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Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
Pós-Graduação
 
 

Projetos de pesquisa Imagem ilustrativa deste item

Linha de Pesquisa: Comunicação e Representação

Representações midiáticas das juventudes na publicidade
Docente: Profª. Drª. Cláudia da Silva Pereira

Descrição:

Estudos relacionados às representações midiáticas, principalmente na Publicidade, das juventudes, considerando, em tal diversidade, sua centralidade como uma das mais importantes e expressivas construções sociais da sociedade contemporânea e, portanto, possível porta de acesso à compreensão de seus valores, práticas e crenças mais centrais. Além disso, busca-se discutir o papel de tais representações na sempre renovada ideia de “ser jovem” e  como esta dinâmica impacta a própria configuração dos grupos sociais, e subculturais, que podem ser associados aos “tipos ideias” presentes nos anúncios e demais peças publicitárias circulantes nas sociedades.

Antecedentes:

Este projeto de pesquisa tem como precedente os trabalhos que vêm sendo desenvolvidos, desde 2001, sobre adolescência, juventude, corpo e suas representações sociais na mídia. Em 2011, concentrou-se nas representações midiáticas da juventude dos anos 1960 até a atualidade, buscando compreender, em contextos históricos e sociais distintos, de que maneira a mídia elabora a construção social da ideia de juventude e de todas as relações que estabelece com o consumo, com a cultura material e com as subculturas.

Objetivos:

O objetivo principal deste projeto é analisar as representações da juventude nos meios de comunicação. Para tanto, as questões serão aprofundadas a partir dos seguintes objetivos secundários:

  • Analisar peças publicitárias, identificando os sistemas de classificação que contribuem para o estabelecimento dos modelos culturalmente construídos em nossa sociedade a respeito da adolescência e da juventude.
  • Especificamente com relação à adolescência, privilegiar as questões de gênero, corpo e identidade, refletindo sobre as formas com que a comunicação, tanto jornalística como publicitária, representa esta fase da vida e investigando se, a partir de seu discurso, produz e reproduz padrões baseados em valores, crenças e práticas da cultura considerada “adulta”.
  • Concentrando as discussões nas representações da juventude, estudar as subculturas a partir do discurso da cultura midiática e analisá-las comparativamente com resultados de trabalhos de campo que contemplem a observação participante e a etnografia, descrevendo seus diversos aspectos sociais e culturais de sociabilidade, identidade e consumo.

Perspectivas teóricas:

Dentre os diversos aportes teóricos que fundamentam este projeto de pesquisa, destacam-se os mais centrais, quais sejam: a Teoria das Representações Sociais, com base nas obras de Serge Moscovici e Stuart Hall); a Sociologia da Juventude, a partir de autores como Edgar Morin, Luis Antonio Groppo e Jon Savage; as teorias sobre subculturas desenvolvidas por pesquisadores dos Estudos Culturais Britânicos; a Antropologia do Consumo e a análise da narrativa publicitária, através de textos de Everardo Rocha, entre outros.
A pesquisa que aqui se propõe tem como base, para a construção de seu terreno teórico-metodológico, as contribuições destes dois autores, Serge Moscovici, interacionista, e Stuart Hall, construcionista, para a análise das representações midiáticas da juventude na publicidade.
Edgar Morin, no final dos anos 1960, debruçou-se sobre a questão da “cultura juvenil” para compreender o fenômeno, então em fase de consolidação, dos meios de comunicação de massa. O autor estabeleceu uma relação direta entre um e outro, considerando que a “cultura juvenil” surge no pós-guerra, a partir de produções de cinema, televisão, rádio e música dedicadas a este novo público, que nasceu, segundo ele, junto com a cultura de massa. Morin apresenta, então, uma definição para a ideia de juventude: “classe de idade”. Consiste em uma fase da vida biológica, portanto transitória, porém que abraça um conjunto de valores e práticas muito específicos, determinantes para a unidade de um grupo, ou de uma classe. Como o próprio sociólogo afirma, trata-se de um conceito ambíguo, já que aponta uma estabilidade (classe) e uma transitoriedade (de idade), mas que define o que seria, segundo ele, “uma realidade sócio-histórica” .
A ambiguidade do conceito proposto por Morin indica, de antemão, a complexidade da noção de “juventude”. Luis Antonio Groppo apresenta uma ampla revisão literária a respeito do tema, concentrando-se no campo da Sociologia, mas não sem antes passar pela Psicologia. Para este autor, a juventude é uma “categoria social”, no sentido de que ultrapassa os limites de uma “classe de idade”, tornando-se, ao mesmo tempo, “representação sócio-cultural e uma situação social”.
Entre outros autores clássicos que poderiam também ter sido aqui evocados, Jon Savage merece destaque, para os fins deste projeto, por publicar uma pesquisa documental bastante abrangente, rica e reveladora sobre o que o autor denomina a “pré-história da adolescência”. Percorrendo o período de 1875 a 1945, portanto aquele que corresponde à pós-Revolução Industrial e às duas Grandes Guerras, Savage  busca demonstrar, por meio de registros em diários, matérias de jornais e outros documentos, que haveria uma experiência adolescente nos relatos de diversos personagens, alguns célebres, como Anne Frank. E, assim, o autor apresenta uma série de expressões desta proto-adolescência através de estilos de vida, movimentos sociais, valores, práticas e consumos, relacionando-os com o contexto sócio-histórico analisado e com a construção social da ideia de juventude. Alguns exemplos são o naturismo do grupo Wandervolgel e, mais tarde, o nacionalismo dos grupos juvenis na Alemanha; o risco, a aventura e as novas experiências envolvidas na experiência das duas guerras mundiais; o uso de drogas, também durante este período; os “ismos” (cubismo, futurismo, vorticismo); a arte urbana, a música popular (jazz); a transgressão e a rebeldia presentes em diferentes manifestações juvenis, como as melindrosas dos anos 20; a delinquência de grupos como os “Apaches”; as subculturas; a liberdade, o americanismo, o consumismo, o hedonismo e o “estado de espírito” jovem dos “Bright Young People”. A cada exemplo da obra de Savage, é possível remontar às origens das representações sociais contemporâneas que nos fazem relacionar a noção de juventude com valores que, por princípio, não mereceriam ser naturalizados, mas que o são, por força da construção social de outros períodos históricos e sociais.

A questão das subculturas tamnbém é fundamental para a compreensão do aspecto identitário, político e de sociabilidade entre os jovens. Se tomarmos como referência os primeiros olhares científicos sobre os fenômenos juvenis, encontraremos, no Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCI), da Universidade de Birmingham, textos seminais sobre as primeiras incursões dos jovens como atores sociais, nos anos 1960 e 1970. Dentre os diversos autores que mereceriam referência neste projeto, além de Stuart Hall, apontam-se três: os de John Clarke, Dick Hebdidge e Paul Hodkinson.

