de o compreender em função da realidade brasileira.

Perspectivas teóricas:

A hipótese geral da pesquisa é a de que o desenvolvimento da sociedade industrial vem progressivamente liberando os corpos de serem os produtores do sistema socioeconômico (“corpos-ferramentas”) e os obrigando a assumir um novo papel, o de reprodutores da ordem social e política (“corpos-consumidores”). A hipótese específica é a de que os meios de comunicação desempenham papel fundamental neste processo, na medida em que definem, propõem e, mesmo, impõem novos padrões de saúde, higiene, beleza e bem-estar. Por outro lado, as representações do corpo vigorantes na sociedade industrial, capitalista, de consumo e individualista raramente reservam um espaço confortável para a morte, cuja explicitação se torna tabu e cujos ritos tendem a se disfarçar nos bastidores da vida coletiva.

As exceções a esta regra geral também merecem atenções teóricas e conceituais. A morte silenciada dos cotidianos – que foi constatada quase unanimemente pelos sociólogos e historiadores da morte no Ocidente - com frequência aparece de modo quase publicitário e espetacularizado nos meios de comunicação. Isto se dá especialmente por ocasião de catástrofes naturais, de acidentes de grandes proporções, ou de morte de pessoas célebres. Nesses termos, a espetacularização da morte pode então estar apontando para uma nova direção dos ritos fúnebres? Os meios de comunicação de massa, sobretudo os eletrônicos, podem estar tornando a morte mais pública? Podem estar propiciando uma relação mais face a face com esta? Há ainda outra questão empírica de grande importância a ser estudada: a espetacularização dos funerais de pessoas comuns. Que dizer desses rituais, que aparentemente começam a se difundir, que transformam as antigas e vetustas solenidades fúnebres estritamente familiares em quase shows produzidos e geridos por empresas?

O recorte empírico fundamental da pesquisa procurará averiguar a presença do corpo e da morte nos meios de comunicação, colocando em evidência os valores que lhes são atribuídos, as suas frequências e as suas tipologias em veículos como jornais, revistas, televisão, cinema, rádio e internet. A pesquisa dará ênfase particular à analise de peças publicitárias associadas ao corpo e à morte (raras, porém muito expressivas), especialmente àquelas que apresentam um valor que a experiência do pesquisador supõe ser estratégico, como os anúncios e campanhas que versam, entre outros, sobre seguros de vida, promoção da saúde, segurança do trabalho, prevenção de doenças letais, aposentadorias privadas, campanhas de vacinação, evitação de DSTs, etc.

Um trabalho dessa natureza, conjugando representações do corpo e da morte, tem uma virtude, propositalmente procurada: tão relevante quanto estudar aquilo que uma sociedade quer ser é estudar aquilo que ela não quer ser, pois frequentemente, por suas facetas negativas, as sociedades mostram aquilo que escondem em seus lados positivos. No caso específico da morte, esta propriedade se demonstra ostensivamente, uma vez que as crenças e práticas associadas à morte, em toda sociedade, se ligam intimamente aos modos de vida e às atitudes diante da existência, afetando diretamente as concepções e práticas corporais.

Ao lado dos estudos desenvolvidos pelos teóricos da comunicação relativos ao entendimento do fenômeno midiático, o presente projeto reserva um lugar importante para conceitos, teorias e conhecimentos desenvolvidos no campo antropológico e que se revelaram bastante apropriados para o estudo da significação, dos dramas sociais, dos sistemas mitológicos e rituais. Especialmente, para abordar o tema do corpo e da morte na cultura midiática o desenvolvimento deste projeto servir-se-á de conceitos e teorias destinados ao entendimento das práticas corporais, dos ritos fúnebres, das crenças e concepções sobre o após a morte. Trata-se, por exemplo, de trabalhos como os de Van Gennep, Victor Turner, Leach, Lévi-Strauss, Radcliffe-Brown, Mary Douglas, Louis-Vincent Thomas, entre outros.

Metodologia:

Uma determinação rígida dos métodos de trabalho poderá certamente conter erros. Não obstante, o enfoque teórico adotado sugere algumas "operações" cuja realização poderá ser promissora no que diz respeito ao fornecimento de dados relevantes para a presente pesquisa. Sem ordem de prioridade, pode-se mencionar os seguintes "focos" de trabalho, observando, entretanto, que a experiência já aprendeu que estes focos não fornecem materiais homogêneos:

  • Imagens: pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, filmes, imagens de TV e de publicidade, etc. que, incidindo direta ou indiretamente sobre o tema da pesquisa, relatem ou permitam inferir fatos associados, por exemplo, às práticas corporais, às cenas do morrer, aos ritos corporais e fúnebres, às paisagens cemiteriais e também aos cenários dos corpos (parques, praias, esportes, etc.), às concepções sobre o além e sobre a materialidade corporal... Tais imagens poderão ser objeto de análise semiológica, simbólico-estrutural ou de conteúdo.
  • Jornais: a leitura de jornais de épocas distintas poderá fornecer material farto a uma pesquisa sobre corpo e morte na cultura midiática, se nela forem considerados, por exemplo, os anúncios fúnebres, de remédios, de clínicas, de tratamentos de doenças, de academias de ginástica, de dietas, as coberturas dos funerais de pessoas "importantes", as reportagens sobre doenças letais, crimes e acidentes... Semelhante material costuma se prestar bem à análise quantitativa de conteúdo.
  • Literatura: os romances frequentemente fazem a etnografia dos costumes da época em que foram escritos ou em que se desenvolveram as ações que relatam; documentos literários poderão vir a fornecer relatos sobre como eram/são as práticas e representações do corpo, as expressões corporais, os modos de trajar, como se morria/morre nas diferentes épocas, como se vivia/vive a agonia, como se comunica(va) o advento da morte à coletividade, como eram/são os ritos funerários, as etiquetas das condolências e do luto, como se dava ou dá a reorganização das relações sociais...
  • Arquivos: poderão ser consultados arquivos de tribunais, de cartórios, de instituições policiais, de instituições religiosas (paróquias, seminários, conventos...), de instituições ligadas à morte e ao corpo (necrotérios, cemitérios, santas-casas... mas também academias, clubes, escolas de medicina, de enfermagem), arquivos de jornais e de emissoras de televisão.
  • Visitas e observação direta: poderão ser profícuas as visitas a instituições direta ou indiretamente associadas ao corpo e à morte. Penso, por exemplo, em fortificações, presídios e cadeias, igrejas e conventos, cemitérios para humanos e para animais domésticos, necrotérios, asilos e hospitais; também em academias, hospitais, clínicas de cirurgia plástica, de tratamento de disfunção erétil...

Para investigar as representações do corpo na cultura dos meios de comunicação, o projeto utilizará prioritariamente o método etnográfico. Isto é, sempre que possível, o projeto dará ênfase à observação participante, às entrevistas em profundidade e à análise dos discursos espontâneos dos informantes, dos produtores e dos destinatários das representações.

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