Metodologia:

Pesquisa documental e análise das Representações Sociais.
Além de reunir, selecionar, organizar e sistematizar os textos das Ciências Sociais que tratam da juventude como um objeto de estudo, em suas diversas representações midiáticas, a pesquisa também reunirá, da mesma forma, anúncios publicados desde a década de 1960 até hoje, nos principais jornais e revistas brasileiros, principalmente. Mas também pretende-se reunir material de outros países, para que possam ser realizados estudos comparados.
Através da análise interpretativa baseada na Teoria das Representações Sociais, os anúncios serão classificados a partir dos valores sociais que os sustentam, considerando, para tanto, o contexto histórico, social e cultural em que estão inseridos.

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Comunicação e consumo: narrativa publicitária, cultura e sociabilidade
Docente: Prof. Dr. Everardo Rocha

Descrição:

Esse projeto visa desenvolver uma investigação dos significados do consumo e da publicidade como forma de conhecer representações, experiências e práticas que giram em torno desses fenômenos na cultura contemporânea. A proposta de pesquisa é tanto identificar, classificar e analisar os valores, comportamentos, identidades e estilos de vida que eles elaboram como estudar os modos pelos quais o consumo e a narrativa publicitária operam distinções, diferenciações, semelhança entre grupos sociais e bens de consumo.

Antecedentes:

Esse projeto expressa a continuidade de um longo trabalho de investigação das relações entre comunicação, narrativa publicitária e consumo que venho desenvolvendo no Programa de Pós-Graduação em Comunicação do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. Assim, ele tanto deriva quanto se insere numa perspectiva de interpretação da comunicação e do consumo cujo eixo central está, sobretudo, na investigação das formas pelas quais a narrativa publicitária elabora representações, propicia experiências e institui práticas sociais que transformam o consumo em um recurso essencial de classificação, identificação, diferenciação e distinção na cultura contemporânea.

Os antecedentes dessa pesquisa remontam à década de 1980 e desta perspectiva de interpretação da narrativa publicitária e do consumo resultaram, ao longo desses anos, os livros “Magia e capitalismo: um estudo antropológico da publicidade”; “A sociedade do sonho: comunicação, cultura e consumo”; “As representações do consumo: estudos sobre a narrativa publicitária”; “Antropologia e comunicação: cultura, simbolismo e consumo” e “Juventude e consumo: um estudo sobre a comunicação na cultura contemporânea” (em coautoria com a professora Claudia Pereira), além de inúmeros ensaios publicados em revistas acadêmicas e como capítulos de livros. A viabilização dessas pesquisas contou sempre com o decisivo apoio do CNPq tanto através de sucessivas bolsas de Produtividade em Pesquisa quanto através do PIBIC.

Assim, parte substancial de minha produção acadêmica na qual o presente projeto se insere está voltada para pesquisas sobre as representações presentes na narrativa publicitária e as práticas relacionadas ao consumo que, acredito, são questões fundamentais para a área da Comunicação. A investigação crítica da publicidade e seu lugar na cultura contemporânea é algo fundamental pela imensa riqueza intelectual contida em um tipo de narrativa que produz e sustenta uma fatia substancial dos significados dos bens de consumo, do espaço que possuem em nossas experiências concretas de vida e do sentido que atribuímos a eles nas práticas sociais cotidianas. É igualmente importante a busca de preencher uma lacuna, pois uma narrativa tão poderosa, complexa e típica do campo da Comunicação como a publicidade e experiências e práticas tão centrais na cultura contemporânea quanto o consumo, ainda são temas pouco estudadas.

Objetivos:

Esse projeto pretende estudar os principais significados que as narrativas publicitárias elaboram, investigando as formas pelas quais elas, ao produzirem sentido público e coletivo para os bens de consumo, também prescrevem valores e modelam práticas sociais. Através de um complexo conjunto de representações, a narrativa publicitária expressa identidades, diferenças, subjetividades, projetos, comportamentos, relações, define capitais sociais e oferece um mapa classificatório central que regula diversas esferas da experiência social na cultura contemporânea. Assim, esse projeto visa intensificar, aprofundar, sistematizar e ampliar o estudo da narrativa publicitária, investigando como nela se configura um sistema de valores que informa os comportamentos concretos de grupos sociais em suas experiências e práticas de consumo.

Neste projeto, vamos pensar a questão da narrativa publicitária e do consumo em dois planos. Por um lado, como sistema de significação, permitindo descortinar um vasto panorama do imaginário da sociedade contemporânea. Por outro, como conjunto de experiências particulares e práticas concretas que perpassa o cotidiano e codifica os estilos de vida dos diferentes grupos sociais. Também, através da investigação da publicidade e do consumo buscamos compreender aquilo que no imaginário da sociedade brasileira pode estar no plano global, onde são compartilhadas experiências culturais contemporâneas, bem como no plano local, onde se define o que nos é marcadamente singular.

Assim, dentro de uma disposição mais de ampliar a massa crítica em relação à comunicação, à publicidade e ao consumo, a pesquisa vai procurar identificar na narrativa publicitária os modos de elaboração dos valores culturais que constroem o imaginário, as experiências e as práticas de consumo. Para tanto, se colocam as seguintes questões e temáticas de estudo

  • Investigar as representações da narrativa publicitária e a construção de sistemas de classificação que articulam semelhanças e diferenças entre grupos através dos usos sociais dos bens e dos padrões de consumo;
  • Analisar as principais representações acionadas pela narrativa publicitária, em particular aquelas relacionadas às questões de gênero, geração, diferença cultural e etnocentrismo;
  • Avaliar as formas pelas quais os bens de consumo podem traduzir uma estruturação das identidades sociais, atuando como força cultural na formação da visão de mundo dos diferentes grupos;
  • Investigar a narrativa publicitária como exercício do poder através das representações ideológicas que marcam o universo das práticas, o capital social e as distinções de gosto;
  • Analisar as formas pelas quais a publicidade elabora identidades sociais a partir de marcas, grifes, objetos e bens de consumo e entender seu papel na superposição entre as identidades de cidadão e de consumidor;
  • Estudar o consumo e a narrativa publicitária no quadro do novo modelo de produção econômica da modernidade e como operador de novas experiências de sensibilidades, identidades culturais e modos de sociabilidade;
  • Investigar a narrativa publicitária e a experiência do consumo e suas relações, tanto lógicas quanto históricas, com o entretenimento na cultura moderno-contemporânea;
  • Analisar o consumo como espaço de disputa, negociação e tensão entre experiência individual e identidade coletiva e entre perspectivas globais e realidades locais;

Perspectivas teóricas:

Esses temas de pesquisa são desafios colocados ao estudo da narrativa publicitária, do fenômeno do consumo e do universo cultural que os sustenta. São também questões que reúnem a investigação da publicidade e do consumo com a tradição dos estudos das ideologias, representações e sistemas simbólicos. Assim, este projeto vai procurar descrever, classificar, sistematizar e interpretar os significados da narrativa publicitária e sua tradução nas experiências e práticas do consumo, tendo como meta entender a sua lógica e seu modo de operação na cultura contemporânea - e na experiência brasileira em especial - através das possibilidades oferecidas pela convergência de diferentes tradições intelectuais.

O consumo e o dispositivo publicitário que lhe dá voz são fatos sociais, coletivos e públicos, que se inscrevem lógica e historicamente em nossa cultura. Portanto, a devida atenção à temática do revestimento cultural desses fenômenos indica uma instância de maior abrangência cuja análise pode encontrar sustentação consistente na tradição da Comunicação e demais Ciências Sociais em análise de sistemas simbólicos. O que é constitutivo da publicidade como narrativa e do consumo como prática - as marcas, produtos, serviços, mercados, compras, escolhas, atitudes, decisões, etc. - faz parte de um universo de trocas simbólicas que acontecem entre atores sociais no palco da cultura. Publicidade e consumo são, entre outras coisas, processos de comunicação e classificação de pessoas e objetos.

O projeto, portanto, considera o estudo da narrativa publicitária e do consumo como referências centrais para uma interpretação da cultura contemporânea. As representações, experiências e práticas que esses fenômenos acionam definem uma instância de invenção de categorias ordenadoras da cultura em nosso tempo, expressando princípios, ideais, sensibilidades, estilos, identidades sociais e projetos coletivos. A publicidade e o consumo espelham, com exata adequação, certo “espírito do tempo”, uma face bem definida da sociedade na qual vivemos. Não é por acaso que a experiência contemporânea se traduz no que chamam “sociedade de consumo”.

A complexidade e a riqueza intelectual das questões aí implicadas indicam que estudá-las traduz um esforço intelectual significativo para atender uma efetiva demanda produzida pela cultura contemporânea. Em certo sentido, compreender a sociedade contemporânea passa pela compreensão de algumas das questões que se inscrevem na pesquisa dos dispositivos publicitários e das experiências de consumo. Conhecer o poderoso sistema de representações sustentado pela narrativa publicitária e pelas práticas de consumo é uma chave para a compreensão profunda das transformações sociais que fundaram a chamada modernidade.

Estudar o consumo através do contexto simbólico no qual ele está inserido é investir na tradição acadêmica que pensa a modernidade para além da visão predominantemente utilitária. A compreensão da sociedade moderno-contemporânea teve no pensamento econômico - e na categoria “produção”, em especial - a sua chave explicativa básica. O consumo foi relegado a um mero reflexo, uma espécie de efeito secundário da produção, dentro de uma visão racionalista e utilitária, dominada pela chamada “razão prática” (Sahlins, 1979).

É no sentido de realizar um debate intelectual capaz de ampliar essa interpretação da cultura moderno-contemporânea que é necessário estudar estes sistemas simbólicos - consumo e narrativa publicitária - como oportunidade privilegiada para entender muitos dos significados da mentalidade contemporânea e, também, da experiência brasileira (DaMatta, 1985). Algumas possibilidades promissoras deste estudo passam por uma démarche que assuma a narrativa publicitária e o consumo como códigos culturais capazes de expressar uma complexa pluralidade de mensagens, disponibilizar um amplo conjunto de experiências e mapear uma parte substancial das práticas cotidianas. Assim, nossa referência para realizar essa pesquisa está na tradição das análises de sistemas simbólicos que balizam um espaço teórico seguro composto de materiais clássicos na literatura da Comunicação e das Ciências Sociais.

Metodologia:

Para realizar esta investigação, o projeto vai privilegiar métodos de pesquisa qualitativos e, em particular, a etnografia. O método etnográfico pode ser caracterizado como captação e interpretação de valores e práticas socialmente experimentadas, através de uma ênfase na exploração de fenômenos particulares; na perspectiva microscópica; nas entrevistas em profundidade; na análise do discurso de informantes; na investigação em detalhe; na observação participante; na decodificação de representações. A etnografia busca, para utilizar a consagrada expressão de Clifford Geertz, realizar uma “descrição densa” da experiência cultural (Geertz, 1978) sendo o conhecimento científico gerado, em certo sentido, pela visão interna de um fenômeno obtida a partir do ponto de vista “nativo”. Para além do contexto “clássico” do qual nasceu, a etnografia consolidou uma tradição de estudo de sistemas culturais de grupos urbanos, abrindo espaço para a análise de fenômenos como publicidade e o consumo - suas representações e suas práticas.

Este projeto visa, portanto, pesquisar representações, estilos e valores expressos na narrativa publicitária e, efetivamente, experimentados nas práticas de consumo dos atores sociais. Utilizar a etnografia como método de pesquisa quer dizer estudar as categorias que norteiam o pensamento e as práticas de grupos sociais concretos, historicamente datados, dotados de fronteiras culturais nítidas e características comuns de experiência. A primeira questão tipicamente etnográfica é, portanto, configurar um grupo como conjunto de atores sociais que compartilham certa homogeneidade de pensamento, que trocam experiências, que possuam ethos, visões de mundo, práticas e estilos de vida capazes de permitir a construção de unidades sociológicas significativas.

Definir fronteiras que estabeleçam uma espécie de territorialidade simbólica é parte do cuidado etnográfico com o qual se pretende conduzir a pesquisa. Por isso, o projeto procurará captar a visão que os grupos sociais possuem dos significados dos anúncios publicitários e do consumo, entendendo o peso relativo destes fenômenos em suas vidas. Etnografias são estudos concretos e pontuais, que pretendem conhecer os fenômenos a partir das percepções de grupos e, assim, entender como eles concebem e praticam suas experiências de vida. O esforço de ouvir o outro, a perspectiva microscópica e a busca de relativização que isto implica são marcas próprias do projeto etnográfico. Nesse sentido, é nosso propósito também examinar os limites e possibilidades da etnografia como instrumento de pesquisa em Comunicação, analisando os significados das representações publicitárias e das práticas sociais de consumo.

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Representações sociais do corpo e da morte na cultura midiática.
Docente: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues

Descrição:

Estudar a construção de imagens e representações do corpo e da morte pelos meios de comunicação e investigar as práticas corporais suscitadas pela cultura midiática.

Antecedentes:

Este projeto procura dar continuidade aos trabalhos de investigação que, com o apoio de instituições como CNPq, Fundação Ford, ANPOCS, BNDES e Faperj, o pesquisador responsável vem desenvolvendo, desde os anos setenta, sobre sistemas sociais de classificação do corpo e sobre representações sociais do corpo e da morte na sociedade industrial. Tais trabalhos prosseguiram, a partir de 1982, versando sobre reconstituição das crenças e práticas associadas ao corpo e à morte no Rio de Janeiro, sempre com o apoio do CNPq. Tais estudos resultaram nos livros Tabu do Corpo (1979) e Tabu da Morte (1983). Posteriormente, materializando o desenvolvimento do trabalho a que o presente Projeto diz respeito, resultaram os livros Ensaios em Antropologia do Poder (1992), Higiene e Ilusão (1995), O Corpo na História (1999) e Comunicação e significado (2006).

Objetivo:

A pesquisa volta-se para a análise dos significados contemporâneos do corpo e da morte, conforme se materializam em tópicos como saúde, higiene, bem-estar, juventude, beleza, violência, risco, velhice, doença, lixo... É ponto central da investigação considerar o modo pelo qual estes tópicos específicos vêm sendo afetados por fenômenos característicos da sociedade industrial-capitalista, tais como trabalho, previdência, tempo livre, moda, consumo, mercantilização, globalização, subjetivação, espetacularização, massificação e individualização.

Entre os objetivos desse projeto figura o desenvolvimento de trabalhos que se proponham a aprofundar a investigação do problema das representações sociais do corpo e da morte e de o compreender em função da realidade brasileira.

Perspectivas teóricas:

A hipótese geral da pesquisa é a de que o desenvolvimento da sociedade industrial vem progressivamente liberando os corpos de serem os produtores do sistema socioeconômico (“corpos-ferramentas”) e os obrigando a assumir um novo papel, o de reprodutores da ordem social e política (“corpos-consumidores”). A hipótese específica é a de que os meios de comunicação desempenham papel fundamental neste processo, na medida em que definem, propõem e, mesmo, impõem novos padrões de saúde, higiene, beleza e bem-estar. Por outro lado, as representações do corpo vigorantes na sociedade industrial, capitalista, de consumo e individualista raramente reservam um espaço confortável para a morte, cuja explicitação se torna tabu e cujos ritos tendem a se disfarçar nos bastidores da vida coletiva.

As exceções a esta regra geral também merecem atenções teóricas e conceituais. A morte silenciada dos cotidianos – que foi constatada quase unanimemente pelos sociólogos e historiadores da morte no Ocidente - com frequência aparece de modo quase publicitário e espetacularizado nos meios de comunicação. Isto se dá especialmente por ocasião de catástrofes naturais, de acidentes de grandes proporções, ou de morte de pessoas célebres. Nesses termos, a espetacularização da morte pode então estar apontando para uma nova direção dos ritos fúnebres? Os meios de comunicação de massa, sobretudo os eletrônicos, podem estar tornando a morte mais pública? Podem estar propiciando uma relação mais face a face com esta? Há ainda outra questão empírica de grande importância a ser estudada: a espetacularização dos funerais de pessoas comuns. Que dizer desses rituais, que aparentemente começam a se difundir, que transformam as antigas e vetustas solenidades fúnebres estritamente familiares em quase shows produzidos e geridos por empresas?

O recorte empírico fundamental da pesquisa procurará averiguar a presença do corpo e da morte nos meios de comunicação, colocando em evidência os valores que lhes são atribuídos, as suas frequências e as suas tipologias em veículos como jornais, revistas, televisão, cinema, rádio e internet. A pesquisa dará ênfase particular à analise de peças publicitárias associadas ao corpo e à morte (raras, porém muito expressivas), especialmente àquelas que apresentam um valor que a experiência do pesquisador supõe ser estratégico, como os anúncios e campanhas que versam, entre outros, sobre seguros de vida, promoção da saúde, segurança do trabalho, prevenção de doenças letais, aposentadorias privadas, campanhas de vacinação, evitação de DSTs, etc.

Um trabalho dessa natureza, conjugando representações do corpo e da morte, tem uma virtude, propositalmente procurada: tão relevante quanto estudar aquilo que uma sociedade quer ser é estudar aquilo que ela não quer ser, pois frequentemente, por suas facetas negativas, as sociedades mostram aquilo que escondem em seus lados positivos. No caso específico da morte, esta propriedade se demonstra ostensivamente, uma vez que as crenças e práticas associadas à morte, em toda sociedade, se ligam intimamente aos modos de vida e às atitudes diante da existência, afetando diretamente as concepções e práticas corporais.

Ao lado dos estudos desenvolvidos pelos teóricos da comunicação relativos ao entendimento do fenômeno midiático, o presente projeto reserva um lugar importante para conceitos, teorias e conhecimentos desenvolvidos no campo antropológico e que se revelaram bastante apropriados para o estudo da significação, dos dramas sociais, dos sistemas mitológicos e rituais. Especialmente, para abordar o tema do corpo e da morte na cultura midiática o desenvolvimento deste projeto servir-se-á de conceitos e teorias destinados ao entendimento das práticas corporais, dos ritos fúnebres, das crenças e concepções sobre o após a morte. Trata-se, por exemplo, de trabalhos como os de Van Gennep, Victor Turner, Leach, Lévi-Strauss, Radcliffe-Brown, Mary Douglas, Louis-Vincent Thomas, entre outros.

Metodologia:

Uma determinação rígida dos métodos de trabalho poderá certamente conter erros. Não obstante, o enfoque teórico adotado sugere algumas "operações" cuja realização poderá ser promissora no que diz respeito ao fornecimento de dados relevantes para a presente pesquisa. Sem ordem de prioridade, pode-se mencionar os seguintes "focos" de trabalho, observando, entretanto, que a experiência já aprendeu que estes focos não fornecem materiais homogêneos:

  • Imagens: pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, filmes, imagens de TV e de publicidade, etc. que, incidindo direta ou indiretamente sobre o tema da pesquisa, relatem ou permitam inferir fatos associados, por exemplo, às práticas corporais, às cenas do morrer, aos ritos corporais e fúnebres, às paisagens cemiteriais e também aos cenários dos corpos (parques, praias, esportes, etc.), às concepções sobre o além e sobre a materialidade corporal... Tais imagens poderão ser objeto de análise semiológica, simbólico-estrutural ou de conteúdo.
  • Jornais: a leitura de jornais de épocas distintas poderá fornecer material farto a uma pesquisa sobre corpo e morte na cultura midiática, se nela forem considerados, por exemplo, os anúncios fúnebres, de remédios, de clínicas, de tratamentos de doenças, de academias de ginástica, de dietas, as coberturas dos funerais de pessoas "importantes", as reportagens sobre doenças letais, crimes e acidentes... Semelhante material costuma se prestar bem à análise quantitativa de conteúdo.
  • Literatura: os romances frequentemente fazem a etnografia dos costumes da época em que foram escritos ou em que se desenvolveram as ações que relatam; documentos literários poderão vir a fornecer relatos sobre como eram/são as práticas e representações do corpo, as expressões corporais, os modos de trajar, como se morria/morre nas diferentes épocas, como se vivia/vive a agonia, como se comunica(va) o advento da morte à coletividade, como eram/são os ritos funerários, as etiquetas das condolências e do luto, como se dava ou dá a reorganização das relações sociais...
  • Arquivos: poderão ser consultados arquivos de tribunais, de cartórios, de instituições policiais, de instituições religiosas (paróquias, seminários, conventos...), de instituições ligadas à morte e ao corpo (necrotérios, cemitérios, santas-casas... mas também academias, clubes, escolas de medicina, de enfermagem), arquivos de jornais e de emissoras de televisão.
  • Visitas e observação direta: poderão ser profícuas as visitas a instituições direta ou indiretamente associadas ao corpo e à morte. Penso, por exemplo, em fortificações, presídios e cadeias, igrejas e conventos, cemitérios para humanos e para animais domésticos, necrotérios, asilos e hospitais; também em academias, hospitais, clínicas de cirurgia plástica, de tratamento de disfunção erétil...

Para investigar as representações do corpo na cultura dos meios de comunicação, o projeto utilizará prioritariamente o método etnográfico. Isto é, sempre que possível, o projeto dará ênfase à observação participante, às entrevistas em profundidade e à análise dos discursos espontâneos dos informantes, dos produtores e dos destinatários das representações.

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João do Rio e as representações da cidade:
    o artista, o repórter e o artifício
Docente: Prof. Dr. Renato Cordeiro Gomes

Descrição:

Minimizada até pouco tempo, a obra de João do Rio, em sua maioria produzida para a imprensa, vem ganhando atenção nos últimos dez anos, depois do declínio das narrativas de ruptura. Grande parte dessa obra, ainda não foi resgatada dos jornais e revistas. Este projeto procura resgatá-la, editá-la e estudá-la. Como profissional de imprensa, João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, trabalha numa simbiose de documental e ficcional, com a consciência do dilema do artista na modernidade frente à sua autonomia/individualidade e ao mercado. Realiza as tensões entre o jornalista e o artista, que lança mão do artifício, para representar-se na sociedade e escrever, em suas próprias palavras, "o reflexo tumultuário das transformações da vida do Rio de Janeiro". Por esse viés, traça seu projeto mais ousado: a formulação de uma psicologia urbana, que fecunda o imaginário carioca, à medida que enfrenta a problemática legibilidade da cidade que se modernizava, e que ele registra em suas crônicas e reportagens, que, rigorosamente selecionadas e organizadas, foram publicadas em livros, revelando que essa outra materialidade acarreta alterações na construção da narratividade e da significação, ao mesmo tempo em que explora a retórica do moderno, que se implantava no Brasil, em especial, no Rio de Janeiro. Objetiva-se resgatar, em fontes primárias (Gazeta de Notícias, O Paiz, Kosmos, Ilustração Brazileira, Cidade do Rio,entre outras) na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, parte da produção de João do Rio, recuperando os títulos originais das colunas e séries, verificando as implicações na produção de sentido a mudança de suporte material (do jornal e revista para o livro) e estudando aí as representações do Rio de Janeiro.

Antecedentes:

Para melhor contextualizar o presente projeto, é necessário situá-lo na série histórica dos projetos anteriores, que vêm recebendo, sem interrupção, o patrocínio de CNPq, desde 1994, de que sou pesquisador 1B, de Produtividade em Pesquisa.

Do primeiro projeto dessa série, “A leitura da cidade moderna e o Rio de Janeiro”, resultou o livro Todas as cidades, a cidade (2 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2008). Buscou-se aí ler textos que liam a cidade, para construir um modelo teórico (não rígido e sempre provisório) para a leitura da cidade moderna. Adotando uma perspectiva multidisciplinar, com ênfase nas representações midiáticas e literárias, elegeram-se, estrategicamente, textos responsáveis pelo olhar prismático sobre a biblioteca da cidade moderna, para depreender-se a legibilidade da cidade que se foi tornando ilegível. O quadro teórico construído serviu de embasamento para a leitura do Rio de Janeiro representado e dramatizado em textos narrativos do século XX, estrategicamente selecionados.

Esse ponto de partida motivou desdobramentos em projetos subsequentes que tiveram como centro, ou mesmo linha articuladora entre eles, a representação da cidade moderna e suas derivas pós-modernas, em especial o Rio de Janeiro, mas não restringindo a essa metrópole, sobretudo no projeto (biênio 1998-2000) Grafias urbanas: representações da cidade na narrativa brasileira dos anos 1980 e 1990. Buscou-se verificar como a cidade, num contexto de globalização e cada vez mais rarefeita enquanto presença encorpada nas narrativas, é representada em sua diversidade.

O projeto seguinte (2000-2003), Cidade e nação: representações do Rio de Janeiro no início e no final do século XX – uma guerra de relatos, buscou aprofundar essas questões, estudando a tematização e as representações do Rio de Janeiro em duas viradas do século, para isso conjugando “cidade e nação”. Se no início do século XX havia um projeto de nação em que se impunha a construção de uma “alegoria nacional”, que, a partir do Rio de Janeiro, apontava para o futuro, o fim do século, numa época pós-utópica, aponta para o esgarçamento dessa alegoria. Por outro lado, frente à globalização econômica e cultural, volta-se a repensar a nação não mais como um todo unitário e homogêneo, e já não se pensa a identidade cultural, agora múltipla e fragmentada. Da perspectiva teórico-crítica aberta pela investigação, derivou-se um outro projeto Imagens e representações do Rio de Janeiro no início e no final do século XX, inserido na linha de pesquisa “Comunicação e representações sociais”, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio.

O projeto para o triênio 2003 - 2006, O livro de registro da cidade: mídia, literatura e experiência urbana, propôs uma espécie de síntese-balanço que pudesse viabilizar uma espécie de coroamento dos projetos anteriores e possibilitasse, ao mesmo tempo, aprofundamento da investigação para verificar como as abordagens teórico-críticas da cultura das mídias e da literatura configuram a questão da representação e da legibilidade da cidade moderna e suas derivas pós-modernas. A cidade caracteriza-se como arena cultural, espaço dos embates das múltiplas culturas urbanas. Discutiram-se os efeitos e as potências da vida nas grandes cidades na produção midiática, artística e literária, atestando ser a cidade algo que produz sentidos – um sistema de representação cultural, que se conecta a traços da vida contemporânea, tais como o deslocamento, o desenraizamento, a fragmentação, a desterritorialização. Esse quadro atrela-se a um tempo marcado pela intensificação dos fluxos comunicacionais, pela globalização, e contraditoriamente pelo acirramento da noção de local, pela crise do Estado-nação que afeta a clássica definição sócio-espacial de identidade, referida a um território particular.

Tais aspectos permitiram articular a pesquisa à questão da legibilidade da cidade, que funcionou como fio articulador das pesquisas, aqui sintetizadas. Revelou, ainda, a necessidade do caráter multidisciplinar na abordagem do fenômeno urbano, para enfatizar o papel das mídias e da literatura na (re)articulação permanente do imaginário urbano.

Esta série de investigações coerente e articulada forneceu um lastro para a proposta do projeto para o período 2006-2010, proposta renovada, pela extensão do corpus, com bolsa de Produtividade em Pesquisa para o período 2010-2014 e que  trouxe para o centro das preocupações um objeto até certo ponto recessivo em pesquisas anteriores. Refiro-me à obra de João do Rio, que vem sendo objeto de minhas reflexões, mas sobretudo a partir da preparação do volume sobre o autor para a “Coleção Perfis do Rio”, publicado em 1996.

Essas revisitações levaram-me a constatar certos fatos que dificultam o acesso aos textos do autor: (a) dos seus 26 livros publicados (um deles póstumo), poucos foram republicados nas duas últimas décadas (alguns, hoje, de difícil acesso), além de algumas coletâneas (desde a pioneira João do Rio: uma antologia, de 1971, com a qual seu organizador, Luís Martins, ensaiou um resgate do autor; até o volume João do Rio por Renato Cordeiro Gomes (2005), que organizei e escrevi um estudo introdutório, para a Coleção “Nossos Clássicos”, retomada pela Ed. Agir; (b) poucas bibliotecas no país possuem em seus acervos todas as obras publicadas em livro do autor, destacando-se o Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, herdeira da biblioteca de João do Rio; (c) parte significativa dos seus textos ainda estão nos jornais e revistas ilustradas em que colaborou, disponíveis (muitas vezes em estado precário) no acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Essas constatações juntam-se ao fato do interesse que a obra de João do Rio vem despertando a partir dos anos 80, mas sobretudo nos de 1990.

Objetivos:

Os objetivos desta pesquisa consistem, numa primeira instância, o resgate em fontes primárias de crônicas de João do Rio, o que implica consultas na Biblioteca Nacional. As fontes selecionadas foram os periódicos: (a) o jornal Gazeta de Notícias, o mais importante periódico da época no qual João do Rio escreveu de 1903 a 1915, e chegou a redator chefe, publicando uma infinidade de colunas e séries, textos de vão de crônicas a contos, enquetes, reportagens, resenhas de livros, comentários políticos, relatos de viagens, traduções, folhetins...  Interessa, aqui, selecionar essencialmente crônicas e reportagens que tratam das representações do Rio de Janeiro, em especial a coluna “A cidade (07/09/1903, a primeira colaboração de Paulo Barreto na Gazeta de Notícias, assinando com um X., a 20/03/1904), as séries “A pobre gente” (1904), que trata das figurações da miséria no Rio de Janeiro, e “A vida na cidade” (de 21/12/1906 a 15/02/1907), a coluna “Cinematographo”, assinada por Joe (11/08/1907 a 19/12/1910), que deu origem ao livro homônimo; (b) O Paiz, outro importante jornal carioca para onde Paulo Barreto se transferiu em 1915 e colaborou até 1920: aqui, elege-se a coluna “Pall-Mall Rio” (23/09/1915 a 04/10/1917), de José Antônio José, que deu origem ao livro homônimo, em que seleciona as crônicas que compõem uma espécie de “revista de uma estação”, o inverno carioca de 1916, pela anotação da vida elegante dos “encantadores”, que freqüentam essa coluna social; (c) Kosmos, a sofisticada revista criada em 1904, que, como símbolo das reformas modernizantes de Pereira Passos, divulgava as noções de progresso e buscava ganhar a opinião pública das elites para essas mudanças que queriam mostrar que o Rio se civilizava, sob o signo do cosmopolitismo. Aí. João do Rio publicou, entre 1904 e 1906, crônicas e reportagens; (d) A Ilustração Brazileira, revista em que colaborou de 14/06/1914 a 01/11/14, em que adota o Rio de Janeiro como ponto de observação da cidade, do país e do mundo. O trabalho com essas crônicas que privilegiam as representações do Rio de Janeiro implicará a transcrição, atualização da ortografia, tendo o cuidado de preservar as palavras estrangeiras, marcas de época e do estilo de João do Rio. É necessário também elaborar notas informativas, culturais e contextuais.

Objetiva-se com essa recolha resgatar os títulos originais das colunas e séries, reagrupando as crônicas nas seções originais, distribuindo-as pela cronologia rigorosa. Por outro lado, a investigação exige, ainda, o cotejo com as que foram reeditadas em livro (boa parte delas é ainda inédita nesse suporte). É de extrema relevância estudar a organização desses livros de crônicas (em especial A alma encantadora das ruas, 1908, que inclui textos da revista Kosmos e das séries “A vida na cidade” e “A pobre gente”; e Cinematographo,1911,e Pall-Mall Rio, 1916, que rearranjam as crônicas das colunas homônimas), para estudar a passagem do jornal ao livro, verificando o que implica essa mudança do suporte material, em função da produção de sentido na representação do Rio de Janeiro, certamente o personagem mais encorpado desses textos.

Este objetivo implica ampliar a pesquisa teórica que atualize as diversas abordagens sobre a representação da cidade moderna e, em especial, do Rio de Janeiro, tema privilegiado na obra de João do Rio. Esta acurada investigação possibilitará uma revisão e ampliação da bibliografia sobre mídia e experiência urbana, que contemple os múltiplos aspectos que a questão requer, a exemplo da comunicação como via de acesso ao urbano, ou das representações da cidade na cultura midiática. É imperativo, portanto, essa investigação teórica que conta, hoje, com uma rica bibliografia, que, em perspectiva transdisciplinar e multicultural, se abre para outros campos do saber com os quais os estudos de mídia podem estabelecer fecundo diálogo. Nesta ótica, objetiva-se estabelecer, quanto à representação da cidade, as relações entre mídia, literatura e outras artes e o universo mais amplo da cultura, com destaque para as representações da cidade mediadas pela imprensa, de que se valeu João do Rio.

Perspectivas teóricas:

João do Rio achava, como declarou, que sua obra só poderia ser vista, em conjunto, “dentro de dez anos. Aí verão, talvez, que eu tentei ser o reflexo tumultuário de transformações e que, nos meus livros, não está a obra-prima, mas em todos os aspectos morais, mentais, políticos, sociais, mundanos, ideológicos, práticos - a vida do Rio...”

Com toda certeza, ele acertou quanto à visão de conjunto de sua prolífera obra, mas errou quanto ao tempo para que sua produção múltipla pudesse ser avaliada. A fiar nos números observados em edições de seus livros, pode-se dizer que ele foi um best-seller de seu tempo, além de ter um expressivo público de leitores de seus textos (crônicas, contos etc) publicados na imprensa. Sua obra, porém, foi sendo praticamente esquecida, sem reedições, minimizada em nossa historiografia da imprensa e da literatura. Raúl Antelo levanta a hipótese de que tenha sido imprescindível o declínio das narrativas de ruptura para avaliarmos que sua obra contribuiu decisivamente a abrir janelas na modernidade brasileira.  De fato, o tratamento que a obra de João do Rio recebeu da crítica e historiografia, até os anos 1980, com as exceções de praxe, desconsiderava seus aspectos modernos e significativos para a análise do projeto republicano e na inserção compulsória do Brasil na Belle Époque (a expressão é de Sevcenko (1983), embora, algumas vezes, elogiavam-se os dotes invulgares do jornalista que reformou a imprensa brasileira, arejando-a e movimentando-a, bem como o cronista ágil e sagaz, ou o valor de algum conto. Contribuiu para o julgamento negativo o não-enquadramento da produção de João do Rio nos preceitos que se tornaram os cânones oficiais do Modernismo brasileiro (visto em sua versão paulista dado como hegemônica, como matriz), padrão que serviu de paradigma para julgamento de obras e autores que precederam o movimento inaugurado em 1922, sob os parâmetros das vanguardas e da ruptura. Somente nos anos 1980, motivadas pelos renovados estudos históricos da República Velha, começaram as revisões do período com as pesquisas sobre o Pré-modernismo (com destaque para o grupo da Fundação Casa de Rui Barbosa), que matizaram o período, resgatando autores até então relegados ao limbo do esquecimento, como ainda puseram em xeque a falta de critérios sistemáticos e consistentes no estudo desses autores, entre os quais se destaca João do Rio. Além disso, uma outra visada teórico-metodológica permitiu novas abordagens do período, ao considerar a produção discursiva do período em suas relações com outras produções culturais.

Justifica-se, assim, dar continuidade ao resgate de parte significativa da produção de João do Rio e propor um estudo sobre ela. Tal investimento implica trabalhar com fontes primárias, mas requer o equacionamento de determinas questões que conduzirão o estudo da obra que, em primeira instância, foi publicada em jornais e revistas. Essa materialidade certamente determinada modos de enunciação coadunados com os veículos da impressa que medeiam esse tipo de texto (a crônica, sobretudo), que ganha outra dimensão ao passar para outra materialidade, o livro.

Formulemos a questão em outras palavras. Ao tornar-se um homem de letras, abraçando para toda a vida o jornalismo, é sem dúvida o primeiro grande repórter brasileiro do início do século XX. É como profissional da imprensa que escreve vertiginosamente nos principais jornais e revistas ilustradas do país, revelando-se, por excelência, o cronista que registra as transformações e o cotidiano do Rio de Janeiro.

Escrever na imprensa, também espécie de laboratório ou lugar primeiro da maioria de seus textos, era “o voluntário cativeiro para o qual não há abolição possível”, como disse em crônica da Gazeta de Notícias, de 10/05/1908, quando se comemorava o centenário da imprensa no Brasil. Vê os jornalistas como “escravos do momento social”, cujo trabalho é estar nos lugares todos “para descrever tudo com ou sem exagero, com ou sem simpatia, mas fatalmente, pois têm de falar da vida alheia”; então “o remédio é escrever, escrever sem descanso atabalhoadamente, fazer o grande poema épico da semana, sem a demora de um instante”. João do Rio demonstra uma aguda consciência do papel da imprensa no mundo moderno, tributário do instante (lembre-se que “O Instante” é o título da coluna que assina com o pseudônimo Joe, na Gazeta de Notícias e depois em O Paiz), e prende-se à matéria (a realidade observada), com que vai construindo uma obra em progresso, aberta e inacabada, cuja grandeza é feita do instantâneo (como o fixado pelo fotógrafo, como afirma numa crônica de Pall-Mall Rio), do flagrante do cotidiano urbano. Dessa mesma matéria escreve também sua obra de ficção. Esse comércio tem, na sua ambivalência, o artifício como moeda comum, e põe a nu a discussão sobre o valor estético num mundo em que os bens simbólicos são também mercadoria. João do Rio fica, portanto, entre o pragmatismo do jornalista e a autonomia do artista, entre a mercadoria e a arte.  É o dilema do artista na modernidade: livre do mecenato, busca sua autonomia, mas tem de submeter-se às leis do mercado, sabendo que a arte que produz é mercadoria que requer comprador. O artista passa a ser uma espécie de “marginal” no mundo pragmático das utilidades e da funcionalidade, patentes na modernidade, mesmo em sua adaptação nestes trópicos periféricos, numa época de arrivismo, de inserção compulsória numa ordem econômica capitalista, como acontecia com o Brasil. O artista perde a autonomia, sai da exclusividade da esfera estética, para ficar à mercê do consumidor. Está em pauta a discussão sobre valor estético, questão que se estenderá até nossos dias, quando a legitimação da obra arte passa por outras instâncias e instituições, em que o estético cede lugar ao cultural. Essa discussão já está circulando nas reflexões de João do Rio.

A artificialização é, então, uma tendência que “corresponde ao desejo de superar as condições precárias da realidade social e da própria natureza” (Levin, 1996, p. 84), a que estão relacionados os recursos do cinismo e da ironia que marcam com certa freqüência narradores e personagens de crônicas e de narrativas ficcionais.

Em síntese, essa tomada de posição que molda sua produção discursiva revela a percepção de que a cultura de massa, que começava a ganhar relevância no Brasil, com a chegada de novos recursos técnicos, poderia afetar (e representar um “perigo” para) a literatura. Essa preocupação de João do Rio estava na enquete que ele organizou na Gazeta de Notícias sobre o a situação da literatura em relação ao jornalismo, para já ir apontando tensões entre a alta cultura e a cultura de massa, naquele momento. Esse fator que implica borrar os limites entre a notícia e a ficção, e a relação de ambas com as novas técnicas, é retomado nos prefácios de Cinematographo (1909), de Vida vertiginosa (1911) e de Pall-Mall Rio (1916), ao expor a concepção desses livros, que recolhem e re-arrumam crônicas antes publicadas na imprensa, revelando ao mesmo tempo a consciência de que essa outra materialidade (o livro) afeta a produção de sentido e a própria concepção de jornalismo e de literatura. A obra de João do Rio realiza dramaticamente as tensões entre o jornalista e o artista, que lançam mão do artifício, para escrever “o reflexo tumultuário de transformações, (...) em todos os aspectos morais, mentais, políticos, sociais, mundanos, ideológicos, práticos - a vida do Rio...” - nas palavras do próprio autor. Deste ponto de vista, deriva-se a pergunta que possibilitará articular a leitura dessa vasta produção estampada nos jornais e revistas ilustradas da Belle Époque tropical: “o que é ler/escrever o Rio de Janeiro? E seu colorário: “com que linguagem?”. Conjugam-se, assim, o jornalista, o artista e o artifício. Esses traços convergem, assim, para as representações do Rio de Janeiro e para a formulação de uma psicologia urbana, binômio que se articula no projeto mais ousado de João do Rio.

Dotado de aguda consciência de artista e jornalista, que sabe que produz para o mercado, Paulo Barreto desdobra-se em outros nomes. Faz-se múltiplo, para captar o efêmero, o contingente, o circunstancial, que é o mundo moderno atrelado ao universo urbano marcado pela mudança. Registra o que está destinado a desaparecer: “Olhai os mapas das cidades modernas. De século em século a transformação é quase radical”, diz em A alma encantadora das ruas, de 1908. Para tal fim dá privilégio ao gênero que, por suas características, está mais adequado à fixação do efêmero: a crônica moderna, filha da cidade, presa ao instante e veiculada pela imprensa, que se moderniza também no Brasil do começo do século XX e que fará circular nesses trópicos, a partir do Rio, as acepções de moderno, modernidade e modernismo, instaurando, antes de 1922, toda uma retórica do moderno.

Essas são as questões que esta pesquisa quer enfrentar, ao trabalhar com um duplo movimento, o resgate das crônicas de João do Rio e um estudo desse imenso repertório de textos em que se busca equacionar a aguda consciência do autor em relação à produção artística enquanto mercadoria, às tensões entre a literatura e o jornalismo, numa época em que a cultura de massa ganha terreno no Brasil, com o desenvolvimento e modernização da imprensa, a proliferação das revistas ilustradas, a fotografia, as charges, o cinematógrafo. As preocupações quanto aos efeitos do jornal na literatura revelam-se no inquérito com escritores que realizou em 1905, publicado em livro em O momento literário (1907). Como homem de letras e como homem de imprensa, sua obra borra os limites entre o fato e a ficção: sua crônica e seus contos e romances realizam o comércio entre a literatura e o documento, e propõe esse pacto ao leitor. Esse comércio tem, na sua ambivalência, o artifício como moeda comum, e põe a nu a discussão sobre o valor estético num mundo em que os bens simbólicos são também mercadoria.

Metodologia:

A investigação será feita em dois tipos de procedimentos. De um lado, a pesquisa nas fontes primárias (jornais Gazeta de Notícias e O Paiz e as revistas Kosmos e A Ilustração Brazileira), na Biblioteca Nacional e em outros acervos que se fizerem necessários, para levantamento e regate das crônicase reportagens de João do Rio. Esse trabalho requer leitura rigorosa dos textos, reconstituindo-lhes a feição original, recontextualizando-as nas colunas ou séries em que foram publicadas e estabelecendo-lhes a cronologia precisa. A versão veiculada pela imprensa que será cotejada com a republicada em livro (não se trata de um estudo de crítica genética, mas um trabalho de fixação-editoração dos textos: atualização ortográfica, correção de erros notórios de composição gráfica etc). Busca-se estudar a mudança de suporte material - do jornal ao livro -, a fim de verificar a produção de sentido que essa materialidade implica.

De outro lado, a pesquisa da bibliografia teórica e ensaística merecerá, durante toda a pesquisa, acurada e progressiva triagem, para direcionar as questões apresentadas formuldas neste projeto, na busca de rigoroso embasamento que dê consistência à articulação entre mídia e experiência urbana, conjugada às representações do Rio de Janeiro na obra de João do Rio selecionada e regatada das fontes primárias, que constitui o corpus desta investigação.

A bibliografia arrolada em seção específica deste projeto, embora atualizadíssima, será necessariamente ampliada pela pesquisa, já que o estudo das representações urbanas tem merecido atenção de grande número de pesquisadores no Brasil e no exterior. Nesta perspectiva, é impositivo considerar a problemática do imaginário urbano que, num movimento de mão dupla, fecunda as representações da cidade e é enrequecido por elas. Como atesta Armando Silva, “a idéia brusca e determinista de que na cidade o que importa é o ‘real’, o ‘econômico’, o ‘social’, deixou fora outras considerações mais abstratas, mas não menos reais: podemos dizer que o real de uma cidade não são só a sua economia, a sua planificação física ou seus conflitos sociais, mas também as imagens imaginadas construídas por fora deles, como exercícios fabulatórios, em qualidade de representação de seus espaços e de suas escrituras” (Silva, 2001, p. 79). Nesta ótica, busca-se ler como as “imagens imaginadas” são construídas pelos exercícios fabulatórios que João do Rio materializa nos jornais e nas revistas, proliferando e dispersando as representações do Rio na multiplicidade de aspectos que ele próprio, conscientemente, se dispôs a falar, naquele comércio entre a notícia e a ficção, num pacto que ele assina com o leitor, ao engendrar a narratividade das crônicas e reportagens. “Esses relatos têm o duplo e estranho poder de mudar o ver num crer, e de fabricar o real com aparências. Dupla inversão. De um lado, a modernidade, outrora nascida de uma vontade observadora que lutava contra a credulidade e se fundamentava num contrato entre a vista e o real, transforma doravante essa relação e dá a ver precisamente o que é necessário crer. A ficção define o campo, o estatuto e os objetos de visão” – como formula Certeau (1990, p. 271-272). Disso João do Rio tinha noção aguda, pois sabia que a realidade se nutre de imaginário e que a criava por meio da fabulação que exigia o artifício da linguagem artística, como comprovam os prefácios escritos para seus livros que re-arrumam os textos antes publicados na imprensa, construindo um outro objeto “artístico”, quando alocados em outro suporte material.

A pesquisa, deste modo, dirige o foco de atenção para os textos resgatados de João do Rio que representam a cidade do Rio de Janeiro, considerando as tensões entre o ficcional e o documental, os limites entre a alta cultura e a cultura de massa, aspectos que se articulam na produção do autor, o que implica, como aqui se formulou, uma discussão sobre o valor estético e o valor de mercado. Visa-se a verificar como essas narrativas são respostas textuais aos pressupostos levantados na proposta deste projeto e como se articulam às convenções retóricas das formas midiáticas e literárias e aos regimes discursivos que as atrelam à sociedade e à cultura.

A “experiência urbana” é o traço temático através do qual se conjugam os campos de saber que a investigação exige, ao mesmo tempo em que indica, metodologicamente, a abertura para a perspectiva transdisciplinar condicionadora do objetivo de estudar as formas de representação da cidade na cultura midiática e na literatura e em outros discursos e suas relações contextuais. O foco da investigação direciona-se à problemática da legibilidade da cidade, ou dito de outra maneira, põe-se em pauta a pergunta “o que é escrever/ler a cidade?”, mais especificamente o Rio de Janeiro no corpus selecionado da obra de João do Rio, pergunta que remete ao corolário “com que linguagem?”, implicando o imaginário urbano, as questões do valor, a ordem do discurso, enfim, as imagens e representações da cidade que são cultural e historicamente determinadas e encaradas como construções discursivas.

Esta estratégia pressupõe o deslocamento do foco de abordagem para além do cânone literário, do que foi legitimado pelos pactos que institucionalizaram a literatura, visando à reversão de hierarquias que alimentam os investimentos na auscultação das margens e considerando o ultrapassamento dos limites entre a alta cultura e a cultura de massa. Esta visada crítica contempla a diversidade complexa da produção cultural e impõe a discussão do valor, redimensionando as articulações entre literatura, cultura, política e historicidade e os meios de comunicação de massa.

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